O Sermão

Personagem

Salomão

Pediu a Deus um coração compreensivo, recebeu sabedoria, riqueza e a honra de construir o Templo, e terminou o reinado com o coração desviado. Como o homem mais sábio de Israel pôde cair tão fundo?

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1. O Nome

O filho de Davi e Bate-Seba recebeu um nome que o texto explica com cuidado. Em hebraico, שְׁלֹמֹה (Shelomoh), Salomão, está ligado à palavra shalom, "paz".

Hebraico1Cr 22:9

שְׁלֹמֹה

Shelomoh

Aparentado a shalom, 'paz'; em 1Cr 22:9 o nome é ligado à paz e à tranquilidade prometidas a Israel

"Eis que te nascerá um filho, que será homem sereno, porque lhe darei descanso de todos os seus inimigos em redor; portanto, Salomão será o seu nome; paz e tranquilidade darei a Israel nos seus dias."

1Cr 22:9

O nascimento vem logo depois do episódio mais sombrio da vida de Davi. O narrador de Samuel diz que Davi chamou o menino de Salomão "e o Senhor o amou", e que o profeta Natã lhe deu o nome de Jedidias, "por amor do Senhor" (2Sm 12:24-25). Esse segundo nome é geralmente traduzido como "amado do Senhor". A etimologia de Shelomoh, como a de tantos nomes antigos, não é totalmente certa, mas o texto deixa claro o que o nome significa para quem o ouve: um reinado de paz depois de um reinado de guerras.


2. Ficha rápida

✦Ficha rápida

  • Outras formas: Jedidias (Yedidyah, "amado do Senhor"); em grego, Σολομών (Solomōn).
  • Período: reinou quarenta anos (1Rs 11:42), tradicionalmente de c. 970 a c. 930 a.C. As datas são aproximadas e dependem da cronologia adotada.
  • Locais: Jerusalém, Gibeão, o monte do Templo, Tiro (por meio de Hirão), Ezion-Geber.
  • Família: filho de Davi e de Bate-Seba; casado com a filha de Faraó (1Rs 3:1) e com muitas outras mulheres (1Rs 11:1-3); pai de Roboão, que o sucedeu (1Rs 11:43).
  • Papel: terceiro rei de Israel, construtor do Templo, juiz e sábio; a ele se atribuem Provérbios e o Cântico dos Cânticos, além de dois salmos (72 e 127).
  • Onde aparece: 2Sm 12 a 1Rs 11; também em 1Cr 22 a 29, 2Cr 1 a 9, Ne 13:26 e Mt 12:42.
  • Em uma frase: o rei a quem Deus deu sabedoria incomparável e que, ao longo da vida, deixou o coração se afastar daquele que lha deu.

3. Quem foi

Salomão não era o herdeiro mais óbvio. Quando Davi envelhece, Adonias, outro filho do rei, se exalta e diz: "Eu reinarei" (1Rs 1:5). Natã procura Bate-Seba e lhe diz que ela deve lembrar o rei do juramento de que Salomão reinaria depois dele (1Rs 1:11, 13). Davi confirma: "Teu filho Salomão reinará depois de mim e se assentará no meu trono, em meu lugar" (1Rs 1:30). O sacerdote Zadoque unge Salomão com o óleo tirado do tabernáculo, e o povo grita: "Viva o rei Salomão!" (1Rs 1:39). No leito de morte, Davi lhe ordena: "Guarda os preceitos do Senhor, teu Deus, para andares nos seus caminhos" (1Rs 2:3). O capítulo termina com a eliminação dos que ameaçavam o trono, e o narrador conclui: "assim se firmou o reino sob o domínio de Salomão" (1Rs 2:46).

O reinado começa com uma aliança política e um ato de piedade. Salomão se aparenta com Faraó e toma sua filha por mulher (1Rs 3:1). O texto diz que "amava ao Senhor, andando nos preceitos de Davi, seu pai; porém sacrificava ainda nos altos" (1Rs 3:3). Em Gibeão, depois de mil holocaustos, o Senhor lhe aparece em sonhos e diz: "Pede-me o que queres que eu te dê" (1Rs 3:4-5). Salomão se reconhece como jovem e inexperiente diante de um povo numeroso e pede:

"Dá, pois, ao teu servo coração compreensivo para julgar a teu povo, para que prudentemente discirna entre o bem e o mal; pois quem poderia julgar a este grande povo?"

