1. O Nome
O nome בֹּעַז (Bo'az), Boaz, tem significado debatido. Algumas propostas o relacionam a "nele há força" ou "ágil", mas o texto bíblico não explica o nome, e este perfil não se apoia em nenhuma delas. É o mesmo nome dado a uma das duas colunas do Templo de Salomão (1Rs 7:21), e os intérpretes discutem se há relação entre os usos.
בֹּעַז
Bo'az
Nome de significado debatido, às vezes relacionado a 'força'; o texto não o explica
O livro de Rute o apresenta com uma descrição que combina parentesco e posição: "Tinha Noemi um parente de seu marido, senhor de muitos bens, da família de Elimeleque, o qual se chamava Boaz" (Rt 2:1).
2. Ficha rápida
✦Ficha rápida
- Outras formas: em grego, Βοόζ (Booz), como em Mateus 1:5.
- Período: "nos dias em que julgavam os juízes" (Rt 1:1).
- Locais: Belém de Judá, os campos de cevada, a eira, a porta da cidade.
- Família: parente de Elimeleque, filho de Salmom e de Raabe, segundo Mateus 1:5; marido de Rute; pai de Obede, bisavô de Davi.
- Papel: proprietário de terras, resgatador (go'el) da família de Elimeleque.
- Onde aparece: livro de Rute; também Mateus 1:5 e Lucas 3:32.
- Em uma frase: o homem de bens que, ao resgatar Rute e a terra de Elimeleque, tornou-se ancestral de Davi e de Jesus.
3. Quem foi
Boaz aparece pela primeira vez quando Rute, a moabita, vai respigar nos campos de Belém e entra "por casualidade" na parte que pertencia a ele (Rt 2:3). Ele chega do campo saudando os segadores com uma bênção, e eles respondem com outra (Rt 2:4). Percebendo a jovem, pergunta quem ela é, e fica sabendo que é a moabita que voltou com Noemi. A primeira fala que dirige a Rute é uma proteção:
Rt 2:8-9"Então, disse Boaz a Rute: Ouve, filha minha, não vás colher em outro campo, nem tampouco passes daqui; porém aqui ficarás com as minhas servas. Estarás atenta ao campo que segarem e irás após elas. Não dei ordem aos servos, que te não toquem? Quando tiveres sede, vai às vasilhas e bebe do que os servos tiraram."
Quando Rute pergunta por que ele a favorece, sendo estrangeira, ele responde que soube de tudo o que ela fez pela sogra, e a abençoa: "O Senhor retribua o teu feito, e seja cumprida a tua recompensa do Senhor, Deus de Israel, sob cujas asas vieste buscar refúgio" (Rt 2:11-12). Ele também lhe oferece pão e grãos tostados, e manda os segadores deixarem espigas de propósito (Rt 2:14-16).
Noemi explica a Rute que Boaz é um dos resgatadores da família (Rt 2:20). À noite, na eira, Rute se deita aos pés dele e pede: "estende a tua capa sobre a tua serva, porque tu és resgatador" (Rt 3:9). Boaz responde com uma bênção e um reconhecimento:
Rt 3:10-11"Disse ele: Bendita sejas tu do Senhor, minha filha; melhor fizeste a tua última benevolência que a primeira, pois não foste após jovens, quer pobres, quer ricos. Agora, pois, minha filha, não tenhas receio; tudo quanto disseste eu te farei, pois toda a cidade do meu povo sabe que és mulher virtuosa."
Mas ele é honesto: "é muito verdade que eu sou resgatador; mas ainda outro resgatador há mais chegado do que eu". Promete cuidar do assunto: "se não lhe apraz resgatar-te, eu o farei, tão certo como vive o Senhor" (Rt 3:12-13).
