1. O Nome
O nome יְהוֹשֻׁעַ (Yehoshua), Josué, é o mesmo do sucessor de Moisés, e significa "o Senhor é salvação". Em Esdras e Neemias, o sumo sacerdote aparece em forma abreviada, יֵשׁוּעַ (Yeshua), traduzida "Jesua" (Ed 3:2; Ne 12:1). A forma abreviada é a que, em grego, se torna Ἰησοῦς (Iēsous), Jesus. Em Ageu e Zacarias, o nome aparece na forma longa, Josué.
יְהוֹשֻׁעַ
Yehoshua
'O Senhor é salvação'; forma longa do nome, abreviada em Esdras e Neemias como Yeshua (Jesua), a forma que em grego dá Jesus
Este perfil trata do sumo sacerdote do período persa, filho de Jozadaque. Não deve ser confundido com Josué, filho de Num, o sucessor de Moisés, que tem perfil próprio.
2. Ficha rápida
✦Ficha rápida
- Outras formas: Jesua (Yeshua, em Esdras e Neemias); em grego, Ἰησοῦς (Iēsous).
- Período: retorno do exílio e reconstrução do Templo, cerca de 538 a 516 a.C.
- Locais: Jerusalém.
- Família: filho de Jozadaque, que foi levado cativo à Babilônia (Ed 3:2; Ag 1:1; 1Cr 6:15).
- Papel: sumo sacerdote, ao lado de Zorobabel, governador, na reconstrução do altar e do Templo.
- Onde aparece: Esdras 2, 3 e 5; Ageu 1 e 2; Zacarias 3 e 6; Neemias 12.
- Em uma frase: o sumo sacerdote do retorno cujas vestes sujas foram trocadas por vestes limpas na visão de Zacarias.
3. Quem foi
Josué, filho de Jozadaque, aparece à frente do primeiro retorno dos exilados, com Zorobabel. Os dois constroem o altar e retomam os holocaustos, conforme a Lei de Moisés (Ed 3:1-3, em resumo). No segundo ano, iniciam a obra do Templo e nomeiam levitas para supervisioná-la (Ed 3:8-9). Quando os adversários oferecem ajuda e são recusados, a obra para (Ed 4). Retoma com a palavra de Ageu e Zacarias (Ed 5:1-2; Ag 1:1, 12-14). Ageu dirige a mensagem tanto a Zorobabel quanto a Josué (Ag 1:1; 2:2, 4).
O texto mais importante sobre Josué é a quarta visão de Zacarias:
Zc 3:1"Satanás estava à mão direita dele, para se lhe opor"
Zacarias vê Josué, o sumo sacerdote, diante do Anjo do Senhor, com Satanás ao lado para acusá-lo. O Senhor responde: "O Senhor te repreende, ó Satanás" e acrescenta a pergunta: "não é este um tição tirado do fogo?" (Zc 3:2). O texto descreve a situação de Josué: "trajado de vestes sujas" (Zc 3:3). O Anjo dá a ordem: "Tirai-lhe as vestes sujas" (Zc 3:4). O que se segue é a declaração de que a iniquidade foi removida e a troca por vestes limpas e um turbante limpo (Zc 3:4-5, em resumo).
O Senhor então faz uma promessa condicionada: se Josué andar nos caminhos do Senhor e guardar as suas ordens, governará a casa do Senhor e terá acesso entre os que ali estão (Zc 3:7, em resumo). E anuncia: "eis que eu farei vir o meu servo, o Renovo" (Zc 3:8). O capítulo trata também de uma pedra com sete olhos e da remoção da iniquidade da terra num só dia.
Em Zacarias 6, o profeta recebe uma ordem simbólica: pegar ouro e prata dos exilados vindos da Babilônia e fazer coroas, para pôr na cabeça de Josué:
Zc 6:11"põe-nas na cabeça de Josué, filho de Jozadaque, o sumo sacerdote"
O texto prossegue com uma palavra sobre o Renovo: "Eis aqui o homem cujo nome é Renovo; ele brotará do seu lugar e edificará o templo do Senhor" (Zc 6:12). E acrescenta: "será revestido de glória; assentar-se-á no seu trono, e dominará, e será sacerdote no seu trono" (Zc 6:13). A coroa será memorial no Templo (Zc 6:14, em resumo).