1Rs 3:9

A resposta agrada a Deus. Ele diz que, como Salomão não pediu longevidade, riquezas nem a morte dos inimigos, mas entendimento para discernir o que é justo, "dou-te coração sábio e inteligente, de maneira que antes de ti não houve teu igual, nem depois de ti o haverá" (1Rs 3:11-12). E acrescenta riquezas e glória (1Rs 3:13). O capítulo mostra a sabedoria em ação no caso das duas mulheres que disputavam uma criança, e conclui que todo o Israel viu "a sabedoria de Deus, para fazer justiça" no rei (1Rs 3:28).

O reino atinge seu auge. Judá e Israel são numerosos, comem, bebem e se alegram (1Rs 4:20), e cada um habita "debaixo da sua videira e debaixo da sua figueira" (1Rs 4:25). O texto afirma que Salomão compôs três mil provérbios e mil e cinco cânticos, e que gente de todos os povos vinha ouvir sua sabedoria (1Rs 4:32, 34).

A grande obra é o Templo. Salomão começa a construí-lo no quarto ano de seu reinado, 480 anos depois do Êxodo (1Rs 6:1), e leva sete anos para concluí-lo (1Rs 6:38). Em seguida, ergue seus palácios, o que lhe toma treze anos (1Rs 7:1). Quando a arca é levada para o santuário, uma nuvem enche a Casa do Senhor, e os sacerdotes não conseguem permanecer ali para ministrar (1Rs 8:10-11). Na oração de dedicação, Salomão faz uma confissão que contrasta com a grandeza da obra:

"Mas, de fato, habitaria Deus na terra? Eis que os céus e até o céu dos céus não te podem conter, quanto menos esta casa que eu edifiquei."

1Rs 8:27

A fama chega longe. A rainha de Sabá, ao ouvir falar de Salomão "com respeito ao nome do Senhor", vem prová-lo com perguntas difíceis (1Rs 10:1). Depois de ver tudo, diz que "não me contaram a metade" (1Rs 10:7) e bendiz o Senhor, que colocou Salomão no trono "para executares juízo e justiça" (1Rs 10:9).

O texto, porém, registra sinais de alerta no meio do esplendor. Salomão forma uma leva de trinta mil trabalhadores em Israel (1Rs 5:13), e mais tarde o povo falará de "pesado jugo" e de "dura servidão" (1Rs 12:4). Seus cavalos vêm do Egito (1Rs 10:28). E a lista de mulheres cresce, até chegar a setecentas esposas e trezentas concubinas (1Rs 11:3). Assim termina o relato:

"Sendo já velho, suas mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses; e o seu coração não era de todo fiel para com o Senhor, seu Deus, como fora o de Davi, seu pai."

1Rs 11:4

Salomão segue Astarote e Milcom (1Rs 11:5), e o Senhor, que lhe aparecera duas vezes, se indigna (1Rs 11:9). A sentença é clara: "tirarei de ti este reino e o darei a teu servo", mas, "por amor de Davi", não o reino todo (1Rs 11:11-13). Levantam-se adversários, como Hadade, o edomita, e Rezom (1Rs 11:14, 23). O profeta Aías rasga uma capa em doze pedaços e dá dez a Jeroboão, que o rei havia posto sobre o trabalho forçado (1Rs 11:28-31). Salomão procura matá-lo, e Jeroboão foge para o Egito (1Rs 11:40). O rei morre depois de quarenta anos e é sepultado na Cidade de Davi (1Rs 11:42-43). Seu filho Roboão responde com dureza ao pedido de alívio, e o reino se divide (1Rs 12:13-16, 20).


4. Contexto histórico e cultural

O reinado de Salomão é apresentado como a época de maior extensão e paz do reino unido. O texto diz que ele dominava "toda a região" aquém do Eufrates, "desde Tifsa até Gaza", e que tinha paz por todo o derredor (1Rs 4:24). Boa parte dessa prosperidade vem do comércio: aliança com Hirão de Tiro para a madeira do Líbano (1Rs 5:12), naus em Ezion-Geber, no mar Vermelho (1Rs 9:26), e importação de carros e cavalos do Egito (1Rs 10:28-29).

