O Sermão

Personagem

Elias

O profeta que fechou o céu, desafiou Baal no Carmelo e fugiu de Jezabel até o deserto. Elias mostra o zelo, o esgotamento e a voz mansa de Deus, e reaparece no Novo Testamento ao lado de Jesus.

profetaCarmeloBaalAcabeJezabeltransfiguração

1. O Nome

O profeta é chamado אֵלִיָּהוּ (Eliyahu), nome composto que as Escrituras permitem entender sem rodeios: El (Deus) mais Yahu (forma de YHWH), "meu Deus é o Senhor". O nome funciona como resumo da disputa que ele enfrenta, pois o reino de Israel estava dividido entre o Senhor e Baal.

Hebraico1Rs 18:21

אֵלִיָּהוּ

Eliyahu

'Meu Deus é Yahweh' (o Senhor); o nome resume a pergunta que ele faz ao povo no Carmelo

O texto o apresenta como "Elias, o tesbita, dos moradores de Gileade" (1Rs 17:1), sem mencionar pai, mãe ou genealogia. Ele surge de repente na narrativa, diante do rei Acabe.


2. Ficha rápida

✦Ficha rápida

  • Outras formas: em grego, Ἠλίας (Ēlias); o nome aparece como "Elias" nas traduções em português do Novo Testamento.
  • Período: reino do norte, durante o reinado de Acabe (1Rs 16:29 em diante), no século IX a.C., segundo a cronologia mais usada.
  • Locais: Gileade, torrente de Querite, Sarepta de Sidom, monte Carmelo, Jezreel, Berseba, Horebe, Damasco, o Jordão.
  • Família: o texto não registra.
  • Papel: profeta do Senhor no reino do norte, em confronto com a idolatria promovida por Acabe e Jezabel.
  • Onde aparece: 1Reis 17 a 19 e 21; 2Reis 1 e 2; também 2Crônicas 21:12, Malaquias 4:5-6, Mateus 17, Lucas 4:25-26, Romanos 11:2-4 e Tiago 5:17-18.
  • Em uma frase: o profeta zeloso que enfrentou o culto a Baal, ficou exausto e foi sustentado e comissionado por Deus.

3. Quem foi

O contexto vem do capítulo anterior: Acabe, filho de Onri, reina sobre Israel, casa-se com Jezabel, filha do rei dos sidônios, e passa a servir a Baal (1Rs 16:29-33). Elias aparece então com uma declaração que abre o ciclo:

"Então, Elias, o tesbita, dos moradores de Gileade, disse a Acabe: Tão certo como vive o Senhor, Deus de Israel, perante cuja face estou, nem orvalho nem chuva haverá nestes anos, segundo a minha palavra."

1Rs 17:1

Deus o manda esconder-se junto à torrente de Querite: "ordenei aos corvos que ali mesmo te sustentem" (1Rs 17:2-4). Os corvos lhe traziam pão e carne de manhã e de tarde, e ele bebia da torrente (1Rs 17:6). Quando a torrente seca, o Senhor o envia a Sarepta, em território sidônio, onde uma viúva o hospeda e a farinha e o azeite dela não se acabam (1Rs 17:8-16). Depois o filho da viúva morre, e Elias clama a Deus. O texto registra: "O Senhor atendeu à voz de Elias; e a alma do menino tornou a entrar nele, e reviveu" (1Rs 17:22). A mulher conclui: "Nisto conheço agora que tu és homem de Deus e que a palavra do Senhor na tua boca é verdade" (1Rs 17:24).

No terceiro ano da seca, Elias se apresenta a Acabe e propõe o confronto no monte Carmelo. Ali dirige ao povo uma pergunta que se tornou proverbial:

"Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o. Porém o povo nada lhe respondeu."

1Rs 18:21

A prova é simples: dois novilhos, dois altares, e "o deus que responder por fogo esse é que é Deus" (1Rs 18:24). Os profetas de Baal clamam desde a manhã e nada acontece (1Rs 18:26-29). Elias então ora:

"Ó Senhor, Deus de Abraão, de Isaque e de Israel, fique, hoje, sabido que tu és Deus em Israel, e que eu sou teu servo e que, segundo a tua palavra, fiz todas estas coisas. Responde-me, Senhor, responde-me, para que este povo saiba que tu, Senhor, és Deus e que a ti fizeste retroceder o coração deles. Então, caiu fogo do Senhor, e consumiu o holocausto, e a lenha, e as pedras, e a terra, e ainda lambeu a água que estava no rego. O que vendo todo o povo, caiu de rosto em terra e disse: O Senhor é Deus! O Senhor é Deus!"

1Rs 18:36-39

Elias manda matar os profetas de Baal no ribeiro de Quisom (1Rs 18:40) e, em seguida, ora pela chuva, que volta (1Rs 18:41-45). O ponto alto parece o fim da história, e o capítulo seguinte mostra o contrário. Acabe conta tudo a Jezabel, que manda a Elias uma ameaça de morte (1Rs 19:1-2). "Temendo, pois, Elias, levantou-se, e, para salvar sua vida, se foi" até Berseba e depois ao deserto (1Rs 19:3-4). Ali ele se assenta debaixo de um zimbro e pede a morte:

"Basta; toma agora, ó Senhor, a minha alma, pois não sou melhor do que meus pais."

