1. O Nome
O homem que o Novo Testamento chama de Paulo aparece primeiro como Saulo. Em Atos, o narrador o apresenta como "Saulo, também chamado Paulo" quando começa a missão em Chipre (At 13:9), e a partir dali usa o segundo nome. Saulo é nome hebraico, ligado ao do primeiro rei de Israel, da tribo de Benjamim, a mesma tribo de Paulo (Fp 3:5). Paulo é nome latino, usado no mundo romano.
Παῦλος
Paulos
Forma grega do nome romano Paulus, 'pequeno'; o apóstolo o usa em todas as suas cartas
O texto não explica por que ele passou a usar o nome romano, e os estudiosos discutem a questão. Muitos observam que um judeu de língua grega e cidadão romano costumava ter dois nomes, um hebraico e outro latino, e que a mudança de uso em Atos coincide com o início da missão entre os gentios. Este perfil não trata o nome Paulo como "novo nome" recebido na conversão, porque o texto não afirma isso.
2. Ficha rápida
✦Ficha rápida
- Outras formas: Saulo (hebraico, Sha'ul); em grego, Σαῦλος (Saulos) e Παῦλος (Paulos).
- Período: século I d.C. A cronologia de sua vida é reconstruída a partir de Atos e das cartas, com margens de debate.
- Locais: Tarso, Jerusalém, Damasco, Antioquia da Síria, Chipre, Ásia Menor, Macedônia, Acaia, Éfeso, Roma.
- Família: da tribo de Benjamim, "hebreu de hebreus" (Fp 3:5); cidadão romano (At 22:25-28).
- Papel: fariseu, perseguidor da igreja, apóstolo de Jesus Cristo, missionário, fundador de igrejas e autor de cartas.
- Onde aparece: Atos 7 a 28, e treze cartas que levam seu nome (Romanos a Filemom). A autoria de algumas delas é debatida.
- Em uma frase: o fariseu que perseguia a igreja e foi alcançado por Cristo para anunciar o evangelho aos gentios.
3. Quem foi
A primeira aparição de Saulo em Atos é sombria: as testemunhas que apedrejam Estêvão deixam suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo, que consentia na morte dele (At 7:58; 8:1). Daí em diante, Saulo devasta a igreja, entra nas casas e prende homens e mulheres (At 8:3). Ele mesmo, mais tarde, descreve esse período sem atenuar: quanto ao zelo, "perseguidor da igreja" (Fp 3:6).
O encontro que muda tudo acontece na estrada para Damasco:
At 9:3-5"Seguindo ele estrada fora, ao aproximar-se de Damasco, subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor, e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Ele perguntou: Quem és tu, Senhor? E a resposta foi: Eu sou Jesus, a quem tu persegues."
Saulo se levanta cego e é levado a Damasco, onde fica três dias sem ver, sem comer e sem beber (At 9:8-9). Ananias, um discípulo, é enviado a ele e o chama de irmão (At 9:17). Depois disso, "logo pregava, nas sinagogas, a Jesus, afirmando que este é o Filho de Deus" (At 9:20). Os que o ouviam ficavam atônitos, porque era ele quem tinha vindo para prender os que invocavam aquele nome (At 9:21).
O próprio Paulo, em Gálatas, conta que depois da conversão foi para a Arábia e voltou a Damasco, e só três anos depois subiu a Jerusalém para conhecer Pedro (Gl 1:15-18). Barnabé o apresenta aos apóstolos em Jerusalém (At 9:26-27) e vai buscá-lo em Tarso para trabalhar com ele em Antioquia (At 11:25-26). Foi em Antioquia que a igreja, pelo Espírito, separou Barnabé e Saulo para a obra (At 13:1-3).
