O Sermão

Personagem

Pedro

Pescador da Galileia, o primeiro a confessar Jesus como o Cristo e o que o negou três vezes, Pedro foi restaurado e pastoreou a igreja nascente. O que o texto diz sobre ele, e onde as tradições divergem?

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1. O Nome

O homem chamado Simão recebeu de Jesus um nome novo. O Evangelho de João registra que Jesus o chamou Cefas, palavra aramaica que o evangelista traduz por Pedro (Jo 1:42). O nome grego Πέτρος (Petros) é ligado a petra, "rocha", e os dois termos aparecem lado a lado na frase mais debatida sobre ele (Mt 16:18).

GregoJo 1:42

Πέτρος

Petros

'Pedra' ou 'rocha'; tradução grega do aramaico Cefas, nome dado por Jesus a Simão

O nome de família também aparece: Simão, "filho de João" (Jo 21:15), e Simão Barjonas (Mt 16:17). Em Mateus, Jesus o chama pelos dois nomes ao mesmo tempo, o de nascimento e o novo, e o texto não esconde a tensão entre eles: no mesmo capítulo o discípulo confessa Cristo e, poucos versículos depois, é repreendido (Mt 16:16-23).


2. Ficha rápida

✦Ficha rápida

  • Outras formas: Simão, Simão Pedro, Cefas (aramaico, Kēphas, Κηφᾶς).
  • Período: século I d.C. Pedro foi contemporâneo de Jesus e liderou a igreja nascente. As datas de sua vida são reconstruídas, e a tradição situa sua morte em Roma.
  • Locais: Betsaida, Cafarnaum, Mar da Galileia, Jerusalém, Jope, Cesareia, Antioquia.
  • Família: casado (Mc 1:30 menciona a sogra); irmão de André (Jo 1:40).
  • Papel: pescador, um dos Doze, porta-voz do grupo, pregador em Pentecostes e líder da igreja de Jerusalém; autor das cartas de 1 e 2Pedro, segundo a tradição.
  • Onde aparece: os quatro Evangelhos, Atos 1 a 12 e 15, Gálatas 1 e 2, 1Coríntios 9:5, 1 e 2Pedro.
  • Em uma frase: o pescador impetuoso que confessou Jesus como Cristo, o negou três vezes e foi restaurado para apascentar as ovelhas.

3. Quem foi

Pedro é, depois de Jesus, o personagem mais citado nos Evangelhos. Era pescador no Mar da Galileia, e Jesus o chamou junto com André, seu irmão, para que fossem pescadores de homens. O texto de João indica que André o levou a Jesus e que Jesus lhe disse que seria chamado Cefas (Jo 1:40-42). Nas listas dos Doze, o nome de Pedro vem sempre em primeiro lugar.

O momento decisivo da sua vida nos Evangelhos acontece em Cesareia de Filipe. Jesus pergunta a quem o povo o considera e depois dirige a pergunta aos discípulos: "Mas vós, quem dizeis que eu sou?" A resposta de Pedro é direta:

"Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Então, Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela."

Mt 16:16-18

Logo depois, quando Jesus começa a anunciar que precisa ir a Jerusalém, sofrer e ser morto, Pedro o chama à parte e começa a repreendê-lo. A resposta de Jesus é a mais dura do texto: "Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens" (Mt 16:21-23). O mesmo homem é confessor e obstáculo em questão de minutos.

Pedro está com Jesus na transfiguração, com Tiago e João (Mt 17:1-8), e propõe armar três tendas, sem saber o que dizia (Lc 9:33). Na última noite, Jesus o avisa:

"Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo! Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos."

Lc 22:31-32

Pedro responde que está pronto a ir com Jesus tanto para a prisão como para a morte, e Jesus prediz que, antes de o galo cantar, ele o negaria três vezes (Lc 22:33-34). A previsão se cumpre no pátio do sumo sacerdote. A criada, depois outro, depois um terceiro, afirmam que Pedro estava com Jesus, e ele nega. O texto de Lucas acrescenta um detalhe: "Então, voltando-se o Senhor, fixou os olhos em Pedro, e Pedro se lembrou da palavra do Senhor" (Lc 22:61). Pedro sai e chora amargamente (Lc 22:62).

Depois da ressurreição, Pedro e o outro discípulo correm ao sepulcro, e Pedro é o primeiro a entrar (Jo 20:2-6). À beira do mar, Jesus o restaura com uma pergunta repetida três vezes:

"Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas ovelhas."

