O Sermão

Personagem

Moisés

Salvo do Nilo, criado no palácio do faraó, foragido por quarenta anos no deserto e chamado por Deus numa sarça que não se consumia. Quem foi o homem que libertou Israel e recebeu a Lei?

ÊxodoLeialiançamediadorPáscoaprofeta

1. O Nome

O nome do libertador de Israel aparece em hebraico como מֹשֶׁה (Mosheh). O próprio texto de Êxodo o explica logo depois do resgate no rio.

HebraicoÊx 2:10

מֹשֶׁה

Mosheh

Em Êx 2:10 o nome é explicado pela ideia de 'tirar das águas'

"Sendo o menino já grande, ela o trouxe à filha de Faraó, da qual passou ele a ser filho. Esta lhe chamou Moisés e disse: Porque das águas o tirei."

Êx 2:10

A explicação bíblica joga com o verbo hebraico mashah (מָשָׁה), "tirar", "puxar para fora". Muitos estudiosos, inclusive evangélicos, observam que o nome provavelmente tem raiz egípcia, ligada ao verbo "gerar" ou "nascer" (msi), presente em nomes como Tutmés e Ramessés. Se for assim, o texto mostra duas camadas: um nome que soa egípcio na boca da princesa e que o narrador hebreu faz ecoar como "o que foi tirado das águas". A etimologia exata é debatida, e este perfil não a resolve. O que importa é o sentido que o próprio texto dá ao nome: um menino salvo da morte que, anos depois, conduzirá um povo inteiro pelo meio do mar.


2. Ficha rápida

✦Ficha rápida

  • Outras formas: em grego, Μωυσῆς (Mōysēs); em latim, Moyses.
  • Período: a data é debatida. Há quem defenda uma data antiga do Êxodo (c. 1446 a.C., a partir de 1Rs 6:1) e quem defenda uma data tardia (século XIII a.C., no tempo de Ramessés II). Este perfil segue a ordem dos fatos do texto e evita fixar anos.
  • Locais: Egito (Gósen e a corte do faraó), Midiã, o monte Horebe (Sinai), o deserto, as campinas de Moabe e o monte Nebo.
  • Família: da tribo de Levi, filho de Anrão e Joquebede (Êx 6:20); irmão de Arão e Miriã; casado com Zípora, filha do sacerdote de Midiã, com quem teve Gérson e Eliézer (Êx 2:21-22; 18:3-4).
  • Papel: profeta, libertador, líder, mediador da aliança no Sinai e, segundo a tradição judaica e cristã, autor do Pentateuco.
  • Onde aparece: Êx 1 a Dt 34; também em Sl 90, Is 63, Mt 17, At 7, Hb 3 e 11, e Ap 15:3.
  • Em uma frase: o servo por meio de quem Deus tirou Israel do Egito e lhe deu a Lei, e que apontou para um profeta maior.

3. Quem foi

Moisés nasce sob ameaça. Um novo rei, que "não conhecera a José" (Êx 1:8), escraviza os israelitas e manda lançar ao Nilo os meninos hebreus (Êx 1:22). Os pais do bebê, levitas, veem que ele é formoso e o escondem por três meses. Depois o põem num cesto de junco, calafetado com betume e piche, entre os juncos da margem, enquanto a irmã vigia de longe (Êx 2:2-4). A filha de Faraó o encontra, tem compaixão e, por iniciativa da irmã do menino, a própria mãe é contratada como ama (Êx 2:5-9). O futuro libertador cresce entre dois mundos.

Atos 7:22 acrescenta que Moisés "foi educado em toda a ciência dos egípcios e era poderoso em palavras e obras". Aos quarenta anos, segundo Estêvão, "veio-lhe a ideia de visitar seus irmãos" (At 7:23). O relato de Êxodo conta o que acontece: ele vê um egípcio espancar um hebreu, olha ao redor, mata o egípcio e o esconde na areia (Êx 2:11-12). No dia seguinte, um hebreu lhe pergunta quem o pôs por príncipe e juiz sobre eles, e Moisés teme. Faraó procura matá-lo, e ele foge para Midiã (Êx 2:13-15).

Em Midiã, Moisés defende as filhas do sacerdote contra pastores que as enxotavam do poço e recebe Zípora por esposa (Êx 2:16-21). Enquanto isso, o rei do Egito morre, e os israelitas gemem. O texto diz que Deus ouviu o gemido e "lembrou-se da sua aliança com Abraão, com Isaque e com Jacó" (Êx 2:23-24). A libertação não parte de Moisés: parte da aliança de Deus.

