1. O Nome
O nome מָרְדֳּכַי (Mordekhai), Mordecai, é geralmente relacionado ao deus babilônico Marduque, e os estudiosos o consideram um nome teofórico com esse elemento. Muitos judeus da diáspora tinham nomes do ambiente local, e o livro não comenta isso. O texto bíblico não explica o nome, e este perfil não se apoia em nenhuma proposta.
מָרְדֳּכַי
Mordekhai
Provavelmente relacionado ao deus babilônico Marduque; o texto não explica o nome, e a etimologia é debatida
O livro de Ester o apresenta com a mesma fórmula com que apresenta Hamã: nome, pai e origem. "Havia certo homem judeu, benjamita, chamado Mordecai" (Et 2:5). A genealogia o liga à tribo de Benjamim, e a menção de seu antepassado Quis (Et 2:5) levou muitos intérpretes a ver uma relação com a família do rei Saul.
2. Ficha rápida
✦Ficha rápida
- Outras formas: em grego, Μαρδοχαῖος (Mardochaios).
- Período: reinado de Assuero (geralmente identificado com Xerxes I), século V a.C.
- Locais: Susã, a porta do rei.
- Família: benjamita, descendente de Quis (Et 2:5); primo e tutor de Ester (Et 2:7).
- Papel: oficial na porta do rei, tutor de Ester, adversário de Hamã, depois segundo no reino.
- Onde aparece: livro de Ester.
- Em uma frase: o judeu que não se curvou a Hamã, aconselhou Ester a agir e foi elevado ao posto de segundo depois do rei.
3. Quem foi
Mordecai vive em Susã e cria Ester, sua prima órfã, como filha (Et 2:7). Ele a orienta a não revelar sua origem (Et 2:10) e passa os dias à porta do palácio, atento ao que lhe acontece (Et 2:11). Quando descobre uma conspiração de dois eunucos contra o rei, repassa a informação a Ester, que a comunica ao rei em nome dele. Como o texto resume: "Veio isso ao conhecimento de Mordecai, que o revelou à rainha Ester" (Et 2:22). O fato é registrado nas crônicas do reino, mas Mordecai não é recompensado (Et 2:23).
Hamã, o agagita, é promovido, e os servos do rei se prostram diante dele por ordem real. O texto é direto sobre Mordecai:
Et 3:2"Mordecai, porém, não se inclinava, nem se prostrava."
Os servos o questionam dia após dia, e o texto indica o motivo apresentado por Mordecai: ele era judeu (Et 3:3-4). Hamã se enche de furor e "procurou Hamã destruir todos os judeus, povo de Mordecai" (Et 3:5-6). Um decreto é redigido para o extermínio dos judeus em todo o reino.
Mordecai reage com luto público, rasgando as vestes, vestindo-se de pano de saco e cinza e clamando com grande amargura (Et 4:1). Ao ficar sabendo do decreto, envia a Ester a ordem de interceder. Quando ela pondera o risco, ele responde com a fala mais citada do livro:
Et 4:14"quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada a rainha?"
Antes dessa pergunta, ele adverte: "Não imagines que, por estares na casa do rei, só tu escaparás entre todos os judeus" (Et 4:13). E afirma que, se ela calar, o livramento surgirá de outro lugar, mas ela e a casa de seu pai perecerão (Et 4:14). Ester pede que ele reúna os judeus de Susã para jejuar por ela, e Mordecai o faz (Et 4:15-17).
Na noite em que o rei não consegue dormir, o registro das crônicas é lido e revela que Mordecai nunca foi recompensado: "Nada lhe foi conferido" (Et 6:3). Na manhã seguinte, Hamã chega para pedir o enforcamento de Mordecai, e o rei lhe pergunta o que se deve fazer ao homem que o rei quer honrar. Pensando que seria ele mesmo, Hamã sugere honras reais. O rei responde: "Apressa-te, toma as vestes e o cavalo, como disseste" e manda Hamã fazer isso a Mordecai (Et 6:10). Hamã o conduz pela praça da cidade, proclamando a honra. Mordecai, depois, volta à porta do rei (Et 6:11-12).
Hamã é denunciado por Ester e enforcado na forca que havia preparado para Mordecai (Et 7:10). O rei dá a Mordecai o anel e a casa de Hamã (Et 8:1-2). Mordecai sai da presença do rei com vestes reais, coroa de ouro e manto de linho fino, e a cidade de Susã se alegra (Et 8:15). Um novo decreto autoriza os judeus a se defender.
Mordecai escreve estas coisas e envia cartas a todos os judeus, ordenando-lhes a comemorar os dias de Purim (Et 9:20-22). O último capítulo o apresenta como "o segundo depois do rei Assuero" e alguém que, "tendo procurado o bem-estar do seu povo", era muito estimado entre os judeus (Et 10:3).
4. Contexto histórico e cultural
A porta do rei era o local de decisões, de administração e de acesso ao palácio. Mordecai estar ali sugere que ocupava um cargo ou função oficial, que o texto não detalha. A porta é também o lugar onde Hamã o encontra e onde ele permanece mesmo depois de ser honrado (Et 6:12).
A recusa de Mordecai em prostrar-se diante de Hamã é tratada pelo livro sem explicar o motivo exato. O texto diz que ele disse aos servos que era judeu (Et 3:4). Os intérpretes propõem razões: a prostração diante de um homem poderia envolver reverência religiosa incompatível com a Lei, ou haver uma questão de rivalidade antiga entre benjamitas e agagitas, em referência a Saul e Agague. O texto não escolhe uma explicação.