No dia seguinte, Boaz vai à porta da cidade, reúne dez anciãos e apresenta o caso ao parente mais próximo, que primeiro aceita comprar a terra de Elimeleque e depois desiste quando fica sabendo que deveria também tomar Rute (Rt 4:1-6). Boaz declara diante dos anciãos e do povo que comprou da mão de Noemi tudo o que pertencia a Elimeleque, a Quiliom e a Malom, e que toma Rute por mulher, para que o nome do falecido não seja exterminado (Rt 4:9-10). O povo o abençoa, comparando a casa dele à de Perez, filho de Tamar e Judá (Rt 4:11-12).
O livro termina com a genealogia: Perez, Esrom, Rão, Aminadabe, Naassom, Salmom, Boaz, Obede, Jessé e Davi (Rt 4:18-22).
4. Contexto histórico e cultural
Boaz é descrito como "senhor de muitos bens" (Rt 2:1), possivelmente um proprietário de terras com empregados e ceifeiros. Sua conduta contrasta com a época dos juízes: ele saúda os trabalhadores com o nome do Senhor, cumpre a Lei da respiga e age pelas vias legais, na porta da cidade, onde se resolviam as questões públicas.
O papel de resgatador (go'el) previa três deveres principais na Lei: resgatar terra vendida por parente em dificuldade (Lv 25:25), resgatar o parente vendido como escravo (Lv 25:47-49) e, em certos casos, proteger o nome do falecido. A relação entre o resgate e o casamento com a viúva, como aparece em Rute 4, mistura elementos que a Lei trata separadamente, e os intérpretes divergem sobre como entender a combinação. Este perfil não detalha o assunto.
O contexto de época também importa. O livro de Rute começa dizendo que a história acontece "nos dias em que julgavam os juízes" (Rt 1:1), e esse mesmo período é descrito em outro livro como de grande desordem moral (Jz 21:25). Boaz aparece como contraponto: um homem que cumpre a Lei sem exibição, que cuida do estrangeiro e que resolve os assuntos diante dos anciãos. Sua conduta lembra que, mesmo em tempos de decadência, havia gente que vivia a aliança de maneira discreta e concreta. O narrador não faz propaganda dessa virtude; apenas a mostra em ação, na saudação aos ceifeiros, na ordem de deixar espigas e na promessa feita à noite e cumprida de manhã.
A cena da porta da cidade mostra como se faziam acordos públicos: dez anciãos como testemunhas e o gesto de entregar a sandália, em uso antigo mencionado em Rute 4:7-8. O texto explica o costume para o leitor, o que sugere que o livro foi escrito ou finalizado em época posterior.
5. Linha do tempo
Linha do tempo
6. O que a Escritura ensina por meio dele
Generosidade é obediência à Lei. Boaz foi além do mínimo exigido pela respiga, mandando deixar espigas de propósito (Rt 2:16). O livro apresenta a Lei vivida com bondade e iniciativa.
Palavras de bênção contam. Boaz saúda os ceifeiros com a bênção do Senhor e abençoa Rute duas vezes (Rt 2:4, 12; 3:10). Ele reconhece em voz alta o que Deus fez e o que Rute fez.
Integridade no tratamento do parente. Boaz fala com franqueza sobre o outro resgatador e não manobra pelas costas dele. Ele resolve o caso na porta da cidade, diante dos anciãos (Rt 4:1-4). A honestidade é parte do seu caráter.
Resgatar custa. Boaz paga a terra e assume a responsabilidade sobre uma família que não era a sua. O texto não esconde o custo, pois o outro resgatador desistiu justamente por isso (Rt 4:6).
O que cada tradição destaca. A tradição reformada, em um artigo da Ligonier Ministries intitulado "The Ultimate Kinsman-Redeemer" (5 de junho de 2013), afirma, segundo o resumo da busca, que Boaz prefigura Jesus Cristo, o resgatador definitivo, que salvou toda a família de Deus e deu a vida por ela. Não li o artigo por inteiro. Para as tradições luterana, batista e pentecostal, não encontrei fonte verificável específica sobre Boaz, e este perfil não lhes atribui posição própria. Todas as tradições concordam em ler o livro como parte da preparação da linhagem de Davi.