A partir daí, Atos narra as viagens missionárias. Paulo anuncia primeiro nas sinagogas e depois aos gentios, funda igrejas em cidades como Filipos, Tessalônica, Corinto e Éfeso, e enfrenta oposição, prisões e naufrágio (At 13 a 28; 2Co 11:23-28). Em Jerusalém, uma acusação contra ele leva à prisão e depois ao julgamento em Cesareia, e ele apela a César (At 21 a 25). Atos termina com Paulo em Roma, sob guarda, pregando o reino de Deus e ensinando as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo, sem impedimento (At 28:31). O livro não narra a morte do apóstolo. A segunda carta a Timóteo, que a tradição atribui a ele, dá a sua despedida:
2Tm 4:7-8"Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda."
Nas cartas, Paulo se define com clareza. Em Romanos, apresenta-se como "servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus" (Rm 1:1). E resume a razão da missão: "Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego" (Rm 1:16).
4. Contexto histórico e cultural
Paulo vivia na interseção de três mundos. Era judeu, educado, segundo ele, na Lei e fariseu (Fp 3:5); falava grego, a língua do Império, e era cidadão romano (At 22:25-28). Essa combinação explica sua habilidade de falar na sinagoga, no areópago de Atenas (At 17) e diante de governadores e reis.
As estradas romanas, o grego comum e as sinagogas espalhadas pelas cidades do Mediterrâneo foram o cenário de sua missão. O apóstolo, quase sempre, começava pela sinagoga local, onde encontrava judeus e também gentios simpatizantes da fé de Israel, e dali o evangelho alcançava os não judeus.
O grande conflito teológico de seu tempo foi o lugar dos gentios na igreja: era preciso se circuncidar e guardar a Lei para fazer parte do povo de Deus? O Concílio de Jerusalém tratou da questão (At 15). Em Gálatas, Paulo narra um episódio em que resistiu a Pedro, em Antioquia, porque este se afastara da mesa com os gentios por medo dos da circuncisão (Gl 2:11-14). A tensão não era sobre moral, e sim sobre o que define o povo de Deus.
5. Linha do tempo
Linha do tempo
6. O que a Escritura ensina por meio dele
A graça alcança quem não a procura. Saulo não estava em busca de Cristo, e sim perseguindo seus discípulos quando Jesus o interpelou (At 9:4-5). Paulo mesmo descreve a si mesmo, em termos de zelo e justiça legal, como alguém "irrepreensível" quanto à lei (Fp 3:6), e conclui que considerou tudo isso "perda por causa de Cristo" (Fp 3:7).
A justificação vem pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei. Em Gálatas 2, depois de narrar o confronto com Pedro, Paulo afirma que "o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus" (Gl 2:16). Em Filipenses 3:9, explica que deseja ser achado em Cristo, "não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé". E em Romanos 1:17 cita Habacuque: "O justo viverá por fé".
A união com Cristo é o centro da vida cristã. O texto mais pessoal está em Gálatas:
Gl 2:20"Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim."
A fraqueza é o lugar onde o poder de Cristo aparece. Paulo conta que lhe foi posto "um espinho na carne" e que pediu três vezes ao Senhor que o afastasse. A resposta foi: "A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza" (2Co 12:7-9). A natureza do espinho não é explicada no texto.
δικαιοσύνη
dikaiosynē
'Justiça' ou 'retidão'; em Romanos e Gálatas, a justiça que vem de Deus e é recebida pela fé
O que cada tradição destaca. A tradição reformada vê em Paulo a base da doutrina da justificação pela fé, e a Ligonier Ministries, em materiais sobre a vida de Paulo, destaca que a conversão dele não tem explicação natural e que seu passado religioso lhe ensinou que nenhum pecador é justificado por obras. A tradição luterana faz de Paulo, especialmente de Romanos e Gálatas, o centro da leitura de Lutero sobre lei e evangelho. Os luteranos, como os reformados, participam do debate com a Nova Perspectiva sobre Paulo, defendendo a leitura da Reforma. A tradição batista é aqui representada pela posição de John Piper, pastor batista, que critica a leitura de N. T. Wright e defende que a justiça de Deus em Paulo inclui a justiça imputada ao crente. A tradição pentecostal, por meio das Assembleias de Deus, destaca em Paulo e em Atos a dimensão missionária: a revista Influence apresenta o batismo no Espírito Santo como uma das marcas do pentecostalismo clássico. Em todos os casos, as tradições concordam que Paulo é apóstolo de Cristo e que suas cartas são Escritura.
