O Sermão

Personagem

Samuel

Filho da oração de Ana, criado no santuário de Siló, Samuel foi o último juiz, profeta e quem ungiu os dois primeiros reis de Israel. O que sua vida ensina sobre ouvir a voz de Deus e sobre a obediência?

profetajuizAnaSilóSaulunção de Davi

1. O Nome

Quando Ana, estéril, teve finalmente um filho, o texto explica o nome em uma frase: "ela concebeu e, passado o devido tempo, teve um filho, a que chamou Samuel, pois dizia: Do Senhor o pedi" (1Sm 1:20). Em hebraico, שְׁמוּאֵל (Shemu'el) é geralmente entendido como "o nome de Deus" ou "Deus ouviu". O texto liga o nome ao pedido de Ana, e os estudiosos discutem a conexão exata entre o som do nome e a explicação dada. O mais seguro é aceitar que o relato associa o nome à oração respondida.

Hebraico1Sm 1:20

שְׁמוּאֵל

Shemu'el

Geralmente 'nome de Deus' ou 'Deus ouviu'; o relato o liga ao pedido de Ana: 'Do Senhor o pedi' (1Sm 1:20)

O verbo "pedir" (sha'al) soa parecido com o nome de Saul (Sha'ul), e o livro joga com essa semelhança mais adiante, o que os intérpretes costumam notar. O jogo de palavras prepara o leitor para o conflito entre os dois personagens centrais do livro.


2. Ficha rápida

✦Ficha rápida

  • Outras formas: em grego, Σαμουήλ (Samouēl), como em Atos 3:24 e Hebreus 11:32.
  • Período: transição entre a época dos juízes e a monarquia, tradicionalmente situada no século XI a.C.
  • Locais: Ramá, Siló, Mispa, Gilgal, Belém, Betel.
  • Família: filho de Elcana e Ana, da região montanhosa de Efraim (1Sm 1:1, 19-20); seus filhos Joel e Abias foram juízes que não andaram em seus caminhos (1Sm 8:1-3).
  • Papel: nazireu consagrado ao Senhor, sacerdote em formação, profeta, o último dos juízes, ungidor de Saul e de Davi.
  • Onde aparece: 1Samuel 1 a 25; também em Salmo 99:6, Jeremias 15:1, Atos 3:24 e 13:20, Hebreus 11:32.
  • Em uma frase: o menino dedicado ao Senhor que cresceu como profeta confiável e conduziu Israel da época dos juízes à monarquia.

3. Quem foi

A história começa com a oração de uma mulher estéril. Ana, mulher de Elcana, pede ao Senhor um filho e promete devolvê-lo (1Sm 1:10-11). Depois do nascimento, ela o leva a Eli, o sacerdote de Siló:

"Por este menino orava eu; e o Senhor me concedeu a petição que eu lhe fizera. Pelo que também o trago como devolvido ao Senhor, por todos os dias que viver; pois do Senhor o pedi. E eles adoraram ali o Senhor."

1Sm 1:27-28

Samuel cresce no santuário, servindo ao Senhor diante de Eli. O texto observa que "a palavra do Senhor era mui rara; as visões não eram frequentes" naqueles dias (1Sm 3:1). Numa noite, o Senhor chama o menino por nome. Samuel pensa que é Eli, e vai três vezes até ele. Eli finalmente entende e o instrui:

"Por isso, Eli disse a Samuel: Vai deitar-te; se alguém te chamar, dirás: Fala, Senhor, porque o teu servo ouve. E foi Samuel para o seu lugar e se deitou. Então, veio o Senhor, e ali esteve, e chamou como das outras vezes: Samuel, Samuel! Este respondeu: Fala, porque o teu servo ouve."

1Sm 3:9-10

A primeira mensagem é um juízo contra a casa de Eli (1Sm 3:11-18). Depois disso, o texto resume: "Crescia Samuel, e o Senhor era com ele, e nenhuma de todas as suas palavras deixou cair em terra. Todo o Israel, desde Dã até Berseba, conheceu que Samuel estava confirmado como profeta do Senhor" (1Sm 3:19-20). Os filhos de Eli morrem em batalha, a arca é capturada pelos filisteus, e Eli morre ao ouvir a notícia (1Sm 4).