Os historiadores discutem quanto da descrição bíblica pode ser confirmado fora do texto. A arqueologia dessa época, em especial a datação de grandes construções atribuídas a Salomão, é debatida, e este perfil não se apoia em nenhum achado específico. A moldura política também ajuda a entender os casamentos: alianças matrimoniais com famílias reais eram um instrumento comum de diplomacia no Oriente Próximo. O problema, para o narrador bíblico, não é a prática em si, e sim o que ela provocou no coração do rei (1Rs 11:2).

A Lei já havia previsto esses riscos. Deuteronômio 17 diz que o rei não multiplicará cavalos, mulheres nem prata e ouro, "para que o seu coração se não desvie" (Dt 17:16-17), e que deve ter consigo uma cópia da Lei e lê-la todos os dias (Dt 17:18-19). Os capítulos 10 e 11 de 1Reis mostram Salomão acumulando exatamente o que a Lei advertia: cavalos do Egito, prata "como pedras" em Jerusalém (1Rs 10:27) e mulheres estrangeiras.


5. Linha do tempo

Linha do tempo


6. O que a Escritura ensina por meio dele

A sabedoria é dom de Deus, não conquista humana. O relato de Gibeão insiste em que Deus "dá" (1Rs 3:12), e 1Reis 5:12 repete: "Deu o Senhor sabedoria a Salomão". Provérbios, atribuído a ele no título (Pv 1:1), apresenta o fundamento dessa sabedoria: "O temor do Senhor é o princípio do saber" (Pv 1:7).

Hebraico1Rs 4:29

חָכְמָה

chokmah

'Sabedoria'; nos escritos de sabedoria, é a habilidade de viver bem diante de Deus, e não apenas conhecimento

Templo e transcendência. O mesmo rei que constrói a casa mais gloriosa de Israel confessa que nem o céu dos céus pode conter Deus (1Rs 8:27). Ele também ora pelo estrangeiro que vier "de terras remotas, por amor do teu nome" (1Rs 8:41-43), e reconhece que "não há homem que não peque" (1Rs 8:46). Em 1Reis 9:3-7, Deus responde: o nome estará ali para sempre, mas a permanência de Israel na terra depende da fidelidade, de Salomão e de seus filhos.

Dons recebidos podem ser usados com o coração dividido. O texto não esconde que Salomão caiu. Neemias 13:26 resume, séculos depois: não havia rei semelhante a ele, "e ele era amado do seu Deus", e ainda assim "as mulheres estrangeiras o fizeram cair no pecado". A sabedoria e a bênção não bastaram para guardar o coração.

O que cada tradição destaca. A tradição reformada, em um devocional da Ligonier Ministries (2019), descreve a sabedoria de Salomão como "mista": sábia na decisão sobre as duas mulheres, imprudente no casamento com a filha de Faraó, que contrariava a Lei. A tradição luterana deu atenção especial à literatura de sabedoria atribuída a Salomão: Lutero escreveu notas sobre Eclesiastes e preleções sobre o Cântico dos Cânticos (Luther's Works, vol. 15), e um estudo publicado no periódico Word & World, do Luther Seminary, resume que Lutero lê Eclesiastes assumindo a atribuição a Salomão e vê no livro a sabedoria que consiste no temor do Senhor. Uma publicação ligada às Assembleias de Deus, a revista Influence (2018), usa Salomão como exemplo de figura que não deve ser apresentada como modelo sem ressalvas, e defende uma pregação centrada em Cristo, e não em imitar personagens. Todas as tradições concordam que a Escritura registra a queda de Salomão com honestidade e a trata como advertência.


7. Cristo e o personagem

Davi recebe a promessa de que seu filho será "por filho" a Deus, mas com um aviso: "se vier a transgredir, castigá-lo-ei" (2Sm 7:14). Em Salomão, essa advertência se realiza. Ao mesmo tempo, a promessa de um trono eterno não depende da fidelidade dele, e o Novo Testamento a aplica a Jesus: o anjo diz a Maria que o seu filho receberá "o trono de Davi, seu pai" (Lc 1:32-33).