4. Contexto histórico e cultural
O sumo sacerdote era a figura religiosa central de Israel. Depois da queda da monarquia, ganhou ainda mais importância, porque o governo da comunidade restaurada era partilhado entre o governador davídico, Zorobabel, e o sumo sacerdote. Josué representa o lado sacerdotal da comunidade, e Zorobabel o lado real.
A visão de Zacarias 3 se passa em tribunal. Satanás, cujo nome significa "acusador" (hasatan), acusa o sumo sacerdote. As vestes sujas representam, segundo o contexto, a iniquidade (Zc 3:4). O fato de o sumo sacerdote aparecer sujo mostra que a mediação do povo precisava ela própria de purificação. A imagem faz lembrar o Dia da Expiação (Lv 16), em que o sumo sacerdote precisava expiar primeiro por si mesmo.
O pai de Josué, Jozadaque, foi levado ao cativeiro quando Nabucodonosor deportou Judá (1Cr 6:15). Josué nasceu, portanto, no exílio, e sua vida inteira é a de quem recebe de volta o ofício que a geração anterior perdeu.
O contexto do ofício sacerdotal ajuda a entender a cena de Zacarias 3. O sumo sacerdote usava vestes especiais, descritas em Êxodo 28, com peitoral, estola sacerdotal, túnica bordada, mitra e uma lâmina de ouro na fronte com a inscrição de santidade ao Senhor (Êx 28:36). A visão mostra Josué com vestes sujas, incompatíveis com o ofício, e a troca por vestes limpas e turbante limpo recupera a condição de ministrar. A cena reflete o sentido da consagração: o sacerdote não se consagra por si, mas é consagrado por Deus.
A expressão tição tirado do fogo (Zc 3:2) tem eco em Amós 4:11, em que o profeta usa uma imagem parecida para descrever Israel livrado do juízo. Aplicada a Josué, ela sugere que ele e o povo escaparam do exílio por pouco, e que a sobrevivência é obra de Deus. O reconhecimento da graça precede qualquer reivindicação de mérito.
O livro de Ageu mostra Josué em ação, com Zorobabel e o restante do povo, obedecendo à voz do Senhor (Ag 1:12). Ele é mencionado por nome, junto com o governador, como alvo das palavras do profeta (Ag 1:1; 2:2, 4). A sua liderança é compartilhada: o sacerdote cuida do culto, o governador da administração, e os dois são aliados na obra do Templo.
Em Esdras, o nome de Jesua aparece também nas listas de retorno e nas de famílias de levitas e cantores que o seguiam (Ed 2:36-40). Seus descendentes continuam como sumos sacerdotes em Neemias 12:10-11. A linhagem sacerdotal que passa por ele chega ao tempo de Neemias, o que mostra a continuidade da comunidade restaurada. A figura de Josué, nesse sentido, simboliza a permanência do ofício e da esperança num período frágil.
5. Linha do tempo
Linha do tempo
6. O que a Escritura ensina por meio dele
O mediador também precisa de purificação. Josué aparece com vestes sujas diante do Anjo do Senhor (Zc 3:3). O texto não esconde que o sumo sacerdote era pecador.
Deus repreende o acusador. "O Senhor te repreende, ó Satanás" (Zc 3:2) declara que a defesa de Josué vem de Deus. O argumento não é a inocência de Josué, mas a escolha de Deus: ele é "um tição tirado do fogo".
A limpeza é graça. A ordem "Tirai-lhe as vestes sujas" (Zc 3:4) mostra que a purificação é ação de Deus, e não de Josué.
A graça traz responsabilidade. A promessa de governar a casa do Senhor vem com condição de andar nos caminhos de Deus (Zc 3:7). Quem é purificado é chamado a servir.
Sacerdote e rei se encontram em um futuro Renovo. A coroa na cabeça do sumo sacerdote (Zc 6:11-13) é um sinal incomum, porque a Lei separava os ofícios. O texto aponta para alguém que reunirá os dois.