O chamado vem quando Moisés apascenta o rebanho do sogro e chega a Horebe, "o monte de Deus" (Êx 3:1). Um anjo do Senhor aparece numa chama no meio de uma sarça que arde e não se consome. Moisés é mandado tirar as sandálias, porque o lugar é terra santa (Êx 3:2-5). Deus diz que viu a aflição do povo, ouviu o seu clamor e desceu para livrá-lo (Êx 3:7-8). Moisés reage com objeções: "Quem sou eu?" (Êx 3:11), a pergunta sobre o nome de Deus (Êx 3:13), a falta de credibilidade (Êx 4:1) e a lentidão de fala. Por fim pede: "Envia aquele que hás de enviar, menos a mim" (Êx 4:13). A ira do Senhor se acende, e Arão é designado como porta-voz (Êx 4:14). O maior profeta do Antigo Testamento começa recusando.

"Disse Deus a Moisés: Eu Sou o Que Sou. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: Eu Sou me enviou a vós outros."

Êx 3:14

Seguem-se as pragas, o endurecimento do coração de Faraó e, na última noite, a Páscoa. Deus promete: "quando eu vir o sangue, passarei por vós" (Êx 12:13). O texto fala em cerca de seiscentos mil homens a pé, sem contar mulheres e crianças (Êx 12:37). Encurralado entre o exército e o mar, o povo ouve de Moisés uma frase que resume a fé do Êxodo:

"Não temais; aquietai-vos e vede o livramento do Senhor que, hoje, vos fará; porque os egípcios, que hoje vedes, nunca mais os tornareis a ver. O Senhor pelejará por vós, e vós vos calareis."

Êx 14:13-14

No Sinai, Deus fala o Decálogo, que começa pela lembrança do resgate: "Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão" (Êx 20:2). Enquanto Moisés está no monte, o povo pede a Arão que lhe faça deuses (Êx 32:1). Moisés desce, e depois intercede: "perdoa-lhe o pecado; ou, se não, risca-me, peço-te, do livro que escreveste" (Êx 32:32). Mais tarde, Deus passa diante dele e proclama o próprio nome: "compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade" (Êx 34:6).

Os anos de deserto são marcados por murmuração. Moisés recebe ajuda de setenta anciãos (Nm 11), enfrenta a crítica de Miriã e Arão (Nm 12) e, em Números 20, diante da rocha, chama o povo de "rebeldes" e fere a rocha duas vezes (Nm 20:10-11). O Senhor diz que, por não terem crido nele para o santificar diante de Israel, Moisés e Arão não conduziriam o povo à terra (Nm 20:12).

O Deuteronômio reúne os discursos finais de Moisés em Moabe. Do monte Nebo, o Senhor lhe mostra a terra prometida, e ele morre ali, "segundo a palavra do Senhor", aos cento e vinte anos, sem que ninguém saiba o lugar da sepultura (Dt 34:1-7). Josué, sobre quem Moisés impusera as mãos, assume a liderança (Dt 34:9).

"Nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, com quem o Senhor houvesse tratado face a face, no tocante a todos os sinais e maravilhas que, por mando do Senhor, fez na terra do Egito, a Faraó, a todos os seus oficiais e a toda a sua terra; e no tocante a todas as obras de sua poderosa mão e aos grandes e terríveis feitos que operou Moisés à vista de todo o Israel."

Dt 34:10-12

4. Contexto histórico e cultural

O Egito do relato é um Estado de grandes obras e trabalho forçado. Êxodo 1:11 diz que os israelitas construíram para Faraó as cidades-celeiros de Pitom e Ramessés, e 1:14 descreve a servidão "em barro, e em tijolos". Um povo numeroso era, ao mesmo tempo, mão de obra e ameaça aos olhos do rei.

A data do Êxodo é debatida mesmo entre estudiosos que aceitam plenamente a autoridade da Escritura. A data antiga parte de 1Reis 6:1, que situa o Êxodo 480 anos antes do quarto ano de Salomão, o que leva ao século XV a.C. A data tardia associa o nome Ramessés de Êxodo 1:11 ao reinado de Ramessés II, no século XIII a.C., e lê os 480 anos de modo mais simbólico. Como exemplo da segunda posição, James Hoffmeier publicou no Journal of the Evangelical Theological Society (50/2, 2007) uma resposta ao estudioso Bryant Wood, que defende a data antiga. Cada lado apela à arqueologia, à cronologia egípcia e à leitura dos números bíblicos, e nenhum argumento é decisivo. Por isso este perfil não adota uma data.


