O Sermão

Personagem

João Batista

O profeta do deserto que preparou o caminho do Senhor, batizou Jesus e disse 'convém que ele cresça e que eu diminua'. Quem foi João, e por que Jesus o chamou de mais que profeta?

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1. O Nome

O nome do menino foi dado pelo anjo antes do nascimento: "Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho, a quem darás o nome de João" (Lc 1:13). O nome vem do hebraico יוֹחָנָן (Yochanan), "o Senhor é gracioso", em grego Ἰωάννης (Iōannēs).

GregoLc 1:13

Ἰωάννης

Iōannēs

Forma grega de Yochanan, 'o Senhor é gracioso'; nome dado pelo anjo a ele antes do nascimento

O nome causou estranheza na família. Quando foram circuncidar o menino, queriam chamá-lo Zacarias, como o pai, mas Isabel disse que não, que ele seria chamado João. Os parentes objetaram que ninguém na família tinha esse nome. O pai, que estava mudo, escreveu numa tabuinha: "João é o seu nome" (Lc 1:59-63). Imediatamente a boca de Zacarias se abriu, e ele falava louvando a Deus (Lc 1:64). O título "Batista" vem do que ele fazia: batizava no Jordão.


2. Ficha rápida

✦Ficha rápida

  • Outras formas: João, o Batizador; em grego, Ἰωάννης ὁ βαπτιστής (Iōannēs ho baptistēs).
  • Período: século I d.C., contemporâneo de Jesus; Lucas situa o início do seu ministério no décimo quinto ano de Tibério César (Lc 3:1).
  • Locais: a região montanhosa de Judá (nascimento), o deserto da Judeia, o rio Jordão, Betânia do outro lado do Jordão, o cárcere de Herodes.
  • Família: filho do sacerdote Zacarias e de Isabel, parenta de Maria (Lc 1:5, 36).
  • Papel: profeta e precursor do Messias; batizou Jesus e apontou para ele como o Cordeiro de Deus.
  • Onde aparece: Mateus 3 e 11, Marcos 1 e 6, Lucas 1 e 3, João 1 e 3; também Atos 13:24-25 e 19:1-7.
  • Em uma frase: o profeta que chamou ao arrependimento, apontou para Jesus e morreu preso por denunciar o pecado de um rei.

3. Quem foi

Lucas conta o anúncio do nascimento a Zacarias, sacerdote, enquanto ele ministrava no Templo. O anjo disse que a oração dele fora ouvida e descreveu o filho:

"Pois ele será grande diante do Senhor, não beberá vinho nem bebida forte e será cheio do Espírito Santo, já do ventre materno. E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. E irá adiante do Senhor no espírito e poder de Elias, para converter o coração dos pais aos filhos, converter os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo preparado."

Lc 1:15-17

Zacarias duvidou e ficou mudo até o nascimento (Lc 1:18-20). Quando o menino nasceu, o pai, cheio do Espírito Santo, profetizou sobre ele: "Tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor, preparando-lhe os caminhos" (Lc 1:76). Sobre a infância o texto diz: "O menino crescia e se fortalecia em espírito. E viveu nos desertos até ao dia em que havia de manifestar-se a Israel" (Lc 1:80).

O ministério começa no deserto da Judeia. Mateus o descreve:

"Naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judeia e dizia: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus. Porque este é o referido por intermédio do profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas."

Mt 3:1-3

O texto registra seu modo de vida: "vestes de pelos de camelo e um cinto de couro; a sua alimentação eram gafanhotos e mel silvestre" (Mt 3:4). Gente de Jerusalém, de toda a Judeia e da região do Jordão ia até ele, "confessando os seus pecados", e era batizada no rio (Mt 3:5-6). Aos fariseus e saduceus que vinham ao batismo, João disse: "Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento" (Mt 3:7-8). E avisou: "Já está posto o machado à raiz das árvores" (Mt 3:10).

João deixa claro que não é o Messias. Quando enviados de Jerusalém lhe perguntam quem é, ele responde que não é o Cristo, nem Elias, nem o profeta, e que é "a voz do que clama no deserto" (Jo 1:19-23). Sobre o batismo, diz: "Eu vos batizo com água, para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo" (Mt 3:11).

Jesus vem da Galileia ao Jordão para ser batizado por ele. João tenta impedi-lo: "Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?" Jesus responde: "Deixa por enquanto, porque, assim, nos convém cumprir toda a justiça" (Mt 3:14-15). Quando Jesus sai da água, os céus se abrem, o Espírito desce como pomba e uma voz declara: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo" (Mt 3:16-17).