O que cada tradição destaca. As buscas feitas para este perfil não retornaram fonte verificável das quatro tradições (reformada, batista, luterana e pentecostal) especificamente sobre Josué, o sumo sacerdote, e este perfil não lhes atribui posições. A leitura de Zacarias 3 como cena de justificação, em que as vestes sujas são trocadas por vestes limpas, é comum na tradição cristã de comentário; ver os perfis de Zacarias e de Zorobabel para as obras gerais.
7. Cristo e o personagem
O nome de Josué já aponta para Cristo: em hebraico, Yeshua é o nome que em grego se torna Jesus. O Novo Testamento não faz uma ligação explícita entre o sumo sacerdote do retorno e Jesus, mas a coincidência de nome e a imagem do sacerdote coroado chamaram a atenção de intérpretes desde cedo.
A cena de Zacarias 3, com o acusado, o acusador, a repreensão divina e a troca de vestes, é lida pela tradição cristã como imagem da justificação: o pecador é vestido com uma justiça que não é sua. Essa leitura é de intérpretes, e este perfil a apresenta como tal. O Novo Testamento usa a imagem da veste em outros lugares, como em Apocalipse 3:4-5 e 19:8.
O sacerdote que é também coroado em Zacarias 6 antecipa, na leitura cristã, o Messias que reúne os ofícios de rei e sacerdote. A carta aos Hebreus apresenta Cristo como sumo sacerdote (Hb 4:14; 7:26-28), que não precisa oferecer sacrifício por si mesmo, em contraste com Josué, cujas vestes sujas aparecem na visão. O contraste é de leitor, e o texto de Zacarias não o faz.
8. Pontos em debate
ℹOnde os intérpretes divergem
O sentido da coroa (Zc 6:11). O texto hebraico traz "coroas" no plural e manda pô-las na cabeça de Josué, o que é incomum. Alguns estudiosos propõem que o texto original falava em Zorobabel e foi alterado depois, outros que as duas coroas representam os ofícios real e sacerdotal. Este perfil registra a dificuldade.
O Renovo. O "Renovo" (Zc 3:8; 6:12) é Zorobabel, um futuro rei davídico ou o Messias? A tradição cristã o lê como Cristo, e muitos intérpretes veem referência dupla. Este perfil registra as leituras.
A identidade das vestes sujas. Representam os pecados pessoais de Josué, os pecados do povo ou a contaminação do exílio? O texto diz apenas "iniquidade" (Zc 3:4). Este perfil registra as leituras.
Josué e Josué. O sumo sacerdote (Jesua) e o sucessor de Moisés (Josué) têm o mesmo nome, e a tradição cristã ressalta o paralelo com Jesus. Os intérpretes divergem sobre o peso da coincidência. Este perfil menciona a coincidência sem fazer dela argumento.
9. O que aprender hoje
Quem serve também precisa de perdão. O sumo sacerdote aparece sujo. A liderança espiritual não isenta ninguém de ser purificado.
Deixe Deus responder às acusações. O argumento contra o acusador não é a inocência de Josué, e sim a escolha de Deus. Quem está em Cristo pode confiar na repreensão do Senhor ao acusador.
Receba a veste que Deus oferece. A troca de roupas é ação divina. O papel de Josué foi permanecer e receber.
Responda à graça com serviço. A promessa de governar a casa do Senhor vem depois da limpeza (Zc 3:7). O perdão não é fim, mas início.
Trabalhe junto. Josué e Zorobabel reconstruíram o Templo lado a lado. A obra de Deus pede cooperação entre os dons.
10. Leituras Recomendadas
- Calvino, João. Commentaries on the Twelve Minor Prophets (sobre Ageu e Zacarias). Domínio público, disponível em ccel.org.
- Baldwin, Joyce G. Haggai, Zechariah, Malachi. Tyndale Old Testament Commentaries. IVP, 1972.
- Boda, Mark J. Haggai, Zechariah. NIV Application Commentary. Zondervan, 2004.
- Kidner, Derek. Ezra and Nehemiah. Tyndale Old Testament Commentaries. IVP, 1979.
- Henry, Matthew. Comentário Bíblico, sobre Zacarias 3 e 6. Domínio público.