1Rs 19:4

Deus não responde com repreensão. Um anjo o toca duas vezes, dizendo "Levanta-te e come", e Elias caminha quarenta dias e quarenta noites até Horebe, o monte de Deus (1Rs 19:5-8). Na caverna, a palavra do Senhor lhe pergunta: "Que fazes aqui, Elias?" (1Rs 19:9). Ele responde que tem sido zeloso, que Israel abandonou a aliança e que ele ficou só (1Rs 19:10). Deus lhe manda sair e ficar diante dele:

"Eis que passava o Senhor; e um grande e forte vento fendia os montes e despedaçava as penhas diante do Senhor, porém o Senhor não estava no vento; depois do vento, um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto; depois do terremoto, um fogo, mas o Senhor não estava no fogo; e, depois do fogo, um cicio tranquilo e suave."

1Rs 19:11-12

A pergunta se repete e Elias dá a mesma resposta (1Rs 19:13-14). Deus então o comissiona a ungir Hazael sobre a Síria, Jeú sobre Israel e Eliseu como profeta em seu lugar, e corrige a visão de Elias de que estava sozinho: "Também conservei em Israel sete mil, todos os joelhos que não se dobraram a Baal" (1Rs 19:15-18).

Elias ainda confronta Acabe por causa da vinha de Nabote, que o rei tomou com a ajuda de Jezabel (1Rs 21), e anuncia o fim da casa de Acabe. Depois, anuncia o juízo sobre o rei Acazias, que consultara Baal-Zebube (2Rs 1). O fim da sua vida é narrado em 2Reis 2. Elias pergunta a Eliseu o que ele quer antes de ser tomado, e Eliseu pede "porção dobrada do teu espírito". Elias responde: "Dura coisa pediste" (2Rs 2:9-10). O texto continua:

"Indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho. O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai, carros de Israel e seus cavaleiros! E nunca mais o viu; e, tomando as suas vestes, rasgou-as em duas partes."

2Rs 2:11-12

4. Contexto histórico e cultural

Elias vive no reino do norte, dividido de Judá desde a morte de Salomão. A política de Acabe e Jezabel promove o culto a Baal, divindade ligada à chuva e à fertilidade, e persegue os profetas do Senhor (1Rs 18:4, 13). A seca que Elias anuncia ataca o ponto exato da teologia de Baal. O texto não faz essa observação explicitamente, mas a leitura é comum entre comentaristas.

O confronto do Carmelo não é uma disputa entre dois deuses de iguais forças. É uma pergunta sobre a quem Israel pertence. "Até quando coxeareis entre dois pensamentos?" mostra que o problema do povo não era a descrença total no Senhor, e sim a tentativa de servir a dois (1Rs 18:21). A aliança do Sinai exigia exclusividade (Êx 20:3).

A fuga de Elias ao deserto e a chegada a Horebe tecem uma ligação com Moisés. É o mesmo monte onde a Lei foi dada, e Deus se faz presente de maneira que lembra a teofania de Êxodo 33 e 34. Esse paralelo é uma observação de intérpretes, e o texto de 1Reis 19 só diz que ele chegou ao monte de Deus e que ali recebeu a palavra do Senhor (1Rs 19:8-9).


5. Linha do tempo

Linha do tempo


6. O que a Escritura ensina por meio dele

Deus exige exclusividade. A pergunta do Carmelo, "Se o Senhor é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o" (1Rs 18:21), é a pergunta do primeiro mandamento. A resposta do povo, "O Senhor é Deus!" (1Rs 18:39), é o reconhecimento que Elias pediu na oração: "para que este povo saiba que tu, Senhor, és Deus".

Elias era humano. O Novo Testamento faz uma observação surpreendente sobre ele: "Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos, e orou, com instância, para que não chovesse sobre a terra, e, por três anos e seis meses, não choveu" (Tg 5:17). Tiago o usa para ensinar que "muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo" (Tg 5:16). O profeta não era uma exceção, e sim um exemplo do que a oração de um homem comum pode quando Deus a ouve.

Cansaço e desânimo não desqualificam. O texto não esconde o colapso de Elias em 1Reis 19. Ele teme, foge, pede a morte, e Deus o trata com cuidado concreto: pão, água e descanso (1Rs 19:5-8). Só depois vem a palavra.

Deus nem sempre fala no que é mais espetacular. O vento, o terremoto e o fogo são sinais da presença de Deus em outros textos, mas ali "o Senhor não estava" neles (1Rs 19:11-12). A voz veio no "cicio tranquilo e suave". O texto não explica o contraste e deixa a cena como está.

Você não está tão só quanto pensa. Elias disse duas vezes: "eu fiquei só" (1Rs 19:10, 14). A resposta de Deus foi: "conservei em Israel sete mil" (1Rs 19:18). Paulo recupera esse trecho em Romanos 11:2-4 para falar do remanescente fiel.