Jo 21:17

O livro de Atos o mostra à frente da igreja. Em Jerusalém, propõe a eleição de um substituto para Judas (At 1:15-26), e no dia de Pentecostes prega ao povo, concluindo: "Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo" (At 2:36). Quando os ouvintes perguntam o que fazer, a resposta é: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo" (At 2:38). O texto registra que naquele dia houve "um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas" (At 2:41).

Pedro cura um coxo à porta do Templo (At 3), enfrenta o Sinédrio (At 4 e 5), vai à casa do centurião Cornélio, em Cesareia, onde o Espírito Santo desce sobre os gentios que ouviam a palavra (At 10), e é preso por Herodes e libertado por um anjo (At 12). No Concílio de Jerusalém, defende que Deus salva judeus e gentios pela graça (At 15:7-11). Em Gálatas, Paulo narra que, em Antioquia, resistiu a Pedro "face a face" porque Pedro se afastara da mesa com os gentios (Gl 2:11-14).

Em sua primeira carta, Pedro se identifica como presbítero, "testemunha dos sofrimentos de Cristo" e coparticipante da glória que há de ser revelada, e exorta os presbíteros a pastorear o rebanho de Deus, "não por constrangimento, mas espontaneamente" (1Pe 5:1-2). O mesmo homem que ouviu "apascenta as minhas ovelhas" volta a esse vocabulário. O Evangelho de João, ao final do diálogo com Pedro, indica com que gênero de morte ele glorificaria a Deus: "estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres" (Jo 21:18-19). O texto bíblico não narra como Pedro morreu.


4. Contexto histórico e cultural

A Galileia do século I era uma região de pescadores, agricultores e comerciantes, sob domínio romano e com fortes laços com a tradição judaica. Pedro não pertencia à elite religiosa de Jerusalém, e o livro de Atos observa que os membros do Sinédrio se admiraram da ousadia de Pedro e João, por perceberem que eram homens sem instrução formal (At 4:13).

O mundo de Pedro era o do judaísmo do Segundo Templo, com expectativas messiânicas variadas. Quando a multidão dizia que Jesus era João Batista, Elias, Jeremias ou algum dos profetas (Mt 16:14), a confissão de Pedro, "Tu és o Cristo", destacava-se por afirmar algo além do que o povo dizia.

A igreja primitiva em Jerusalém era liderada por Pedro, Tiago e João, a quem Paulo chama de "colunas" (Gl 2:9). A abertura da fé aos gentios, que a visão de Pedro em Jope e a visita a Cornélio tornaram inevitável (At 10), foi um dos momentos mais delicados dessa fase. Pedro e Paulo ocupavam papéis diferentes: Pedro com a missão entre os circuncidados, e Paulo com a missão entre os gentios (Gl 2:7-8).


5. Linha do tempo

Linha do tempo


6. O que a Escritura ensina por meio dele

Falhar não é o fim de quem é restaurado. O texto não suaviza a negação de Pedro, e não termina ali. Jesus havia dito antes que rogara por ele "para que a tua fé não desfaleça" (Lc 22:32), e depois o restaura (Jo 21:15-19). A tríplice pergunta corresponde à tríplice negação, e a tríplice tarefa de apascentar é dada a quem falhou.

A confissão correta vem de revelação, e não de mérito. Jesus atribui a resposta de Pedro ao Pai: "não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus" (Mt 16:17). A mesma pessoa que recebeu essa revelação pensava, minutos depois, "as coisas dos homens" (Mt 16:23).

A liderança cristã é pastoreio, e não domínio. Em 1Pedro 5:2-3, o apóstolo pede que os presbíteros pastoreiem o rebanho, "nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho".

A humildade é o caminho da exaltação. O mesmo capítulo conclui: "Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte, lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós" (1Pe 5:6-7). Pedro, que aprendeu pelos próprios tropeços, escreve em tom de quem conhece o assunto.

O que cada tradição destaca. Muitos autores das tradições reformada e luterana leem a confissão de Pedro, ou o próprio Cristo, como o fundamento da igreja, e não uma autoridade transmitida a sucessores de Pedro. As principais leituras protestantes de "esta pedra" são resumidas em artigos como o da Gospel Coalition ("What Does 'This Rock' Refer To?"). A tradição batista compartilha em geral essa leitura e destaca, em Atos, o padrão de arrependimento e batismo dos que creem (At 2:38-41). A tradição pentecostal destaca em Pedro a figura de Pentecostes, o dom do Espírito (At 2:38-39) e a abertura aos gentios na casa de Cornélio (At 10). As fontes que consultei para este perfil não me permitiram atribuir a cada tradição uma citação direta, e por isso as posições aqui são descritas em termos gerais.