O livro também mostra a vida da diáspora com realismo. Mordecai e Ester vivem em Susã, uma capital persa, com nomes que refletem esse ambiente, e a identidade judaica de Ester é mantida em reserva por um tempo (Et 2:10). A comunidade judaica está espalhada pelas províncias do reino, e o decreto de Hamã visa um povo espalhado e distinto dos demais em todas elas (Et 3:8). Isso ajuda a entender por que a ameaça era tão grave: o decreto alcançava judeus em todo o império, e não apenas numa cidade. A reação de Mordecai, de rasgar as vestes e se vestir de pano de saco, usa a linguagem do luto e da súplica que o Antigo Testamento associa à oração em crise (Et 4:1-3).
O livro de Ester alcança seu desfecho com a instituição de Purim. O nome vem de pur, "sorte", pelo sorteio feito por Hamã (Et 3:7; 9:24-26). A festa é celebrada até hoje no judaísmo.
5. Linha do tempo
Linha do tempo
6. O que a Escritura ensina por meio dele
Firmeza sem espetáculo. O texto diz que Mordecai "não se inclinava, nem se prostrava" (Et 3:2), e é tudo. Ele não discursa nem justifica a ninguém o que não deve. A resistência se mostra numa recusa persistente.
Lealdade a dois mundos. Mordecai delata a conspiração contra o rei (Et 2:22) e recusa prostrar-se diante de Hamã. Ele serve ao rei como oficial e se mantém fiel ao seu povo. A tensão da diáspora aparece em sua conduta.
Chamado a agir. O conselho a Ester, "Não imagines que, por estares na casa do rei, só tu escaparás" (Et 4:13), desfaz a ilusão de que a posição protege da identidade. A responsabilidade acompanha o lugar.
Paciência com o reconhecimento. A recompensa pela denúncia da conspiração demorou anos e veio no momento exato (Et 2:23; 6:1-3). O livro mostra que a honra de Deus chega no tempo de Deus.
Poder usado a serviço. O último verso do livro diz que Mordecai buscou "o bem-estar do seu povo" (Et 10:3). O poder, nele, serve ao povo.
O que cada tradição destaca. As buscas feitas para este perfil não retornaram fonte verificável das quatro tradições sobre Mordecai como personagem. Apareceu uma referência a Jerônimo, que leu Mordecai e Ester como símbolos da Igreja e de Jesus, mas não consegui verificar o texto original. Sobre o livro de Ester em geral, veja o perfil de Ester. Este perfil não atribui posições a tradições específicas.
7. Cristo e o personagem
Mordecai não é citado no Novo Testamento. A tradição de leitura, como mencionado no perfil de Ester, vê em Ester e Mordecai símbolos da Igreja e de Cristo (Jerônimo, segundo uma fonte consultada). Essa leitura é uma extensão de intérpretes, e este perfil a apresenta como tal.
Um tema que ressoa com o Novo Testamento é o da reversão. O homem humilhado na porta do rei é honrado diante de toda a cidade, e o inimigo que preparou a forca é enforcado nela. A tradição cristã vê essa mesma inversão na cruz e na ressurreição, mas o texto de Ester não faz esse paralelo.
O que o texto afirma é que a honra de Mordecai veio de uma mudança que ele não fabricou. Ele não buscou o reconhecimento; o rei insone o descobriu. Isso combina com a fala do Novo Testamento de que quem se humilha será exaltado (Lc 14:11), em paráfrase, como leitura de leitores.
8. Pontos em debate
ℹOnde os intérpretes divergem
Por que Mordecai não se prostrou. O texto não dá a razão explícita. As hipóteses incluem a objeção religiosa à reverência a um homem, a rivalidade entre benjamitas e agagitas ou o orgulho. Este perfil registra as hipóteses.
O silêncio inicial sobre a identidade de Ester. Mordecai a manda esconder sua origem (Et 2:10). Alguns intérpretes veem prudência, outros questionam a acomodação. O texto narra sem avaliar.
O papel de Mordecai como autor. Alguns tradicionalistas sugerem que o livro foi escrito por Mordecai, com base em Ester 9:20. O texto diz apenas que ele registrou os fatos e enviou cartas. A autoria do livro é discutida.
A conduta do capítulo 9. A autodefesa dos judeus inclui a morte de muitos inimigos, e os filhos de Hamã são enforcados. Intérpretes discutem a ética do episódio. Este perfil não toma partido.
9. O que aprender hoje
Mantenha a identidade onde você vive. Mordecai trabalhou para um império estrangeiro sem esconder quem era. Viver na cultura sem se dissolver nela é uma arte.
Não deixe que a posição de alguém o acomode. O conselho a Ester serve a quem acha que o conforto o protege de ser parte do povo de Deus.
Aja, e depois espere. Mordecai fez o que devia: avisou, orientou, jejuou. O resultado dependeu da providência.
Deixe o reconhecimento chegar. Anos se passaram até a honra. Quem faz o bem em silêncio pode esperar que Deus, no momento certo, traga à luz.
Seja o conselheiro que diz a verdade com amor. O conselho de Mordecai a Ester não bajulou nem poupou: lembrou o perigo e deixou aberta a possibilidade de um propósito maior (Et 4:13-14). Um bom mentor ajuda o outro a ver a situação com seriedade e esperança.
Use a influência para o bem de todos. O texto resume sua vida em "buscou o bem-estar do seu povo". Liderança é, no fim, serviço.
10. Leituras Recomendadas
- Baldwin, Joyce G. Esther. Tyndale Old Testament Commentaries. IVP, 1984.
- Bush, Frederic W. Ruth, Esther. Word Biblical Commentary, vol. 9. Word, 1996.
- Bush, Frederic W. "The Book of Esther: Opus non gratum in the Christian Canon". Bulletin for Biblical Research, vol. 8 (1998).
- Webb, Barry G. Five Festal Garments. Apollos, 2000.
- Henry, Matthew. Comentário Bíblico, sobre Ester. Domínio público.