5. Linha do tempo

Linha do tempo


6. O que a Escritura ensina por meio dele

Deus ouve, lembra e age. A libertação começa no clamor do povo e na memória da aliança (Êx 2:23-25). Quando Moisés protesta, Deus não promete que ele será capaz; promete estar com ele: "Eu serei contigo" (Êx 3:12). A força do chamado está em quem chama.

HebraicoÊx 3:14

אֶהְיֶה

ehyeh

'Eu sou' ou 'Eu serei', do verbo hayah, 'ser'; em Êx 3:14 compõe a expressão 'Eu Sou o Que Sou'

O Deus que se revela pelo nome. O verbo hebraico pode ser lido como "eu sou" ou "eu serei", e os intérpretes o entendem como afirmação da existência própria de Deus, como promessa de presença ("Eu serei contigo", Êx 3:12) ou como as duas coisas. O contexto aponta para um Deus que não depende de ninguém e que, ao mesmo tempo, se compromete com o seu povo.

Lei e graça. Moisés é o mediador da aliança do Sinai, e a Lei vem depois da libertação, não antes (Êx 20:2). O Novo Testamento resume: "a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo" (Jo 1:17), e a lei "nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé" (Gl 3:24).

A tradição reformada vê na aliança mosaica uma administração da única aliança da graça, em continuidade com a promessa feita a Abraão, e costuma atribuir à Lei um uso triplo: expor o pecado, restringir o mal e orientar a vida do povo redimido. A tradição luterana insiste na distinção entre Lei e Evangelho. No sermão "Como os cristãos devem considerar Moisés" (1525), Lutero afirma que a lei de Moisés obriga os cristãos apenas na medida em que concorda com a lei natural, e que a Lei não produz justiça. Batistas e pentecostais ressaltam, de modo geral, a autoridade da Escritura inteira e o exemplo de fé e obediência de Moisés. Todas essas tradições concordam no essencial: a Lei é santa e boa, mas não justifica ninguém, e a justificação é pela fé em Cristo.

Intercessão e mansidão. Moisés intercede pelo povo mesmo depois do bezerro de ouro (Êx 32:11, 31-32). Números 12:3 diz que ele "era mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra", e o Senhor o chama de "fiel em toda a minha casa" (Nm 12:7). O mesmo homem que intercede também perde a paciência (Êx 32:19; Nm 20:10). A Escritura não o idealiza.

O Espírito e o dom profético. Em Números 11, o Senhor tira do Espírito que estava sobre Moisés e o põe sobre setenta anciãos, que profetizam (Nm 11:25). Quando alguém se escandaliza com dois homens que profetizam no acampamento, Moisés responde: "Tens tu ciúmes por mim? Tomara todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor lhes desse o seu Espírito!" (Nm 11:29). As Assembleias de Deus citam esse versículo em sua posição oficial sobre o batismo no Espírito Santo, como antecipação do que viria sobre todo o povo de Deus; outras tradições também o associam ao Pentecostes, sem daí tirar as mesmas conclusões sobre os dons.

A fé de Moisés. Hebreus 11 retoma as decisões de Moisés como atos de fé. Spurgeon, no sermão "Moses: His Faith and Decision" (24 de junho de 1888), tomou justamente esse texto como base.

"Pela fé, Moisés, quando já homem feito, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado; porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão."

Hb 11:24-26

7. Cristo e o personagem

O Novo Testamento liga Moisés a Jesus em continuidade e em contraste. Em Deuteronômio 18:15, Moisés anuncia: "O Senhor, teu Deus, te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás". A tradição cristã lê essa promessa como cumprida em Cristo, e o próprio Novo Testamento trata Moisés como testemunha de Jesus: "se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito" (Jo 5:46). Filipe diz a Natanael: "Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei" (Jo 1:45).

Um devocional da Ligonier Ministries, publicado na revista Tabletalk em 2018, resume a leitura reformada: só Jesus é profeta como Moisés no sentido de profeta-mediador de uma aliança, e ele mediou uma aliança superior, com expiação real. Hebreus 3:5-6 compara os dois: Moisés foi fiel "como servo", e Cristo, "como Filho".