7. Cristo e o personagem
Boaz aparece em Mateus 1:5 e em Lucas 3:32 na genealogia de Jesus. Mateus diz: "Salmom gerou de Raabe a Boaz; este, de Rute, gerou a Obede". A linhagem do Messias passa, por Boaz, por uma cananeia (Raabe) e uma moabita (Rute).
A ligação mais comum com Cristo é a do resgatador. Boaz se faz parente próximo, paga o preço, age publicamente e preserva o nome e a herança. A tradição cristã lê nisso uma imagem de Cristo, que se fez carne e resgata os seus. Essa leitura tipológica é desenvolvida por muitos autores, e este perfil a apresenta como tal. O texto do livro de Rute não a faz diretamente.
O que o texto afirma é que o povo orou para que o nome de Boaz fosse "afamado em Belém" (Rt 4:11). O Evangelho de Mateus mostra, séculos depois, que a oração foi respondida de forma muito maior do que se imaginava, porque Boaz é bisavô do rei Davi (Rt 4:17, 21-22).
8. Pontos em debate
ℹOnde os intérpretes divergem
A relação entre Boaz e Raabe. Mateus 1:5 diz que Salmom gerou Boaz "de Raabe". Alguns estudiosos questionam se a Raabe de Jericó seria a mesma, pela distância de tempo até o período dos juízes. O texto não oferece mais informações, e a tradição a identifica com a Raabe de Jericó.
O papel do resgatador. O cruzamento entre resgate de terra, casamento com a viúva e continuidade do nome do falecido reúne leis que o Pentateuco apresenta em separado. Os intérpretes divergem sobre como elas funcionavam na prática. Este perfil não decide.
Boaz como tipo de Cristo. A tradição cristã desenvolve o paralelo com o resgatador, mas o Novo Testamento não declara essa ligação de modo explícito. Há pregadores que a exploram amplamente, e há intérpretes que preferem manter a ênfase no sentido histórico do livro. Este perfil registra as duas posições.
A cena da eira. O comportamento de Rute e de Boaz à noite na eira (Rt 3) é lido de formas diferentes, como proposta formal de resgate, gesto de ousadia ou cena de ambiguidade proposital do narrador. O texto elogia a conduta de ambos e não sugere reprovação.
9. O que aprender hoje
Use seus recursos a favor de quem tem menos. Boaz tinha bens e os usou para proteger Rute (Rt 2:8-16). A riqueza, no livro, é meio de cuidado.
Reconheça quem se arrisca por fidelidade. Boaz notou o que Rute fez pela sogra e disse isso em voz alta (Rt 2:11). Dar nome ao bem que se vê estimula quem o pratica.
Resolva as coisas com transparência. A porta da cidade, os anciãos e a fala franca com o outro resgatador mostram um caráter que não esconde seus passos (Rt 4:1-10).
Cumpra o que prometeu. "Eu o farei, tão certo como vive o Senhor" (Rt 3:13) foi dito à noite e cumprido de manhã. A palavra de Boaz tinha peso.
Viva a aliança em silêncio. Boaz não era profeta, juiz nem rei. Era um proprietário que saudava seus empregados em nome do Senhor e cuidava de uma estrangeira pobre. O livro mostra que a fidelidade cotidiana tem peso histórico.
Não perca de vista o conjunto. Boaz nunca soube que seria bisavô de Davi. Quem faz o bem do dia nem sempre sabe até onde ele alcança.
10. Leituras Recomendadas
- Ligonier Ministries. "The Ultimate Kinsman-Redeemer" (5 de junho de 2013). learn.ligonier.org/articles/ultimate-kinsman-redeemer.
- Block, Daniel I. Judges, Ruth. New American Commentary. B&H, 1999.
- Hubbard, Robert L. The Book of Ruth. New International Commentary on the Old Testament. Eerdmans, 1988.
- Bauckham, Richard. Gospel Women: Studies of the Named Women in the Gospels. Eerdmans, 2002.
- Mateus 1:1-17 e Lucas 3:23-38, para as genealogias de Jesus.