1. O Nome
A jovem tinha dois nomes. O livro diz que Mordecai criou Hadassa, que também se chamava Ester (Et 2:7). הֲדַסָּה (Hadassah) é nome hebraico ligado à palavra para "murta". אֶסְתֵּר (Ester) tem origem debatida: alguns estudiosos o relacionam a um termo persa para "estrela", outros a uma palavra acádica ligada à deusa Istar, e há quem o ligue à raiz hebraica "esconder" (satar). O texto não explica, e este perfil não decide.
אֶסְתֵּר
Ester
Nome persa dado a Hadassa; a origem é debatida (propostas: 'estrela' em persa, relação com Istar, ou jogo com 'esconder')
A possível ligação com o verbo "esconder" é interessante em um livro em que Deus não é nomeado e em que a identidade de Ester fica oculta por um tempo (Et 2:10). O texto, porém, não faz essa associação.
2. Ficha rápida
✦Ficha rápida
- Outras formas: Hadassa (nome hebraico); em grego, Ἐσθήρ (Esthēr).
- Período: reinado de Assuero (identificado geralmente com Xerxes I), século V a.C.
- Locais: Susã, a cidadela real.
- Família: órfã, criada pelo primo Mordecai, da tribo de Benjamim (Et 2:5-7).
- Papel: rainha da Pérsia, intercessora de seu povo, instituidora, com Mordecai, da festa de Purim.
- Onde aparece: livro de Ester.
- Em uma frase: a rainha judia que, por jejum, coragem e discernimento, desfez o plano de Hamã para exterminar os judeus.
3. Quem foi
O livro começa com um banquete e uma queda. A rainha Vasti recusa comparecer à presença do rei Assuero e é destituída (Et 1). Reúnem-se jovens do reino, e entre elas está Ester, que Mordecai criara como filha: "a qual não tinha pai nem mãe" (Et 2:7). Mordecai lhe pede que não revele sua origem judaica (Et 2:10). O rei se agrada dela: "O rei amou a Ester mais do que a todas as mulheres" (Et 2:17), e a coroa rainha. Mordecai, na porta do rei, descobre uma conspiração contra o rei e a repassa a Ester, que a comunica ao rei em nome dele (Et 2:21-23).
Hamã, o agagita, é promovido a primeiro-ministro. Todos se prostram diante dele, mas "Mordecai, porém, não se inclinava, nem se prostrava" (Et 3:2). Hamã "encheu-se de furor" (Et 3:5) e decide ir além: "procurou Hamã destruir todos os judeus, povo de Mordecai" (Et 3:6). Convence o rei a assinar um decreto, e a data é marcada por sorteio (Et 3:7-15).
Mordecai e os judeus reagem com luto. Ester fica sabendo e envia mensagem a Mordecai, que lhe pede que vá ao rei e interceda. Ela lembra que quem se apresenta ao rei sem ser chamado pode ser morto (Et 4:10-11). Mordecai responde:
Et 4:13"Não imagines que, por estares na casa do rei, só tu escaparás entre todos os judeus."
E acrescenta que, se ela se calar, socorro surgirá de outra parte para os judeus, mas ela e a casa de seu pai perecerão. Termina com a pergunta que ficou conhecida: "quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada a rainha?" (Et 4:14). A resposta de Ester tem duas partes: pede que os judeus de Susã jejuem por ela três dias e anuncia sua decisão:
Et 4:16"Depois, irei ter com o rei, ainda que é contra a lei; se perecer, pereci."
No terceiro dia, ela se apresenta no pátio interior. O rei a vê e ela alcança favor; ele estende o cetro de ouro. "Que é o que tens, rainha Ester, ou qual é a tua petição? Até metade do reino se te dará" (Et 5:1-3). Ela não faz o pedido de imediato: convida o rei e Hamã a um banquete, e depois a um segundo, no dia seguinte (Et 5:4-8). Hamã sai alegre, mas se enfurece de novo ao ver Mordecai, e a mulher e os amigos sugerem uma forca para ele (Et 5:9-14).
