1. O Nome
O nome רוּת (Rut), Rute, tem etimologia incerta. Alguns estudiosos o ligam a uma raiz que indica "amizade" ou "companheira", mas a hipótese é debatida. O texto bíblico não explica o nome, e este perfil não se apoia em nenhuma proposta.
רוּת
Rut
Nome de origem incerta, às vezes ligado a 'companheira'; a etimologia é debatida e o texto não a explica
O livro a identifica sempre pela origem: "Rute, a moabita" (Rt 1:22; 2:2, 21; 4:5, 10). O adjetivo não é um acaso do narrador. Moabe era um povo vizinho e com histórico de hostilidade com Israel (Dt 23:3-6). A insistência no gentílico faz parte da força da história.
2. Ficha rápida
✦Ficha rápida
- Outras formas: em grego, Ῥούθ (Rhouth), como em Mateus 1:5.
- Período: "nos dias em que julgavam os juízes" (Rt 1:1), na época dos juízes.
- Locais: Moabe, Belém de Judá, os campos de Boaz, a porta da cidade.
- Família: moabita, nora de Noemi; viúva de Malom; casou-se com Boaz; mãe de Obede, avô de Davi (Rt 4:13-17).
- Papel: protagonista do livro que leva seu nome; ancestral de Davi e de Jesus.
- Onde aparece: livro de Rute; também Mateus 1:5.
- Em uma frase: a estrangeira que escolheu o povo e o Deus de sua sogra e foi acolhida na linhagem do Messias.
3. Quem foi
O livro de Rute começa com uma fome. Um homem de Belém, Elimeleque, sai com a mulher Noemi e os filhos Malom e Quiliom para viver em Moabe (Rt 1:1-2). Elimeleque morre. Os filhos casam com moabitas, Orfa e Rute, e depois de quase dez anos morrem também, "ficando, assim, a mulher desamparada de seus dois filhos e de seu marido" (Rt 1:5). Noemi decide voltar a Belém, porque ouvira que o Senhor visitara o seu povo (Rt 1:6). Orfa volta para seu povo, mas Rute fica:
Rt 1:16-17"Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu e aí serei sepultada; faça-me o Senhor o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti."
Em Belém, toda a cidade se comove, e Noemi pede que a chamem Mara, "porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso" (Rt 1:19-20). As duas chegam "no princípio da sega da cevada" (Rt 1:22).
Rute vai ao campo respigar. O texto observa: "por casualidade entrou na parte que pertencia a Boaz, o qual era da família de Elimeleque" (Rt 2:3). Boaz a acolhe, protege e abastece. Quando ela lhe pergunta, de rosto em terra, por que a favorece sendo estrangeira, ele responde que soube de tudo o que ela fez pela sogra:
Rt 2:11-12"Bem me contaram tudo quanto fizeste a tua sogra, depois da morte de teu marido, e como deixaste a teu pai, e a tua mãe, e a terra onde nasceste e vieste para um povo que dantes não conhecias. O Senhor retribua o teu feito, e seja cumprida a tua recompensa do Senhor, Deus de Israel, sob cujas asas vieste buscar refúgio."
Noemi percebe a oportunidade e orienta Rute a ir à eira à noite e deitar-se aos pés de Boaz (Rt 3:1-4). Rute o faz, e, quando ele desperta, diz: "Sou Rute, tua serva; estende a tua capa sobre a tua serva, porque tu és resgatador" (Rt 3:9). Boaz a abençoa e responde: "toda a cidade do meu povo sabe que és mulher virtuosa" (Rt 3:11). Ele reconhece que há outro resgatador mais próximo, mas promete: "se não lhe apraz resgatar-te, eu o farei, tão certo como vive o Senhor" (Rt 3:13).
No capítulo 4, na porta da cidade, o parente mais próximo abre mão do direito, e Boaz assume a redenção da terra de Elimeleque e toma Rute por mulher (Rt 4:1-10). O povo e os anciãos o abençoam. O texto conclui: "Assim, tomou Boaz a Rute, e ela passou a ser sua mulher; coabitou com ela, e o Senhor lhe concedeu que concebesse, e teve um filho" (Rt 4:13). As mulheres de Belém dizem a Noemi que a nora que a ama "te é melhor do que sete filhos" (Rt 4:15). O menino se chama Obede: "Este é o pai de Jessé, pai de Davi" (Rt 4:17).
4. Contexto histórico e cultural
O livro situa a história "nos dias em que julgavam os juízes" (Rt 1:1), um período que o livro de Juízes descreve como de caos moral. Rute oferece um contraste: mostra gente comum vivendo a fidelidade à aliança no meio dessa época.
Duas instituições da Lei aparecem. A primeira é a respiga: a Lei mandava deixar parte da colheita para o pobre e o estrangeiro (Lv 19:9-10; Dt 24:19-21), e é por isso que Rute pode apanhar espigas nos campos de Boaz. A segunda é o resgatador (go'el), o parente próximo que tinha o dever de resgatar a terra da família e proteger o nome do falecido (Lv 25:25; Dt 25:5-10). Os intérpretes discutem como as duas normas se combinam em Rute 4, e este perfil não detalha a questão.
A origem moabita de Rute carrega peso. A Lei dizia que o amonita e o moabita não entrariam na assembleia do Senhor (Dt 23:3). O livro de Rute mostra uma moabita acolhida em Israel e ancestral do rei maior de Israel, o que muitos intérpretes leem como indicação de que a lealdade ao Senhor importa mais do que a origem. O texto não faz essa discussão explicitamente.