Samuel exorta o povo à conversão e liderança, em Mispa. Diz que se voltarem ao Senhor de todo o coração, ele os livrará: "tirai dentre vós os deuses estranhos e os astarotes, e preparai o coração ao Senhor, e servi a ele só" (1Sm 7:3). Depois da vitória sobre os filisteus, ele ergue uma pedra e a chama de Ebenézer: "Até aqui nos ajudou o Senhor" (1Sm 7:12).

Quando Samuel envelhece, os anciãos lhe pedem um rei, "como o têm todas as nações", alegando que os filhos dele não andam em seus caminhos (1Sm 8:4-5). Samuel se desagrada e ora. O Senhor responde:

"Disse o Senhor a Samuel: Atende à voz do povo em tudo quanto te diz, pois não te rejeitou a ti, mas a mim, para eu não reinar sobre ele."

1Sm 8:7

Samuel unge Saul, e depois, em Gilgal, confirma o reino e faz uma declaração de integridade pessoal, pedindo ao povo que testemunhe se ele defraudou ou oprimiu alguém, e o povo responde: "Em nada nos defraudaste, nem nos oprimiste" (1Sm 12:3-4). Ele conclui com uma promessa pastoral: "longe de mim que eu peque contra o Senhor, deixando de orar por vós; antes, vos ensinarei o caminho bom e direito" (1Sm 12:23).

Saul falha. Em 1Samuel 15, depois de poupar o rei dos amalequitas e o melhor do gado, é confrontado:

"Porém Samuel disse: Tem, porventura, o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de carneiros. Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria e culto a ídolos do lar. Visto que rejeitaste a palavra do Senhor, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei."

1Sm 15:22-23

Em seguida, o Senhor o envia a Belém para ungir um novo rei entre os filhos de Jessé. Samuel olha para Eliabe e pensa que é o escolhido, mas ouve:

"Porém o Senhor disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração."

1Sm 16:7

Davi, o mais moço, é chamado dos campos e ungido: "Tomou Samuel o chifre do azeite e o ungiu no meio de seus irmãos; e, daquele dia em diante, o Espírito do Senhor se apossou de Davi" (1Sm 16:13). Samuel volta a Ramá, e o texto o acompanha só mais um pouco. Sua morte é registrada em 1Samuel 25:1, com o luto de todo o Israel.


4. Contexto histórico e cultural

Samuel vive um momento de virada. O período dos juízes, marcado por ciclos de apostasia e libertação, termina com ele, e a monarquia começa. O livro de 1Samuel registra o conflito entre duas visões: Israel quer um rei "como as outras nações" (1Sm 8:5), e Deus reconhece nisso uma rejeição do seu próprio reinado (1Sm 8:7).

O cenário religioso inclui Siló, onde ficava o santuário e a arca, e depois Mispa, Betel e Gilgal, onde Samuel julgava em ciclo (1Sm 7:16). A corrupção do sacerdócio de Eli, com seus filhos Hofni e Finéias, é o pano de fundo do chamado de Samuel (1Sm 2:12-17, 22-25).

A relação entre profeta, juiz e rei é central. Samuel exerce os três papéis em graus diferentes: oferece sacrifícios, julga o povo e unge os reis. Ele estabelece um princípio que atravessa o resto da história de Israel: o rei está sujeito à palavra do Senhor, transmitida pelo profeta (1Sm 13:13-14; 15:22-23).


5. Linha do tempo

Linha do tempo


6. O que a Escritura ensina por meio dele

Deus fala a quem se dispõe a ouvir. A palavra do Senhor era rara, e ainda assim ele chamou um menino. A resposta que Eli ensinou, "Fala, Senhor, porque o teu servo ouve" (1Sm 3:9), define a postura de quem escuta.

A obediência é mais importante do que o rito. "O obedecer é melhor do que o sacrificar" (1Sm 15:22) é uma das frases mais citadas do livro. O ritual sem obediência não agrada a Deus.

Deus olha para o coração. O erro de Samuel diante de Eliabe, que parecia um rei, é corrigido pelo Senhor: "o homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração" (1Sm 16:7). O critério da escolha divina não é a aparência.

Liderança com integridade e intercessão. Samuel pôde pedir ao povo que testemunhasse contra ele (1Sm 12:3-5) e se comprometeu a continuar orando por quem o rejeitou (1Sm 12:23). Sua autoridade não dependia do cargo.