Naquela noite, "o rei não pôde dormir" (Et 6:1). Manda ler os registros do reino e descobre que Mordecai nunca foi recompensado pela denúncia da conspiração: "Nada lhe foi conferido" (Et 6:3). Hamã, que chegara para pedir a morte de Mordecai, é obrigado a conduzi-lo pela cidade em honra, vestido com as vestes reais (Et 6:4-11).
No segundo banquete, Ester faz o pedido:
Et 7:3"dê-se-me por minha petição a minha vida, e, pelo meu desejo, a vida do meu povo."
E explica: "Porque fomos vendidos, eu e o meu povo, para nos destruírem, matarem e aniquilarem de vez" (Et 7:4). Hamã é denunciado e, no final, é enforcado na forca que preparara para Mordecai (Et 7:10). Como o primeiro decreto não podia ser revogado, o rei autoriza um segundo decreto que permite aos judeus se defenderem (Et 8). Mordecai é elevado e os judeus têm paz.
O livro termina com a instituição de Purim. Mordecai escreveu cartas a todos os judeus ordenando-lhes que comemorassem "o dia catorze do mês de adar e o dia quinze do mesmo, todos os anos", como "o mês que se lhes mudou de tristeza em alegria, e de luto em dia de festa" (Et 9:20-22).
4. Contexto histórico e cultural
O livro se passa na diáspora, entre os judeus que permaneceram na Pérsia depois de o decreto de Ciro permitir o retorno. Susã era uma das capitais do império. O rei Assuero é geralmente identificado com Xerxes I, mas o livro não diz isso explicitamente.
O conflito com Hamã tem um pano de fundo antigo. Ele é descrito como agagita (Et 3:1), e Mordecai é benjamita (Et 2:5), da mesma tribo de Saul, que foi rejeitado por poupar Agague, rei dos amalequitas (1Sm 15). Muitos intérpretes veem na hostilidade entre os dois um eco desse confronto. O texto de Ester não faz a ligação de modo explícito.
O livro é o único do Antigo Testamento a não mencionar o nome de Deus, conforme apontam os comentaristas. A ausência é discutida, e há várias leituras: um recurso literário que sublinha a providência oculta, um reflexo da vida na diáspora ou uma consequência do contexto da composição. O texto mostra a ação de Deus nos acontecimentos (o insone rei, a coincidência dos registros, a reversão de Hamã) sem nomeá-lo.
5. Linha do tempo
Linha do tempo
6. O que a Escritura ensina por meio dela
A providência opera em silêncio. O livro não diz "Deus fez", e o leitor percebe a ação por trás dos fatos: a rainha escolhida, o rei sem sono, o registro lido na hora certa. O texto ensina que Deus governa também quando não se manifesta de modo evidente.
Cada pessoa está onde está por um tempo. "Quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada a rainha?" (Et 4:14) é uma pergunta, e não uma certeza. Mordecai não afirma o plano de Deus; ele convida Ester a considerar a possibilidade.
Coragem que aceita o custo. "Se perecer, pereci" (Et 4:16) é a fala de quem decidiu não fugir. Ester não tem garantia de sucesso e age mesmo assim.
Intercessão com preparo. Antes de ir ao rei, Ester pede jejum de três dias (Et 4:16). Depois, não age de imediato, e organiza banquetes com cuidado. O texto mostra coragem e prudência juntas.
O mal volta sobre quem o planeja. Hamã é enforcado na forca que preparou (Et 7:10). O livro mostra a reversão como tema central, e o povo que ia ser destruído é livrado.
O que cada tradição destaca. A tradição luterana tem na figura de Martinho Lutero uma crítica conhecida: nas buscas feitas para este perfil, uma fonte apresenta a observação de Lutero, registrada em seus Discursos de Mesa (Table Talk), de que ele era tão inimigo do segundo livro dos Macabeus e de Ester que gostaria que não existissem. A redação varia conforme a tradução e a fonte, e a própria busca recomenda conferir o original alemão. Lutero também chamou o livro "sem botas nem esporas". Um artigo de Frederic Bush, do Fuller Theological Seminary, argumenta que essa crítica se baseia em leitura equivocada. Para as tradições reformada, batista e pentecostal, não encontrei fonte verificável específica sobre Ester, e este perfil não lhes atribui posição própria. As igrejas protestantes, em geral, mantêm Ester no cânon.
