O Sermão

Personagem

Maria, mãe de Jesus

Uma jovem de Nazaré que disse 'que se cumpra em mim conforme a tua palavra' e esteve ao pé da cruz. O que a Escritura afirma sobre Maria, e por que as tradições cristãs divergem tanto sobre ela?

MariaNatalMagnificatNazarécruzmãe de Jesus

1. O Nome

O nome Maria chega ao grego do Novo Testamento em duas formas, Μαρία (Maria) e Μαριάμ (Mariam), e ambas refletem o nome hebraico מִרְיָם (Miryam), que é o nome da irmã de Moisés em Êxodo 15:20. A etimologia do nome hebraico é incerta e debatida, e este perfil não se apoia em nenhuma proposta.

HebraicoÊx 15:20

מִרְיָם

Miryam

Nome hebraico da irmã de Moisés (Êx 15:20); origem do nome grego Maria. A etimologia é debatida

O Novo Testamento tem várias Marias, o que exige cuidado: a mãe de Jesus, Maria Madalena, Maria de Betânia, Maria mulher de Clopas e Maria mãe de Tiago e de José, entre outras. Em João 19:25, as quatro primeiras aparecem juntas junto à cruz, e o texto as distingue pelo parentesco ou pela origem. Este perfil trata da primeira, a mãe de Jesus.


2. Ficha rápida

✦Ficha rápida

  • Outras formas: Miriã (hebraico); em grego, Μαρία (Maria) ou Μαριάμ (Mariam).
  • Período: século I d.C.; mãe de Jesus, viveu em Nazaré, na Galileia, e a última menção dela no Novo Testamento está em Atos 1:14.
  • Locais: Nazaré, a região montanhosa de Judá (casa de Isabel), Belém, Egito, Caná da Galileia, Jerusalém.
  • Família: noiva e depois esposa de José, da casa de Davi (Lc 1:27); parenta de Isabel (Lc 1:36); mãe de Jesus e, segundo os Evangelhos, de outros filhos (Mc 6:3).
  • Papel: a mulher escolhida por Deus para conceber e dar à luz Jesus, o Filho de Deus.
  • Onde aparece: Mateus 1 e 2, Lucas 1 e 2, João 2 e 19, Marcos 3 e 6, Atos 1:14, Gálatas 4:4.
  • Em uma frase: a serva do Senhor que acolheu a palavra do anjo e acompanhou o Filho desde Belém até a cruz.

3. Quem foi

A primeira cena de Maria em Lucas é a anunciação. O anjo Gabriel é enviado a Nazaré, a uma virgem desposada com José, da casa de Davi, e a saúda: "Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo" (Lc 1:28). O texto acrescenta que ela "ao ouvir esta palavra, perturbou-se muito" (Lc 1:29). O anjo explica:

"Maria, não temas; porque achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim."

Lc 1:30-33

Ela pergunta: "Como será isto, pois não tenho relação com homem algum?" E o anjo responde que o Espírito Santo descerá sobre ela e que o poder do Altíssimo a envolverá com sua sombra (Lc 1:34-35). A resposta de Maria é a frase mais conhecida dela:

"Então, disse Maria: Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra. E o anjo se ausentou dela."

Lc 1:38

Maria visita Isabel, sua parenta, que também esperava um filho, o futuro João Batista (Lc 1:39-56). Ali ela entoa o cântico conhecido como Magnificat: "A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador, porque contemplou na humildade da sua serva. Pois, desde agora, todas as gerações me considerarão bem-aventurada, porque o Poderoso me fez grandes coisas" (Lc 1:46-49). O cântico continua com um tema de reversão: Deus derruba poderosos e eleva humildes (Lc 1:52).

Mateus conta a história pelo lado de José: ele, sendo justo, pensava em deixá-la em segredo quando descobriu a gravidez, até que um anjo lhe explicou que o que nela foi gerado era do Espírito Santo (Mt 1:18-25). Lucas narra o nascimento em Belém, o recém-nascido na manjedoura e os pastores que vieram vê-lo, e acrescenta que Maria guardava todas essas coisas e as meditava no coração (Lc 2:19). Mateus relata a vinda dos magos e a fuga da família para o Egito para escapar de Herodes (Mt 2).

Quando Jesus é apresentado no Templo, Simeão lhe fala sobre o filho e sobre ela:

"Eis que este menino está destinado tanto para ruína como para levantamento de muitos em Israel e para ser alvo de contradição (também uma espada traspassará a tua própria alma), para que se manifestem os pensamentos de muitos corações."