Outros paralelos têm graus diferentes de apoio no texto bíblico:

  • Páscoa. O cordeiro cujo sangue protege os primogênitos (Êx 12) é associado a Cristo em João 1:29 e 1Coríntios 5:7, leitura difundida em todas as tradições.
  • Serpente de bronze. Jesus a usa como figura da própria elevação: "do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado" (Jo 3:14; ver Nm 21:8-9). Aqui o Novo Testamento estabelece o paralelo.
  • A rocha. Paulo diz que Israel bebeu de "uma pedra espiritual que os seguia" e que "a pedra era Cristo" (1Co 10:4). Ligar esse texto à rocha de Números 20 é inferência dos intérpretes, e não algo que o Novo Testamento declare.

O contraste também é teológico. Paulo fala do ministério "gravado com letras em pedras" (2Co 3:7) cuja glória se desvanece diante do ministério do Espírito. Isso não desmerece Moisés: a glória da antiga aliança aponta para uma maior. Em Apocalipse 15:3, os redimidos entoam "o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro".


8. Pontos em debate

ℹOnde as tradições divergem

O pecado de Moisés na rocha (Nm 20). Deus havia mandado falar à rocha (Nm 20:8), e Moisés a feriu duas vezes depois de chamar o povo de "rebeldes". O texto diz que Moisés e Arão "não crestes em mim, para me santificardes" (Nm 20:12). Os intérpretes divergem sobre o centro do pecado: a desobediência literal, a raiva contra o povo, ou o tom de quem parece fazer sair a água por conta própria ("faremos sair água desta rocha?", Nm 20:10). Muitos leitores reformados e batistas combinam essas leituras e apontam a raiz na falta de confiança em Deus e de honra à sua santidade. Outros leitores veem no episódio a lição de que nem o maior servo da Lei conduz o povo à plena herança, o que aponta para um mediador maior. Este perfil não escolhe uma leitura única.

A Lei e o cristão. Reformados costumam distinguir lei moral (permanente), cerimonial (cumprida em Cristo) e civil (própria de Israel). Luteranos falam mais das funções da Lei (acusar e conduzir a Cristo). Batistas e pentecostais, em geral, mantêm os Dez Mandamentos como guia moral do cristão, com ênfases diversas. A posição reformada deste site é a continuidade da lei moral e o cumprimento em Cristo das leis cerimoniais, com respeito às demais leituras.


9. O que aprender hoje

Deus usa quem diz "envia outro". Moisés ofereceu objeção após objeção, e Deus respondeu com a promessa de sua presença. A missão não se sustenta na competência de quem é chamado (Êx 3:11-12; 4:10-13).

Identificar-se com o povo de Deus tem custo e valor. Hebreus 11:24-26 mostra uma fé que escolhe o lado do povo de Deus quando o outro lado oferece conforto. Moisés "contemplava o galardão".

Intercessão é parte da liderança. O líder que sobe ao monte para receber a Lei também desce para pedir perdão pelo pecado do povo (Êx 32:31-32). Quem serve a uma comunidade ora por ela, inclusive quando está irado com ela.

Mansidão não é fraqueza, e liderança não é isenção. O mais manso dos homens (Nm 12:3) perdeu a calma na rocha e pagou um preço alto (Nm 20:12). A obediência de ontem não garante a de hoje.

A Lei foi dada a um povo já salvo. O Decálogo começa lembrando a libertação (Êx 20:2). A obediência cristã nasce da graça recebida e não é o preço para obtê-la.


10. Leituras Recomendadas

  • Calvino, João. Commentaries on the Four Last Books of Moses Arranged in the Form of a Harmony. Disponível em inglês em ccel.org.
  • Lutero, Martinho. "How Christians Should Regard Moses" (1525). Em Luther's Works, vol. 35: Word and Sacrament I. Fortress Press, 1960.
  • Spurgeon, Charles H. "Moses: His Faith and Decision" (Hb 11:24-26), 24 de junho de 1888. Metropolitan Tabernacle Pulpit, vol. 34. spurgeon.org.
  • Ligonier Ministries. "Jesus the Prophet" (devocional da Tabletalk, 2 de fevereiro de 2018). learn.ligonier.org/devotionals/jesus-the-prophet.
  • Assemblies of God. "Baptism in the Holy Spirit" (posição oficial). ag.org/Beliefs/Position-Papers/Baptism-in-the-Holy-Spirit.
  • Hoffmeier, James K. "What Is the Biblical Date for the Exodus? A Response to Bryant Wood." Journal of the Evangelical Theological Society 50/2 (2007): 225-247. etsjets.org.
  • Henry, Matthew. Comentário Bíblico, sobre Êxodo a Deuteronômio. Domínio público.