7. Cristo e o personagem
Ester não é citada no Novo Testamento, e este perfil mantém essa distinção. A conexão com Cristo é feita pela tradição de leitura. Ester arrisca a própria vida para interceder por um povo condenado, e a tradição cristã vê nessa figura uma sombra do mediador. Jerônimo, segundo uma das fontes consultadas, leu Ester e Mordecai como símbolos da Igreja e de Jesus. Essa leitura é de intérpretes, e este perfil a apresenta como tal.
O texto traz um tema que o Novo Testamento aprofunda: o livramento vem de alguém que se identifica com o povo e se expõe ao perigo por ele. A frase de Ester, "se perecer, pereci" (Et 4:16), tem limites evidentes quando comparada à de Cristo, que sabia que morreria e foi voluntariamente.
O livro também aponta para a segurança do povo de Deus. A palavra de Mordecai de que o livramento surgiria de outra parte (Et 4:14) afirma que o povo não será exterminado. O Novo Testamento aplica a preservação do povo de Deus à igreja (Mt 16:18), o que é uma leitura de leitores.
8. Pontos em debate
ℹOnde os intérpretes divergem
A ausência do nome de Deus. O livro é o único do Antigo Testamento sem menção direta a Deus. Alguns leem isso como estratégia literária para destacar a providência escondida; outros veem relação com o contexto da diáspora. O texto não explica.
O lugar de Ester no cânon. Ester ficou fora dos manuscritos de Qumran, e alguns pais da igreja e reformadores, entre eles Lutero, tiveram reservas. As igrejas protestantes e a tradição judaica a mantêm. A versão grega traz acréscimos que não estão no texto hebraico, e as tradições divergem sobre eles. Este perfil usa o texto hebraico.
A conduta de Ester. Ester entra no harém do rei e esconde sua identidade (Et 2:8-10). Alguns intérpretes questionam a aceitação desse processo; outros a tratam como circunstância da diáspora. O texto narra sem comentar.
A violência do capítulo 9. Os judeus se defendem e matam muitos inimigos (Et 9:1-16). Intérpretes discutem a gravidade, o contexto da autodefesa e o paralelo com Amaleque. Este perfil registra o debate.
Historicidade. A relação do relato com a história persa é discutida. Alguns estudiosos o leem como história, outros como novela histórica. Este perfil lê o livro como narrativa bíblica.
9. O que aprender hoje
Pense no seu lugar como um chamado possível. "Quem sabe se para conjuntura como esta..." (Et 4:14) não é certeza, e sim convite a considerar como a posição que se ocupa pode servir a outros.
Decida antes de ter garantias. Ester não sabia como terminaria. A fé às vezes se expressa como disposição a arriscar.
Jejue e planeje. A oração e a preparação cuidadosa andam juntas no livro. Não é um ou outro.
Não pense que o silêncio de Deus é ausência. Deus não é nomeado, e está presente. Há tempos em que só se vê a ação dele em retrospecto.
Celebre o livramento. Purim foi instituído para lembrar a mudança de tristeza em alegria e de luto em festa (Et 9:22). Fazer memória das ações de Deus mantém viva a gratidão do povo.
10. Leituras Recomendadas
- Bush, Frederic W. "The Book of Esther: Opus non gratum in the Christian Canon". Bulletin for Biblical Research, vol. 8 (1998).
- Lutero, Martinho. Tischreden (Discursos de Mesa), passagem sobre Ester e 2Macabeus (conferir a edição de Weimar). Em Luther's Works, vol. 54. Fortress Press.
- Baldwin, Joyce G. Esther. Tyndale Old Testament Commentaries. IVP, 1984.
- Bush, Frederic W. Ruth, Esther. Word Biblical Commentary, vol. 9. Word, 1996.
- Webb, Barry G. Five Festal Garments. Apollos, 2000 (sobre Ester e Purim).