5. Linha do tempo
Linha do tempo
6. O que a Escritura ensina por meio dela
A lealdade é um tipo de fé. A confissão de Rute, "o teu Deus é o meu Deus" (Rt 1:16), não vem de uma doutrina estudada, e sim de uma fidelidade provada. Boaz depois a descreve como alguém que veio "buscar refúgio" sob as asas do Senhor (Rt 2:12).
Deus age na vida comum. O nome de Deus quase não aparece como agente direto, e o narrador observa que Rute entrou "por casualidade" no campo de Boaz (Rt 2:3). O leitor percebe que não foi acaso. O livro mostra a providência trabalhando por meio de escolhas, trabalho e encontros ordinários.
O sofrimento não encerra a história. Noemi voltou dizendo "chamai-me Mara" (Rt 1:20), e o livro termina com ela no regaço do neto. O texto mostra a amargura como real e a restauração como também real (Rt 4:14-17).
A redenção tem custo e nome. Boaz assume o resgate publicamente, diante dos anciãos, e paga o preço da terra e da responsabilidade sobre a família (Rt 4:9-10).
O que cada tradição destaca. A tradição reformada, em materiais da Ligonier Ministries, lê o livro de Rute à luz do tema do resgatador: o artigo "The Ultimate Kinsman-Redeemer" (5 de junho de 2013) afirma que Boaz prefigura Jesus Cristo, e um devocional intitulado "Naomi: Life Restored" (27 de julho de 2007) trata da restauração de Noemi. Não li esses textos por inteiro, e por isso aponto apenas o que o resumo da busca informa. Para as tradições luterana, batista e pentecostal, não encontrei fonte verificável específica sobre Rute, e este perfil não lhes atribui posição própria. Todas as tradições concordam que o livro aponta para a genealogia de Davi e do Messias.
7. Cristo e o personagem
Rute aparece na genealogia de Jesus. Mateus 1:5-6 registra: "Salmom gerou de Raabe a Boaz; este, de Rute, gerou a Obede; e Obede, a Jessé", e então chega ao rei Davi. Ao lado de Tamar, Raabe e "a que fora mulher de Urias" (Mt 1:3, 5, 6), Rute é uma das mulheres que o evangelista coloca na linhagem do Messias, e ela é uma estrangeira.
A figura do resgatador é central. Boaz assume por Rute o que a Lei previa para o parente próximo, e a tradição cristã vê nele uma imagem do Redentor que se faz parente para resgatar. Essa leitura é uma extensão de intérpretes, e este perfil a apresenta como tal. O que o texto afirma é que o resgate foi feito em público, pagou-se o preço e a linhagem foi preservada (Rt 4:9-10).
O desfecho mostra o sentido do livro: o nome do neto é Obede, e o texto conclui "Este é o pai de Jessé, pai de Davi" (Rt 4:17). Uma estrangeira viúva torna-se bisavó do rei e, nos Evangelhos, ancestral de Jesus.
8. Pontos em debate
ℹOnde os intérpretes divergem
A cena da eira (Rt 3). O gesto de Rute, deitar-se aos pés de Boaz, é lido de formas diferentes: como pedido de proteção legal dentro dos costumes da época, como ato de ousadia calculada ou como gesto ambíguo. Intérpretes divergem sobre o sentido de cada detalhe. O texto registra que Boaz a elogia como "mulher virtuosa" (Rt 3:11) e que a ação não é censurada.
Rute e a proibição de Deuteronômio 23:3. A Lei excluía moabitas da assembleia. Rute é aceita. Os intérpretes discutem se a norma se aplicava a mulheres, se o texto fala de gerações de exclusão ou se a fé a faz exceção. O livro não discute a questão.
Data e propósito do livro. O livro se passa na época dos juízes, mas sua redação final é debatida: alguns a situam na monarquia e outros no período pós-exílico. A genealogia final liga a história a Davi. Este perfil não decide.
O resgatador e o levirato. Os costumes de Rute 4 combinam elementos do resgate de terra e do casamento levirático, e a relação com as leis de Levítico 25 e Deuteronômio 25 é discutida. Este perfil não detalha.
9. O que aprender hoje
Lealdade é mais do que sentimento. Rute deixou terra, família e deuses, e o fez por compromisso com uma pessoa e com o Deus dela (Rt 1:16-17).
Faça o trabalho que está à mão. Rute foi respigar. O texto não glorifica o ato, mas é dele que vem tudo o que se segue (Rt 2:2-3).
Acolha o estrangeiro como Boaz acolheu. Ele a protegeu, alimentou e honrou a coragem dela (Rt 2:8-16). A generosidade com quem chega de fora faz parte da vida da aliança.
A amargura pode ser dita a Deus. Noemi falou do Todo-Poderoso que a afligira (Rt 1:20-21). O livro não censura a queixa, e a sequência mostra que Deus continuava agindo.
Pequenas fidelidades têm desdobramentos grandes. Nenhuma das pessoas do livro sabia que dali viria Davi. O mesmo vale para as escolhas obscuras de hoje.
10. Leituras Recomendadas
- Ligonier Ministries. "The Ultimate Kinsman-Redeemer" (5 de junho de 2013). learn.ligonier.org/articles/ultimate-kinsman-redeemer.
- Ligonier Ministries. "Naomi: Life Restored" (devocional, 27 de julho de 2007). learn.ligonier.org/devotionals/naomi-life-restored.
- Block, Daniel I. Judges, Ruth. New American Commentary. B&H, 1999.
- Hubbard, Robert L. The Book of Ruth. New International Commentary on the Old Testament. Eerdmans, 1988.
- Henry, Matthew. Comentário Bíblico, sobre o livro de Rute. Domínio público.