Mateus
Ficha do Livro
✍Autor provável
Mateus (também chamado Levi), coletor de impostos que se tornou apóstolo (Mt 9:9; 10:3); a igreja antiga foi unânime em atribuir-lhe o evangelho
◷Data provável
Tradicionalmente antes de 70 d.C., c. 50–65 d.C.; muitos estudiosos propõem c. 80–90 d.C.
📜Gênero literário
Evangelho: narrativa da vida, ensino, morte e ressurreição de Jesus, organizada em cinco blocos de discursos
◎Destinatários
Cristãos de origem judaica em especial, mas com abertura a todas as nações — Jesus é o Messias prometido, e o evangelho é para todos os povos
1. O Nome do Livro
O título original é simples: Kata Maththaion, "Segundo Mateus", e o nome do autor vem do hebraico.
Ματθαῖος
Maththaios
Mateus — forma grega de Mattityahu, 'dom de YHWH'
Mateus era coletor de impostos em Cafarnaum, uma profissão desprezada pelos judeus por servir a Roma, e foi chamado com duas palavras de Jesus: "Segue-me" (Mt 9:9). Ele fez um banquete para Jesus com outros coletores e pecadores, e foi nessa ocasião que Jesus disse: "Não vim chamar justos, e sim pecadores" (Mt 9:13).
2. Autoria e Data
A igreja antiga atribuiu o evangelho a Mateus de maneira unânime. Papias de Hierápolis (início do século II) escreveu que "Mateus compôs os oráculos na língua hebraica", e Irineu, Orígenes e Eusébio repetem essa tradição. O evangelho em si não nomeia o autor, e a tradição observa que ele menciona com frequência dinheiro e valores (talentos, denários, moedas), o que combina com a profissão de Mateus. A data é debatida: a tradição reformada em geral aceita uma composição antes da destruição de Jerusalém (70 d.C.), enquanto muitos estudiosos propõem a década de 80.
3. Estrutura Literária
Mateus organiza o ensino de Jesus em cinco discursos, cada um fechando com a mesma frase: "Quando Jesus acabou estas palavras..." (Mt 7:28; 11:1; 13:53; 19:1; 26:1). Muitos veem nisso um eco dos cinco livros de Moisés: Jesus é o novo mestre da Lei.
Estrutura de Mateus
4. O Messias Prometido
Mateus abre com uma genealogia que liga Jesus a Abraão e a Davi (Mt 1:1-17), e depois mostra, repetidas vezes, como o que acontecia com Jesus cumpria as Escrituras. A expressão "para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta" aparece várias vezes ao longo do livro (por exemplo, 1:22-23; 2:15, 17-18, 23; 4:14-16; 8:17; 12:17-21; 21:4-5; 27:9-10). O nome dado a Jesus resume a missão:
Mateus 1:21-23"Ela dará à luz um filho e chamarás o seu nome Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados... Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e chamá-lo-ão pelo nome de Emanuel (que quer dizer: Deus conosco)."
O Evangelho começa com "Deus conosco" e termina com "eu estou convosco todos os dias" (Mt 28:20), duas pontas que enquadram o livro inteiro.
5. O Reino dos Céus
βασιλεία τῶν οὐρανῶν
Basileia tōn ouranōn
'Reino dos céus' — expressão própria de Mateus, equivalente a 'reino de Deus' nos outros evangelhos
O tema do reino aparece em quase todas as páginas. Jesus abre seu ministério com o chamado "Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus" (Mt 4:17), e as parábolas do capítulo 13 explicam como esse reino cresce de forma escondida, como o fermento e a semente de mostarda. Mateus usa "céus" por reverência judaica ao nome de Deus. Só Mateus, entre os evangelhos, usa a palavra "igreja" (ekklesia), em 16:18 e 18:17, e mostra Pedro confessando: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" (Mt 16:16).
6. O Sermão do Monte
Os capítulos 5–7 são o discurso mais conhecido de Jesus, e abrem com as bem-aventuranças:
Mateus 5:3-4, 6"Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados... Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos."
O sermão não é uma lista de regras para conquistar o reino, mas uma descrição da vida dos que já pertencem a ele. Jesus afirma que não veio "revogar a Lei ou os Profetas, mas cumprir" (Mt 5:17), e aprofunda a Lei: a ira é raiz do homicídio, o desejo é raiz do adultério. Ele pede uma justiça "superior à dos escribas e fariseus" (5:20), que ninguém alcança sozinho, e isso aponta para a necessidade da graça. O sermão termina com a casa na rocha e a casa na areia (7:24-27): ouvir e fazer.
7. A Grande Comissão
O evangelho termina com a ressurreição e as últimas palavras do Senhor aos discípulos, em um monte na Galileia:
Mateus 28:18-20"Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século."
O texto apresenta o Rei que tem toda a autoridade enviando seu povo a todas as nações, uma abertura que o livro já sugeria desde a visita dos magos (Mt 2) e a fé do centurião (8:10-12). O comando central é fazer discípulos, o que inclui batizar e ensinar, e a promessa que sustenta a missão é a presença do próprio Cristo.
Leituras Recomendadas
- R. T. France — The Gospel of Matthew (New International Commentary on the New Testament) — comentário de referência
- D. A. Carson — Matthew (Expositor's Bible Commentary) — leitura evangélica detalhada
- William Hendriksen — Matthew (New Testament Commentary) — comentário reformado clássico
- Craig Blomberg — Matthew (New American Commentary)
- João Calvino — Comentário sobre a Harmonia dos Evangelhos — leitura reformada clássica