O que cada tradição destaca. A tradição batista aparece nas buscas em Charles Spurgeon, que pregou sobre 1Samuel 3:9, "Speak, Lord; for thy servant heareth", no sermão "The Child Samuel's Prayer", segundo a página consultada. Não li o sermão por inteiro. A tradição luterana aparece em pregações de congregações luteranas sobre 1Samuel 3 e o cântico de Ana, mas são sermões isolados, e por isso não os trato como posição da tradição. Para as tradições reformada e pentecostal, não encontrei fonte verificável específica sobre Samuel, e este perfil não lhes atribui posição própria. As tradições, em geral, leem a narrativa como centrada na palavra de Deus e na obediência.


7. Cristo e o personagem

O Novo Testamento coloca Samuel na linha dos profetas que anunciaram Cristo. Pedro, em Atos 3:24, diz que todos os profetas, desde Samuel e os que vieram depois dele, anunciaram também aqueles dias. Paulo, em Atos 13:20-22, menciona Samuel como o profeta que antecedeu a monarquia e que preparou a escolha de Davi. Hebreus 11:32 inclui seu nome entre os que agiram pela fé.

Samuel unge o homem de quem Jesus descenderia. A unção de Davi em 1Samuel 16:13, quando "o Espírito do Senhor se apossou de Davi", é o início da linhagem real que, nos Evangelhos, chega a Jesus (Lc 1:32). A palavra "ungido" (mashiach), de onde vem "Messias", aparece em 1Samuel como título do rei (1Sm 2:10; 12:3, 5). Essa conexão é uma observação de intérpretes sobre o uso do termo, e este perfil a registra assim.

O cântico de Ana, em 1Samuel 2, é reconhecido por muitos comentaristas como antecedente do Magnificat de Maria (Lc 1:46-55). O texto de Lucas não cita o cântico de Ana diretamente, e a ligação é uma leitura de intérpretes.


8. Pontos em debate

ℹOnde os intérpretes divergem

Samuel e a monarquia. O texto parece conter duas visões do pedido de um rei: uma negativa, que o vê como rejeição do Senhor (1Sm 8:7; 12:17), e outra mais favorável, que mostra o rei escolhido por Deus (1Sm 9:16; 10:1). Os intérpretes divergem sobre como harmonizar as duas. Este perfil registra a tensão.

O sacrifício em Gilgal. Em 1Samuel 13, Saul oferece o holocausto antes da chegada de Samuel e é repreendido. Os intérpretes discutem a gravidade do ato e a relação com o episódio de 1Samuel 15. O texto afirma que Saul não guardou o mandamento do Senhor (1Sm 13:13).

O que significa que Deus "se arrependeu". O texto diz que o Senhor se arrependeu de ter feito Saul rei (1Sm 15:11), e logo adiante afirma que ele "não é homem para que se arrependa" (1Sm 15:29). Os teólogos divergem sobre como entender o vocabulário. Este perfil não se pronuncia.

A aparição de Samuel em Endor. Em 1Samuel 28, a médium de Endor invoca Samuel diante de Saul. Há quem leia o episódio como aparição real do profeta e quem o entenda como ilusão ou como outra coisa. Este perfil não toma partido.


9. O que aprender hoje

Ensine a ouvir. Eli, que falhou como pai e sacerdote, acertou em ensinar a Samuel como responder a Deus (1Sm 3:9). Quem não é perfeito ainda pode orientar o próximo.

Seja o tipo de líder que aceita o teste. "De quem tomei o boi? De quem tomei o jumento?" (1Sm 12:3) é uma pergunta que poucos líderes fariam em público.

Obedeça antes de oferecer. Rituais, ofertas e programas não substituem a obediência. O critério de 1Samuel 15:22 vale para igrejas e para indivíduos.

Não se deixe enganar pela aparência. Samuel precisou ser corrigido por Deus. Mesmo quem tem discernimento precisa ouvir de novo.

Continue orando por quem não lhe deu ouvidos. Samuel prometeu: "longe de mim que eu peque contra o Senhor, deixando de orar por vós" (1Sm 12:23). A intercessão é uma forma de serviço.


10. Leituras Recomendadas

  • Calvino, João. Sermons on 1 Samuel. Banner of Truth.
  • Spurgeon, Charles H. "The Child Samuel's Prayer" (sobre 1Samuel 3:9). spurgeon.org.
  • Davis, Dale Ralph. 1 Samuel: Looking on the Heart. Christian Focus, 2000.
  • Bergen, Robert D. 1, 2 Samuel. New American Commentary. B&H, 1996.