O Sermão

Personagem

Joabe

Sobrinho e comandante de Davi, Joabe venceu batalhas, cumpriu ordens injustas e assassinou rivais por conta própria. O que a história do general mais leal e mais perigoso de Davi revela sobre poder e consciência?

generalDaviAbsalãoAbnermonarquiaviolência

1. O Nome

O nome יוֹאָב (Yo'av), Joabe, é composto: a primeira parte vem do nome divino Yah e a segunda de av, "pai". Costuma-se traduzir como "o Senhor é pai". É um nome teofórico, ou seja, formado com o nome de Deus, o que contrasta com a conduta violenta que o texto lhe atribui.

Hebraico2Sm 2:13

יוֹאָב

Yo'av

'O Senhor é pai'; nome formado com o nome de Deus e a palavra para 'pai'

O texto o identifica como "Joabe, filho de Zeruia" (2Sm 2:13; 1Rs 2:5). Zeruia era irmã de Davi (1Cr 2:16), de modo que Joabe era sobrinho do rei. Ele aparece junto com os irmãos Abisai e Asael.


2. Ficha rápida

✦Ficha rápida

  • Outras formas: em grego, Ἰωάβ (Iōab).
  • Período: reinado de Davi e início do de Salomão, tradicionalmente no século X a.C.
  • Locais: Hebrom, Gibeão, Rabá, Jerusalém, Mahanaim, a floresta de Efraim.
  • Família: filho de Zeruia, irmã de Davi; irmão de Abisai e de Asael (2Sm 2:18).
  • Papel: comandante do exército de Davi.
  • Onde aparece: 2Samuel 2 a 20; 1Reis 1 e 2; 1Crônicas 11 a 21.
  • Em uma frase: o general eficiente e brutal de Davi, que cometeu assassinatos políticos e foi executado por ordem de Salomão.

3. Quem foi

Joabe surge no conflito entre as casas de Saul e de Davi, em Gibeão, como líder dos homens de Davi (2Sm 2:13). Seu irmão Asael é morto por Abner, general de Saul, durante a perseguição (2Sm 2:23). A vingança ficará no centro de sua vida.

Quando Abner decide passar para o lado de Davi, é recebido em paz. Joabe, ausente, volta e se enfurece. Sem que Davi saiba, manda trazer Abner de volta:

"Tornando, pois, Abner a Hebrom, Joabe o tomou à parte, no interior da porta, para lhe falar em segredo, e ali o feriu no abdômen, e ele morreu, agindo assim Joabe em vingança do sangue de seu irmão Asael."

2Sm 3:27

Davi se declara inocente e pronuncia uma maldição: "Caia este sangue sobre a cabeça de Joabe e sobre toda a casa de seu pai!" (2Sm 3:28-29). Ao falar aos seus homens, lamenta: "Não sabeis que, hoje, caiu em Israel um príncipe e um grande homem?" (2Sm 3:38). Davi, porém, não pune Joabe de imediato.

Na guerra contra os amonitas, Joabe cerca Rabá, e Davi permanece em Jerusalém. O texto de 2Samuel 11 mostra o rei escrevendo uma carta ordenando que Urias seja posto à frente da batalha:

"Escreveu na carta, dizendo: Ponde Urias na frente da maior força da peleja; e deixai-o sozinho, para que seja ferido e morra. Tendo, pois, Joabe sitiado a cidade, pôs a Urias no lugar onde sabia que estavam homens valentes. Saindo os homens da cidade e pelejando com Joabe, caíram alguns do povo, dos servos de Davi; e morreu também Urias, o heteu."

2Sm 11:15-17

Joabe executa a ordem e, ao relatar a Davi, ainda sacrifica outros soldados no processo (2Sm 11:17). Seu papel é o do executor que obedece ao rei, ainda que a ordem seja criminosa.