Lc 2:34-35

Aos doze anos, Jesus fica em Jerusalém sem avisar os pais. Quando o encontram no Templo, Maria lhe diz: "Filho, por que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos, estamos à tua procura." Ele responde: "Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?" O texto observa que eles não compreenderam as palavras, que ele desceu com eles a Nazaré e "era-lhes submisso" (Lc 2:48-51).

No ministério de Jesus, Maria aparece em Caná. Faltando vinho no casamento, ela diz a Jesus: "Eles não têm mais vinho." Ele responde: "Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora." Ela, sem discutir, diz aos serventes: "Fazei tudo o que ele vos disser" (Jo 2:3-5). O texto registra que esse foi o princípio dos sinais de Jesus e que seus discípulos creram nele (Jo 2:11). Em outro momento, quando lhe dizem que a mãe e os irmãos estão do lado de fora, Jesus aponta para os que fazem a vontade de Deus como seus familiares (Mc 3:31-35).

A última cena em que Maria aparece nos Evangelhos é junto à cruz:

"E junto à cruz estavam a mãe de Jesus, e a irmã dela, e Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena. Vendo Jesus sua mãe e junto a ela o discípulo amado, disse: Mulher, eis aí teu filho. Depois, disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. Dessa hora em diante, o discípulo a tomou para casa."

Jo 19:25-27

Em Atos, ela está entre os que, depois da ascensão, perseveram em oração em Jerusalém, junto com os apóstolos, as mulheres e os irmãos de Jesus (At 1:14). Esta é a última menção a ela no Novo Testamento. O texto não narra sua morte nem fala de sua vida posterior.


4. Contexto histórico e cultural

Maria era uma jovem de uma cidade pequena da Galileia, região vista com certo desprezo em Jerusalém (Jo 1:46). O noivado judaico era um compromisso formal, mais firme que o noivado atual, e por isso Mateus fala em José decidindo deixá-la em segredo quando soube da gravidez (Mt 1:19). A gravidez de uma noiva fora do casamento a expunha à humilhação pública e a um risco real, e o texto mostra que José, por ser justo, quis evitar expô-la.

A espera messiânica era viva. O cântico de Maria usa a linguagem do Antigo Testamento, e os intérpretes reconhecem ecos do cântico de Ana em 1Samuel 2. Simeão e Ana, no Templo, esperavam a consolação de Israel (Lc 2:25, 36-38). Maria fala como uma israelita piedosa que conhecia as Escrituras e via nelas a promessa que agora se cumpria.

O Novo Testamento chama Maria de "mãe de Jesus" (Jo 2:1; At 1:14), e Paulo diz que Deus enviou seu Filho, "nascido de mulher" (Gl 4:4). Esse "de mulher" ressalta a humanidade real de Jesus.


5. Linha do tempo

Linha do tempo


6. O que a Escritura ensina por meio dela

A graça de Deus escolhe os humildes. O anjo diz que Maria "achou graça diante de Deus" (Lc 1:30), e ela mesma, no Magnificat, fala da "humildade da sua serva" (Lc 1:48). O texto não apresenta nenhum mérito prévio que a qualifique, e sim a escolha de Deus.

A resposta de fé é a obediência à palavra. "Que se cumpra em mim conforme a tua palavra" (Lc 1:38) é uma entrega, mesmo com o custo social e as perguntas que ela não podia responder. O texto observa que o anjo diz que "para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas" (Lc 1:37).

Guardar e meditar. Duas vezes Lucas diz que Maria guardava essas coisas no coração e as meditava (Lc 2:19, 51). A fé que ela mostra inclui perplexidade: em Lucas 2:50, ela não compreende o que Jesus disse no Templo.

A mãe também é discípula. Em Caná, ela confia no filho sem exigir um método, e a orientação que dá aos serventes, "Fazei tudo o que ele vos disser", é um conselho de discipulado (Jo 2:5). Nos Evangelhos, quando Jesus ensina que família é quem faz a vontade de Deus (Mc 3:35), o texto relativiza o parentesco e destaca a obediência.

O que cada tradição destaca. O tema divide as tradições mais do que a maioria dos perfis. A tradição luterana manteve uma estima por Maria: Lutero escreveu uma interpretação do Magnificat, concluída em 1521, na qual vê em Maria o exemplo de alguém escolhido pela graça de Deus, por sua humildade e não por mérito; um artigo da Lutheran Church–Missouri Synod (The Lutheran Witness, 2017) afirma que Lutero tinha uma visão muito elevada de Maria, e que os luteranos honram Maria de forma bíblica sem invocá-la. Na tradição reformada, um artigo da revista Ad Fontes ("Mary in the Reformed Confessions") trata de como as confissões reformadas falam de Maria. Em geral, os reformadores protestantes rejeitaram a ideia de Maria como corredentora ou mediadora da salvação, ainda que alguns a honrassem. A tradição batista e a pentecostal, em geral, enfatizam o texto bíblico sobre Maria como exemplo de fé e rejeitam a veneração. Não encontrei, para as tradições batista e pentecostal, uma fonte confessional verificável que descreva a posição oficial, e por isso não atribuo a elas uma doutrina específica.