No dia seguinte, João vê Jesus passar e diz o que é, talvez, a sua frase mais lembrada:

"Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!"

Jo 1:29

Dois dos discípulos de João ouvem e passam a seguir Jesus, e um deles é André, irmão de Simão Pedro (Jo 1:35-40). Mais tarde, quando os discípulos de João se queixam de que todos estão indo a Jesus, ele responde com uma imagem de casamento: o amigo do noivo "muito se regozija por causa da voz do noivo", e conclui:

"Convém que ele cresça e que eu diminua."

Jo 3:30

O ministério termina na prisão. Marcos conta que Herodes mandou prender João por causa de Herodias, mulher de seu irmão Filipe, porque João lhe dizia: "Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão" (Mc 6:17-18). O texto observa que Herodes temia João, "sabendo que era homem justo e santo", e o ouvia com perplexidade (Mc 6:20). Herodias, porém, queria matá-lo, e a oportunidade veio num banquete de aniversário, quando a filha de Herodias agradou ao rei e, a pedido da mãe, pediu a cabeça de João (Mc 6:21-28). Herodes ordenou, e João foi decapitado no cárcere.

Na prisão, João ouviu falar das obras de Cristo e mandou perguntar: "És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?" (Mt 11:3). Jesus respondeu com o que estava acontecendo: "os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho. E bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço" (Mt 11:5-6). Depois, falou ao povo sobre João:

"Mas para que saístes? Para ver um profeta? Sim, eu vos digo, e muito mais que profeta. Este é de quem está escrito: Eis aí eu envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho diante de ti. Em verdade vos digo: entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista; mas o menor no reino dos céus é maior do que ele."

Mt 11:9-11

4. Contexto histórico e cultural

João aparece depois de séculos sem um profeta reconhecido em Israel. Seu estilo, com roupa de pelos e cinto de couro, lembra a descrição de Elias em 2Reis 1:8, e o anjo já o ligara a Elias (Lc 1:17). A associação é central: Malaquias prometera que Elias seria enviado antes do Dia do Senhor (Ml 4:5-6), e Jesus identifica João com esse Elias (Mt 11:14).

O batismo no Jordão tinha relação com purificações judaicas, mas o de João tinha um caráter novo: era um batismo "para arrependimento" (Mt 3:11), ligado à confissão de pecados e à preparação para o que vinha. Os intérpretes discutem em que medida ele se relaciona com o batismo de prosélitos e com as purificações de comunidades como a de Qumran, e este perfil não se apoia em nenhuma conclusão.

O conflito com Herodes revela o preço de falar a verdade ao poder. O texto de Marcos mostra um rei que respeitava o profeta e, ao mesmo tempo, o prendeu por pressão política e familiar. A morte de João é narrada com sobriedade, sem milagre de livramento.


5. Linha do tempo

Linha do tempo


6. O que a Escritura ensina por meio dele

O arrependimento tem frutos. João não aceita que a descendência de Abraão seja garantia: "Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; e não comeceis a dizer entre vós mesmos: Temos por pai a Abraão" (Mt 3:8-9). A conversão aparece na vida, e não só na linhagem ou no rito.

O servo aponta para outro. "Eis o Cordeiro de Deus" (Jo 1:29) e "Convém que ele cresça e que eu diminua" (Jo 3:30) resumem o ministério de João. Ele diz que "o homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada" (Jo 3:27) e que a alegria dele é ouvir a voz do noivo (Jo 3:29).

A fidelidade pode custar a liberdade. João denunciou o pecado do rei e foi preso. A pergunta que mandou fazer da prisão mostra que a fé de um profeta também passa por dúvida, e Jesus não o repreende por isso (Mt 11:2-6).

A grandeza de João está no seu lugar na história da salvação. Jesus o declara o maior entre os nascidos de mulher, e acrescenta que "o menor no reino dos céus é maior do que ele" (Mt 11:11). João pertence ao tempo da promessa, e os que entram no reino pertencem ao tempo do cumprimento.

GregoMt 3:2

μετάνοια

metanoia

'Arrependimento', literalmente 'mudança de mente'; a palavra central da pregação de João (Mt 3:2)

O que cada tradição destaca. O sermão de João sobre "convém que ele cresça" é lido de forma semelhante nas tradições protestantes. A tradição reformada, em devocionais da Ligonier Ministries sobre João 3:22-30, usa o texto para falar da exaltação de Cristo. Segundo um resumo consultado do comentário de Calvino a esta passagem, o reformador escreveu que os ministros devem procurar reunir discípulos não para si mesmos, mas para Cristo. A tradição luterana, nas buscas feitas, aparece em pregações como a da Lutheran Spokesman sobre "Ele deve crescer e eu diminuir", e em Lutero, pelo tema da "troca feliz" entre Cristo e o pecador, mas não consegui verificar um texto específico de Lutero sobre João Batista. Para as tradições batista e pentecostal, não encontrei fonte verificável específica, e por isso não lhes atribuo posição própria. Em todas elas, o batismo de João é distinto do batismo cristão, como indica Atos 19:1-7, e o de Jesus é com o Espírito Santo (Mt 3:11).