7. Cristo e o personagem
Para Paulo, toda a vida depois de Damasco é resposta a uma pessoa. Ele define o objetivo dessa vida em Filipenses: "para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos" (Fp 3:10), e declara que prossegue "para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus" (Fp 3:12). A iniciativa, ele insiste, é de Cristo.
O evangelho que Paulo anuncia é, nas palavras de Romanos 1:3-4, o evangelho de Deus "com respeito a seu Filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor". Para ele, Cristo é descendente de Davi, Filho de Deus e Senhor ressuscitado, e a mensagem inteira se resume nele.
Paulo não é o centro das próprias cartas. Ele é o "servo" (Rm 1:1) que aponta para outro, e diz de si mesmo, em seus últimos escritos, que quem o livra é o Senhor: "O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial" (2Tm 4:18).
8. Pontos em debate
ℹOnde as tradições e os intérpretes divergem
A Nova Perspectiva sobre Paulo. Estudiosos como N. T. Wright e outros argumentam que a Reforma leu em Paulo um debate sobre mérito individual que ele não travava, e que o problema central de Gálatas e Romanos era quem pertence ao povo da aliança. Outros, como John Piper e D. A. Carson, defendem que a leitura reformada da justificação permanece fiel ao texto. O debate é vivo dentro das tradições evangélicas e este perfil não o resolve.
A autoria das cartas. As sete cartas geralmente aceitas como autenticamente paulinas por quase todos os estudiosos são Romanos, 1 e 2Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1Tessalonicenses e Filemom. A autoria de Efésios, Colossenses, 2Tessalonicenses e das cartas pastorais (1 e 2Timóteo, Tito) é discutida, e muitos evangélicos as atribuem a Paulo. Este perfil cita as pastorais, como 2Timóteo, na forma em que a tradição as atribui a ele.
O "espinho na carne". O texto não diz o que era (2Co 12:7). Intérpretes propuseram uma doença física, uma oposição humana ou uma tentação, e nenhuma hipótese é decisiva.
A morte de Paulo. Atos não a narra. A tradição antiga a situa em Roma sob Nero, mas isso vem de fontes posteriores ao texto bíblico.
9. O que aprender hoje
Ninguém está longe demais. Quem perseguia a igreja foi chamado por Cristo e enviado como apóstolo (At 9:4-5, 15). O texto não permite classificar ninguém como caso perdido.
O que você considera lucro pode ser obstáculo. Paulo enumera suas credenciais e as chama de perda diante do conhecimento de Cristo (Fp 3:4-8). Currículo, tradição e zelo não substituem a justiça que vem de Deus.
A vida cristã é viver da fé no Filho que se deu por você. Gálatas 2:20 liga o amor de Cristo à vida diária, na carne, pela fé.
Peça, mas aceite a resposta. Paulo pediu três vezes que o espinho fosse retirado e recebeu a promessa da graça (2Co 12:8-9). Nem toda oração é atendida como se pede, e a resposta pode ser presença em vez de remoção.
Ainda há trabalho a fazer. O próprio Paulo diz que não julga ter alcançado o alvo: "esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo" (Fp 3:13-14). A maturidade, para ele, é continuar caminhando.
10. Leituras Recomendadas
- Calvino, João. Comentário às Epístolas aos Romanos e aos Gálatas. Domínio público, disponível em ccel.org.
- Lutero, Martinho. Lectures on Galatians (1535). Em Luther's Works, vols. 26 e 27. Concordia Publishing House.
- Ligonier Ministries. "The New Perspective on Paul" (guia). ligonier.org/guides/the-new-perspective-on-paul.
- Piper, John. The Future of Justification: A Response to N. T. Wright. Crossway, 2007.
- Wright, N. T. Paul: A Biography. HarperOne, 2018.
- Influence Magazine. "Baptism in the Holy Spirit" (Assembleias de Deus). influencemagazine.com.