Mais tarde, na rebelião de Absalão, o rei pede aos três comandantes: "Tratai com brandura o jovem Absalão, por amor de mim" (2Sm 18:5). Mas quando um soldado informa que Absalão ficou pendurado num carvalho, Joabe o censura por não o ter ferido, e ele mesmo "tomou três dardos e traspassou com eles o coração de Absalão, estando ele ainda vivo no meio do carvalho" (2Sm 18:14). Os soldados de Joabe terminam de matá-lo. O rei chora: "Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Quem me dera que eu morrera por ti" (2Sm 18:33).

Joabe então confronta o rei por seu luto excessivo (2Sm 19:5-7). Depois, na revolta de Seba, mata Amasa, que fora designado como general no lugar dele:

"Disse Joabe a Amasa: Vais bem, meu irmão? E, com a mão direita, lhe pegou a barba, para o beijar. Amasa não se importou com a espada que estava na mão de Joabe, de sorte que este o feriu com ela no abdômen e lhe derramou por terra as entranhas; não o feriu segunda vez, e morreu."

2Sm 20:9-10

No fim da vida de Davi, Joabe apoia Adonias na disputa pela sucessão, contra Salomão (1Rs 1:7). Davi, em seu leito de morte, lembra o que Joabe fez a Abner e a Amasa e instrui Salomão: "Faze, pois, segundo a tua sabedoria e não permitas que suas cãs desçam à sepultura em paz" (1Rs 2:5-6). Quando Adonias é eliminado, Joabe foge para o tabernáculo e se agarra às pontas do altar. Ao ser chamado a sair, responde: "Não, morrerei aqui". Salomão ordena a Benaia: "Faze como ele te disse; arremete contra ele e sepulta-o, para que tires de mim e da casa de meu pai a culpa do sangue que Joabe sem causa derramou" (1Rs 2:30-31).


4. Contexto histórico e cultural

Joabe vive num período em que a monarquia de Davi se consolida entre guerras civis, rebeliões e conquistas externas. O exército de Davi tinha um núcleo de heróis, os "valentes", e Joabe era seu comandante (2Sm 8:16; 23:8-39).

A vingança de sangue era uma instituição reconhecida no antigo Israel: o parente mais próximo podia vingar a morte de um familiar, mas a Lei previa cidades de refúgio para o homicida involuntário (Nm 35). O caso de Abner é complicado porque Abner matou Asael numa batalha (2Sm 2:23), e Joabe o matou depois, em tempo de paz. O texto condena o ato, e Davi o chama de sangue inocente (2Sm 3:28), e Salomão repete a avaliação (1Rs 2:5, 31-33).

A relação de Davi com Joabe é ambígua. O rei depende dele, o repreende, mas o mantém. Em 2Samuel 3:39, Davi admite que os filhos de Zeruia eram mais fortes do que ele. Essa admissão mostra o poder real que o general tinha. Os intérpretes discutem se Davi falhou em punir Joabe por fraqueza política ou por razão estratégica.


5. Linha do tempo

Linha do tempo


6. O que a Escritura ensina por meio dele

Eficiência militar não é caráter. Joabe venceu batalhas, tomou Rabá e serviu a Davi com competência. O texto não nega isso, e não o absolve por isso.

Obedecer a ordem injusta não livra da culpa. Joabe executou a ordem sobre Urias. O texto registra a cena sem justificar o executor, e o contexto mostra que o crime era do rei e dos que o cumpriram (2Sm 11:15-17; 12:9).

A violência não resolvida volta. Davi ouviu a maldição que ele mesmo pronunciou sobre Joabe, mas não a executou, e a questão chegou a Salomão como herança (2Sm 3:29; 1Rs 2:5-6). O texto mostra que o mal impune cobra preço mais tarde.

Lealdade a pessoas não é lealdade a Deus. Joabe foi fiel a Davi por décadas e depois apoiou Adonias, mostrando que sua fidelidade seguia o interesse. O fim dele é registrado como justiça, "pelo sangue que sem causa derramou" (1Rs 2:31).