7. Cristo e o personagem

João existe, nos Evangelhos, para apontar para Jesus. O quarto Evangelho o introduz como testemunha: "Houve um homem enviado por Deus cujo nome era João. Este veio como testemunha para que testificasse a respeito da luz... Ele não era a luz, mas veio para que testificasse da luz" (Jo 1:6-8). Cada elemento de seu ministério leva a Cristo: o arrependimento prepara, o batismo o anuncia, o testemunho o identifica.

A frase "Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (Jo 1:29) coloca Jesus na linha dos sacrifícios de Israel e anuncia o que a cruz realizará. João diz ainda que Jesus "já existia antes de mim" (Jo 1:30), uma afirmação sobre a preexistência de Cristo.

O Batista é também o ponto de passagem entre o Antigo e o Novo Testamento. Jesus diz que "todos os Profetas e a Lei profetizaram até João" (Mt 11:13) e que "o reino dos céus é tomado por esforço" desde os dias de João (Mt 11:12). O profeta que fecha a era da promessa abre a era do cumprimento.


8. Pontos em debate

ℹOnde os intérpretes divergem

João e Elias. Jesus diz que João "é Elias, que estava para vir" (Mt 11:14), mas o próprio João nega ser Elias (Jo 1:21). Os intérpretes costumam harmonizar as duas falas: João não era Elias de volta, e sim aquele que veio "no espírito e poder de Elias" (Lc 1:17). Este perfil registra a harmonização como a mais comum.

O sentido de "o menor no reino dos céus é maior do que ele" (Mt 11:11). Alguns entendem a frase como comparação de privilégio: quem vive depois da cruz e da ressurreição tem acesso a um conhecimento e a uma graça que João não viu. Outros entendem que "o menor" é o próprio Jesus. A primeira leitura é a mais frequente, e o texto não encerra a discussão.

O batismo de João e o batismo cristão. Em Atos 19:1-7, Paulo encontra em Éfeso discípulos que só conheciam o batismo de João e os batiza em nome de Jesus. As tradições divergem sobre o que isso significa para a relação entre os dois batismos, e este perfil não toma partido.

A dúvida de João na prisão. Alguns intérpretes entendem a pergunta de Mateus 11:3 como dúvida real, outros como pergunta feita para benefício dos discípulos. O texto não decide.


9. O que aprender hoje

Aponte para Cristo, e não para você. João tinha seguidores e fama e disse que o seu papel era diminuir (Jo 3:30). Quem serve precisa saber de quem é a obra.

Fale a verdade, mesmo ao poderoso. "Não te é lícito" (Mc 6:18) custou a João a liberdade e a vida. A fidelidade de um profeta não depende do resultado.

Dúvida e fé podem coexistir. João, o maior entre os nascidos de mulher, mandou perguntar se Jesus era o esperado (Mt 11:3). A resposta de Jesus foi apontar o que ele estava fazendo, e não condenar a pergunta.

Viva com simplicidade. A roupa e o alimento de João eram austeros (Mt 3:4). Ele pregava com a vida, e o modo de viver reforçava a mensagem.

Produza frutos. Descendência, rito e tradição não substituem uma vida mudada (Mt 3:8-10). A conversão se vê nas escolhas.


10. Leituras Recomendadas

  • Calvino, João. Commentary on a Harmony of the Evangelists (sobre Mateus 3 e 11) e Commentary on the Gospel According to John (sobre João 1 e 3). Domínio público, disponível em ccel.org.
  • Ligonier Ministries. "Christ Increasing" (devocional, 21 de fevereiro de 2018). learn.ligonier.org/devotionals/christ-increasing.
  • Lutero, Martinho. Sermons on the Gospel of St. John, Chapters 1 to 4. Em Luther's Works, vol. 22. Concordia Publishing House.
  • Webb, Robert L. John the Baptizer and Prophet: A Socio-Historical Study. JSOT Press, 1991.
  • Meier, John P. A Marginal Jew, vol. 2 (inclui João Batista). Doubleday, 1994.