O que cada tradição destaca. A tradição batista, na pessoa de Charles Spurgeon, pregou o sermão "The Still Small Voice" (nº 1668, 9 de julho de 1882) sobre 1Reis 19:12-13, no qual, segundo resumo publicado em spurgeon.org, ele observa que Elias esperava que, depois do Carmelo, a nação abandonaria os ídolos, e que o profeta, desanimado, fugiu para o deserto; Spurgeon contrasta os "terríveis" sinais com a voz mansa do evangelho. Para as tradições reformada, luterana e pentecostal, não encontrei, nas buscas feitas para este perfil, uma fonte verificável específica sobre Elias, e por isso não lhes atribuo uma posição própria. Em todos os casos, o consenso está nos textos do Novo Testamento: Elias é exemplo de oração (Tg 5:17-18) e figura associada à vinda de João Batista e à transfiguração de Jesus.


7. Cristo e o personagem

Elias reaparece no Novo Testamento em momentos decisivos. Malaquias, o último livro do Antigo Testamento, termina com uma promessa:

"Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do Senhor; ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição."

Ml 4:5-6

O Novo Testamento aplica essa promessa a João Batista. O anjo diz a Zacarias que seu filho irá adiante do Senhor "no espírito e poder de Elias" (Lc 1:17), e Jesus afirma, a respeito de João: "E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é Elias, que estava para vir" (Mt 11:14). Quando os discípulos perguntam por que os escribas dizem que Elias precisa vir primeiro, Jesus responde que Elias já veio, e os discípulos entendem que ele falava de João Batista (Mt 17:10-13).

Na transfiguração, Moisés e Elias aparecem falando com Jesus (Mt 17:3). A nuvem os envolve e a voz declara: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi" (Mt 17:5). Quando os discípulos levantam os olhos, "a ninguém viram, senão Jesus" (Mt 17:8). A Lei e os Profetas, representados por Moisés e Elias, apontam para Cristo.

O fim de Elias, tomado ao céu sem passar pela morte (2Rs 2:11), é uma exceção rara nas Escrituras. O Novo Testamento não faz de Elias um tipo de Cristo no sentido técnico, e este perfil não o apresenta como tal. O que o texto afirma é a ligação entre Elias, João Batista e Jesus.


8. Pontos em debate

ℹOnde os intérpretes divergem

Elias e João Batista. Jesus afirma que João é "Elias que estava para vir" (Mt 11:14), mas o próprio João, perguntado se era Elias, respondeu: "Não sou" (Jo 1:21). Os intérpretes costumam harmonizar as duas falas dizendo que João não era Elias reencarnado nem o mesmo homem, e sim aquele que veio "no espírito e poder de Elias" (Lc 1:17). Há quem entenda que Malaquias 4:5 ainda tem uma aplicação futura, antes do Dia do Senhor. Este perfil registra o debate sem decidi-lo.

O massacre dos profetas de Baal. Elias manda matar os profetas de Baal depois do Carmelo (1Rs 18:40). Alguns comentaristas leem o ato à luz da lei do Antigo Testamento contra a idolatria e a falsa profecia (Dt 13 e 18), e outros questionam a aplicação direta do episódio como modelo. O texto narra o fato, e este perfil não o apresenta como exemplo a ser imitado.

As duas testemunhas de Apocalipse 11. Algumas leituras proféticas veem em uma das duas testemunhas de Apocalipse 11 uma figura como Elias. É interpretação de alguns, e o texto de Apocalipse não nomeia as testemunhas. Este perfil não desenvolve a hipótese.


9. O que aprender hoje

Obedeça mesmo quando o sustento é estranho. Elias foi alimentado por corvos e depois por uma viúva sem recursos (1Rs 17:4-16). A provisão de Deus nem sempre chega pelo canal esperado.

Depois da vitória pode vir o desânimo. O cume do Carmelo é seguido do zimbro no deserto (1Rs 19:4). Quem serve precisa saber que o cansaço vem depois de grandes tarefas, e não é prova de fracasso.

Cuide do corpo antes da teologia. Deus manda comer, beber e dormir antes de falar (1Rs 19:5-8). O cuidado físico faz parte do cuidado espiritual.

Ouça o cicio. A voz de Deus não precisa de grandes demonstrações para ser real (1Rs 19:12). Quem corre atrás só do espetacular pode perder o que Deus diz em silêncio.

Passe adiante. Elias foi mandado a ungir Eliseu (1Rs 19:16). Boa liderança prepara sucessores, e Deus mantém sua obra além de qualquer indivíduo.


10. Leituras Recomendadas

  • Calvino, João. Commentary on the Epistle of James (sobre Tiago 5:17-18). Domínio público, disponível em ccel.org.
  • Spurgeon, Charles H. "The Still Small Voice", sermão nº 1668, 9 de julho de 1882. Disponível em spurgeon.org e ccel.org.
  • Matthew Henry, Comentário Bíblico, sobre 1Reis 17 a 19 e 2Reis 1 e 2. Domínio público.
  • Davis, Dale Ralph. 1 Kings: The Wisdom and the Folly. Christian Focus, 2002.
  • Wiseman, Donald J. 1 and 2 Kings. Tyndale Old Testament Commentaries. IVP, 1993.