O Novo Testamento usa Salomão como ponto de comparação. Jesus compara a si mesmo a Salomão (Mt 12:42). A comparação é explícita: se uma rainha estrangeira atravessou o mundo para ouvir Salomão, quanto mais deveria Israel ouvir Aquele que é maior.

"A rainha do Sul se levantará, no Juízo, com esta geração e a condenará; porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. E eis aqui está quem é maior do que Salomão."

Mt 12:42

A tradição cristã também vê no Templo de Salomão uma figura da presença de Deus entre o povo, e em Cristo o cumprimento dessa presença. Essa leitura é uma extensão de intérpretes, e este perfil a apresenta como tal. O que o texto afirma de modo direto é o contraste: Salomão confessou que o Templo não podia conter a Deus (1Rs 8:27), e o Rei prometido é aquele que não se desviou.


8. Pontos em debate

ℹOnde as tradições divergem

A autoria de Eclesiastes. O livro se apresenta como "Palavra do Pregador, filho de Davi, rei de Jerusalém" (Ec 1:1) e diz que o Pregador foi rei de Israel em Jerusalém (Ec 1:12), o que a tradição judaica e cristã associou a Salomão. Muitos estudiosos, inclusive evangélicos, veem o livro como obra posterior que fala pela voz de Salomão ou no seu estilo, e outros defendem a autoria do próprio Salomão. Este perfil não resolve o debate e usa Eclesiastes só como referência à tradição.

O destino de Salomão. O texto bíblico registra sua queda e a sentença contra o reino, mas não diz o que aconteceu com ele depois da morte. Cristãos de várias tradições discordam sobre se ele se arrependeu no fim da vida. Este perfil mantém o silêncio do texto e não se pronuncia.

A autoria dos Salmos 72 e 127. Os dois salmos trazem o nome de Salomão no título, mas a expressão hebraica pode indicar autoria, dedicação ou associação ao rei. Os intérpretes divergem quanto a cada caso.


9. O que aprender hoje

Peça o que você precisa para servir, não só o que deseja. Salomão podia ter pedido riqueza ou vitória, e pediu discernimento para o povo (1Rs 3:9). O pedido agradou a Deus (1Rs 3:10).

Dom e caráter não andam sempre juntos. Salomão foi o mais sábio dos homens e, ainda assim, deixou o coração se desviar (1Rs 11:4). Dons, cargo e conhecimento precisam de fidelidade contínua para continuar a serviço de Deus.

A queda raramente é súbita. O texto mostra um caminho: uma aliança, depois muitas mulheres, depois altares a outros deuses (1Rs 3:1; 11:1-8). Pequenas concessões, repetidas, formam a direção do coração, e a advertência de Deuteronômio 17 já apontava esse risco.

Grandes obras não substituem a humildade. Diante do Templo, o rei diz que nem o céu dos céus pode conter Deus (1Rs 8:27). Esse reconhecimento protege quem constrói e quem lidera.

A obra de um servo cobra um preço de outros. O esplendor do reino foi sustentado por trabalho forçado (1Rs 5:13; 11:28), e o povo o sentiu como jugo pesado (1Rs 12:4). Quem lidera deve olhar para o custo humano do que constrói.


10. Leituras Recomendadas

  • Calvino, João. Commentaries on the Book of Psalms (sobre o Salmo 72), e Matthew Henry, Comentário Bíblico, sobre 1Reis 1 a 11. Domínio público.
  • Lutero, Martinho. Notes on Ecclesiastes e Lectures on the Song of Solomon. Em Luther's Works, vol. 15. Concordia Publishing House.
  • Ligonier Ministries. "Solomon's Great Wisdom" (devocional), 9 de agosto de 2019. learn.ligonier.org/devotionals/solomons-great-wisdom.
  • Colvin, Chris. "How to Preach on the Bad Men and Women of the Bible". Influence Magazine, 30 de agosto de 2018. influencemagazine.com.
  • Concordia Publishing House. Ecclesiastes (Concordia Commentary). cph.org/ecclesiastes-concordia-commentary.