7. Cristo e o personagem

A história de Pedro é, em grande parte, uma história sobre quem é Jesus. A pergunta "quem dizeis que eu sou?" (Mt 16:15) é a pergunta central dos Evangelhos, e a resposta de Pedro, "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" (Mt 16:16), é a confissão da igreja.

A restauração junto ao mar mostra Cristo como o Pastor que cuida de quem falhou. Jesus não pede explicações a Pedro, e pergunta sobre o amor: "tu me amas?" (Jo 21:15-17). A tarefa que dá é a que ele mesmo exerce, e o próprio Pedro, na primeira carta, chama Cristo de "Supremo Pastor", que, quando se manifestar, dará aos pastores fiéis "a imarcescível coroa da glória" (1Pe 5:4).

O que se passou na noite da negação também tem sentido cristológico: Jesus orou por Pedro antes de ele cair (Lc 22:32). A fé de Pedro não se sustentou pela firmeza dele, e sim pela intercessão de Cristo.


8. Pontos em debate

ℹOnde as tradições divergem

"Sobre esta pedra" (Mt 16:18). Há três leituras principais. A leitura católica romana vê em Pedro a pedra e, a partir dele, a autoridade transmitida a seus sucessores. Muitos protestantes veem na pedra a confissão de Pedro ou o próprio Cristo. Estudiosos de várias tradições, inclusive evangélicos, notam hoje que o jogo de palavras entre Petros e petra favorece uma referência a Pedro como pessoa, sem que isso implique sucessão. Este perfil apresenta as três leituras sem decidir entre elas.

As chaves do reino (Mt 16:19). O que significa "ligar e desligar"? Algumas tradições veem uma autoridade de pregar o evangelho e declarar o perdão, e outras veem uma autoridade disciplinar ou eclesial. Mateus 18:18 repete a expressão a todos os discípulos, e esse dado é central no debate.

O destino de Pedro. O Novo Testamento não narra sua morte. A tradição antiga a situa em Roma, mas essa informação vem de fontes posteriores ao texto bíblico, e este perfil a trata como tradição.

A autoria de 2Pedro. A autenticidade de 2Pedro é discutida por muitos estudiosos, e muitos evangélicos a aceitam como escrita por Pedro. Este perfil cita apenas 1Pedro.


9. O que aprender hoje

Confissão e fraqueza podem coexistir na mesma pessoa. Pedro disse a coisa certa e, logo em seguida, a coisa errada (Mt 16:16, 22). Ninguém é consistente o tempo todo, e a graça lida com isso.

Não prometa mais do que você consegue cumprir. Pedro disse que iria com Jesus até a morte (Lc 22:33) e, horas depois, negou conhecê-lo. A coragem de declarar não substitui o preparo de perseverar.

Quem falhou ainda pode servir. A tarefa "apascenta as minhas ovelhas" foi dada depois da negação, e não antes dela (Jo 21:17). Arrependimento sincero não desqualifica para a missão.

Aceite a correção de um irmão. Em Antioquia, Pedro foi confrontado por Paulo em público (Gl 2:11-14), e a tradição da igreja guardou o episódio. Um líder é alguém que pode ser corrigido.

Lance sobre ele a sua ansiedade. O conselho de 1Pedro 5:7 vem de alguém que aprendeu, por experiência, o que acontece quando a gente tenta carregar tudo sozinho.


10. Leituras Recomendadas

  • Calvino, João. Commentary on a Harmony of the Evangelists (sobre Mateus 16 e Lucas 22) e Commentary on the Acts of the Apostles. Domínio público, disponível em ccel.org.
  • Lutero, Martinho. Sermons on the First Epistle of St. Peter. Em Luther's Works, vol. 30. Concordia Publishing House.
  • The Gospel Coalition. "What Does 'This Rock' Refer To in Matthew 16:18?". thegospelcoalition.org.
  • Bauckham, Richard. Jesus and the Eyewitnesses. Eerdmans, 2006 (sobre Pedro e a tradição evangélica).
  • Cullmann, Oscar. Peter: Disciple, Apostle, Martyr. Westminster Press, 1953.