O que cada tradição destaca. Não encontrei, nas buscas feitas para este perfil, fonte verificável das quatro tradições (reformada, batista, luterana e pentecostal) especificamente sobre Joabe, e por isso este perfil não lhes atribui posições. O que se pode afirmar com base no próprio texto é o juízo da narrativa: Davi o amaldiçoa (2Sm 3:29), e Salomão executa a sentença descrita em 1Reis 2. Os comentaristas em geral usam Joabe como estudo de caso sobre o custo moral do poder e da violência.


7. Cristo e o personagem

Joabe não é um tipo de Cristo, e sim um contraste. O texto de 2Samuel mostra Davi cercado de homens cuja força excede a sua capacidade de governá-los (2Sm 3:39). O rei prometido, na tradição cristã, é aquele cuja justiça não depende de generais violentos e cujo reino não é imposto pela espada. Essa é uma leitura de intérpretes, e este perfil a apresenta como tal.

O Novo Testamento, em Mateus 26:52, registra a palavra de Jesus a Pedro quando este puxou a espada: quem lança mão da espada, pela espada perecerá. O texto não cita Joabe, mas a frase resume o final dele, morto junto ao altar por ordem do rei (1Rs 2:34). Este perfil apresenta a conexão como observação de leitor, e não como afirmação do texto.

O que o texto afirma de modo direto é que o sangue derramado por Joabe foi tratado como culpa que alcançava a casa do rei, e que Salomão, ao ordenar a execução, buscava tirar de si e da casa de seu pai essa culpa (1Rs 2:31).


8. Pontos em debate

ℹOnde os intérpretes divergem

A responsabilidade de Davi. Davi deixou Joabe impune por décadas e só no leito de morte pediu a Salomão que o resolvesse (1Rs 2:5-6). Alguns intérpretes veem fraqueza política, outros veem prudência, outros veem dissimulação. O texto relata os fatos e não o motivo.

A ordem de Salomão. A execução de Joabe junto ao altar (1Rs 2:28-34) levanta a questão do direito de asilo. A Lei previa que o homicida premeditado fosse retirado do altar para ser morto (Êx 21:14). Os intérpretes discutem a aplicação do princípio ao caso. Este perfil registra o ponto.

A leitura de Joabe como vilão ou como instrumento. Alguns intérpretes o leem como o pragmático necessário que fazia o que Davi não queria fazer, outros como criminoso. O texto o condena, e a leitura de "instrumento necessário" é feita por intérpretes. Este perfil apresenta as duas leituras.

A cronologia de 2Samuel 11 a 20. A ordem exata dos eventos entre Rabá, Absalão e Seba é discutida pelos estudiosos. Este perfil segue a ordem em que o livro apresenta os fatos.


9. O que aprender hoje

Competência não substitui consciência. Há pessoas eficientes que executam o que o chefe manda. O livro não aceita essa desculpa.

Cuide do que fica para depois. A questão de Joabe passou de Davi a Salomão porque Davi não a resolveu a tempo (1Rs 2:5-6). Problemas morais adiados tendem a crescer.

Vingança por conta própria destrói. Joabe matou Abner e Amasa por iniciativa própria, e o que parecia justiça pessoal era assassinato político (2Sm 3:27; 20:10).

Quem manda e quem executa respondem. Na cena de Urias, o mandante e o executor aparecem juntos no relato (2Sm 11:14-17). Posição na cadeia não apaga a responsabilidade.

Escolha bem o lado, e por quê. Joabe apoiou Adonias na hora errada (1Rs 1:7). A lealdade por interesse deixa a pessoa sem chão quando a situação muda.


10. Leituras Recomendadas

  • Calvino, João. Sermons on 2 Samuel. Banner of Truth.
  • Davis, Dale Ralph. 2 Samuel: Out of Every Adversity. Christian Focus, 1999.
  • Bergen, Robert D. 1, 2 Samuel. New American Commentary. B&H, 1996.
  • Arnold, Clinton E. (ed.). Zondervan Illustrated Bible Backgrounds Commentary: Old Testament, vol. 2, sobre 2Samuel, para o contexto militar e político.
  • Henry, Matthew. Comentário Bíblico, sobre 2Samuel 3, 11, 18 e 20 e 1Reis 2. Domínio público.