7. Cristo e o personagem

O papel de Maria no texto é apontar para Jesus. O anjo não fala dela, e sim do filho: "Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo" (Lc 1:32). O Magnificat começa com ela e termina com a misericórdia de Deus para com Israel. Em Caná, a última palavra dela nos Evangelhos é uma instrução para obedecer a Jesus (Jo 2:5).

A espada de Simeão (Lc 2:35) encontra eco na cruz, onde Maria está de pé. Mesmo ali, Jesus cuida dela: a entrega ao discípulo amado, que "a tomou para casa" (Jo 19:26-27). O texto mostra o Filho cuidando da mãe no momento de sua própria agonia.

Para Paulo, o essencial do nascimento de Jesus está em Gálatas 4:4: Deus enviou seu Filho, "nascido de mulher, nascido sob a lei". Maria é o meio pelo qual o Filho eterno entra na história humana, e é por isso que a igreja a chama de bem-aventurada (Lc 1:48).


8. Pontos em debate

ℹOnde as tradições divergem

A virgindade perpétua. O texto afirma que Maria era virgem quando concebeu Jesus (Lc 1:34-35; Mt 1:23). A tradição católica romana e a ortodoxa afirmam que ela permaneceu virgem para sempre. Os Evangelhos falam de "irmãos" de Jesus (Mc 6:3), termo que alguns entendem como filhos de Maria e José, outros como meios-irmãos (filhos de José de um casamento anterior) e outros como primos. Há relatos de que os primeiros reformadores, como Lutero, defenderam a virgindade perpétua, e muitos protestantes de hoje não a defendem. Este perfil reconhece o debate e se limita ao que o texto afirma.

A veneração e a intercessão. A tradição católica e a ortodoxa pedem a intercessão de Maria. As tradições protestantes, em geral, entendem que a oração é dirigida a Deus apenas, e que Cristo é o único mediador (1Tm 2:5). Os luteranos, segundo a Lutheran Witness, mantêm a honra a Maria sem invocá-la.

A imaculada conceição e a assunção. Esses dogmas, definidos pela Igreja Católica em 1854 e 1950, não têm afirmação direta no texto bíblico, e as tradições protestantes não os aceitam. O perfil os registra como pontos de divergência, sem desenvolvê-los.

O título "Mãe de Deus". A igreja antiga o adotou para afirmar a divindade de Jesus (o Concílio de Éfeso, em 431). Muitos protestantes aceitam o título como afirmação cristológica, e outros preferem "mãe de Jesus" ou "mãe do Senhor" (Lc 1:43) por receio de mal-entendidos.


9. O que aprender hoje

Diga sim a Deus sem ter todas as respostas. Maria perguntou "Como será isto?" e, mesmo sem entender tudo, respondeu: "Aqui está a serva do Senhor" (Lc 1:34, 38). A fé honesta pode perguntar e obedecer.

Guarde as coisas de Deus no coração. Em um mundo de reações rápidas, Maria guardava o que Deus fazia e o meditava no coração (Lc 2:19).

Há dor no chamado. A espada que Simeão anunciou (Lc 2:35) lembra que ser escolhido por Deus não livra do sofrimento. Maria esteve junto à cruz (Jo 19:25).

Diga aos outros: façam o que ele disser. O conselho de Maria em Caná (Jo 2:5) resume o que um discípulo pode dizer a quem precisa de ajuda: aponte para Jesus.

Honrar sem adorar. O Novo Testamento chama Maria de bem-aventurada (Lc 1:48) e a mostra em oração entre os discípulos (At 1:14). Ela é exemplo de fé, e o culto é dirigido a Deus.


10. Leituras Recomendadas

  • Lutero, Martinho. The Magnificat (1521). Em Luther's Works, vol. 21. Concordia Publishing House.
  • Weedon, William. "Mary, Mary, Quite Contrary". The Lutheran Witness, 2017. witness.lcms.org.
  • "Mary in the Reformed Confessions". Ad Fontes Journal. adfontesjournal.com.
  • Beattie, Tina. God's Mother, Eve's Advocate. Continuum, 2002 (perspectiva católica, para comparação).
  • McKnight, Scot. The Real Mary: Why Evangelical Christians Can Embrace the Mother of Jesus. Paraclete Press, 2006.