1. O Nome
O nome do irmão de Moisés é אַהֲרֹן (Aharon), em português Arão. A etimologia é incerta e debatida pelos estudiosos: propuseram-se origens hebraicas e também egípcias. O texto bíblico não explica o nome, e este perfil não se apoia em nenhuma das propostas.
אַהֲרֹן
Aharon
Nome do irmão de Moisés e primeiro sumo sacerdote; a origem do nome é incerta
Quando o Senhor se irrita com as objeções de Moisés, Arão é apresentado pelo título que o acompanha na vida: "Não é Arão, o levita, teu irmão?" (Êx 4:14). O nome vem unido à tribo de Levi desde a primeira aparição.
2. Ficha rápida
✦Ficha rápida
- Outras formas: em grego, Ἀαρών (Aarōn).
- Período: época do Êxodo e do deserto, tradicionalmente situada no século XV ou XIII a.C., conforme a cronologia adotada.
- Locais: Egito, monte Sinai, o deserto, Cades, monte Hor.
- Família: da tribo de Levi, irmão de Moisés e de Miriã; pai de Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar (Êx 28:1).
- Papel: porta-voz de Moisés, primeiro sumo sacerdote de Israel, ancestral do sacerdócio aarônico.
- Onde aparece: Êxodo 4 a 40, Levítico 8 a 10, Números 12 a 20; também em Salmo 133, Hebreus 5 a 9.
- Em uma frase: o irmão de Moisés escolhido por Deus para o sacerdócio, que falhou gravemente com o bezerro de ouro e ainda assim foi mantido no ofício.
3. Quem foi
Arão aparece pela primeira vez quando Moisés resiste ao chamado do Senhor, alegando falta de eloquência. A resposta de Deus inclui o irmão:
Êx 4:14-16"Então, se acendeu a ira do Senhor contra Moisés, e disse: Não é Arão, o levita, teu irmão? Eu sei que ele fala fluentemente; e eis que ele sai ao teu encontro e, vendo-te, se alegrará em seu coração. Tu, pois, lhe falarás e lhe porás na boca as palavras; eu serei com a tua boca e com a dele e vos ensinarei o que deveis fazer. Ele falará por ti ao povo; ele te será por boca, e tu lhe serás por Deus."
Arão acompanha Moisés diante de Faraó. Na batalha contra Amaleque, ele e Hur sustentam as mãos de Moisés, uma de cada lado, "assim lhe ficaram as mãos firmes até ao pôr do sol" (Êx 17:12). No Sinai, o Senhor ordena a Moisés: "Faze também vir para junto de ti Arão, teu irmão, e seus filhos com ele, dentre os filhos de Israel, para me oficiarem como sacerdotes" (Êx 28:1). As vestes sagradas são feitas "para glória e ornamento" (Êx 28:2).
O pior momento aparece logo em seguida, com Moisés ainda no monte. O povo, vendo que ele tardava, pede a Arão:
Êx 32:1-4"Mas, vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão e lhe disse: Levanta-te, faze-nos deuses que vão adiante de nós; pois, quanto a este Moisés, o homem que nos tirou do Egito, não sabemos o que lhe terá sucedido. Disse-lhes Arão: Tirai as argolas de ouro das orelhas de vossas mulheres, vossos filhos e vossas filhas e trazei-mas. Então, todo o povo tirou das orelhas as argolas e as trouxe a Arão. Este, recebendo-as das suas mãos, trabalhou o ouro com buril e fez dele um bezerro fundido."
Arão edifica um altar diante do bezerro e proclama: "Amanhã, será festa ao Senhor" (Êx 32:5). Quando Moisés o confronta, a defesa de Arão é reveladora: "tu sabes que o povo é propenso para o mal", e "eu o lancei no fogo, e saiu este bezerro" (Êx 32:22, 24). O texto não deixa passar a explicação, e Moisés a rejeita. Ainda assim, o sacerdócio de Arão é confirmado: ele é consagrado e começa a oficiar (Lv 8 e 9).
Logo depois, outro golpe: Nadabe e Abiú, filhos de Arão, "trouxeram fogo estranho perante a face do Senhor, o que lhes não ordenara". Saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu (Lv 10:1-2). Moisés diz a Arão o que o Senhor falou: "Mostrarei a minha santidade naqueles que se cheguem a mim e serei glorificado diante de todo o povo". E o texto conclui com uma frase seca: "Porém Arão se calou" (Lv 10:3).
Em Números 12, Arão e Miriã falam contra Moisés por causa da mulher cuxita que ele tomara, e perguntam: "Porventura, tem falado o Senhor somente por Moisés? Não tem falado também por nós?" (Nm 12:1-2). Miriã fica leprosa, e Arão, que escapa do castigo, reconhece o erro e intercede: "Ai! Senhor meu, não ponhas, te rogo, sobre nós este pecado, pois loucamente procedemos e pecamos" (Nm 12:11).
Quando a rebelião de Corá é julgada e a praga começa entre o povo, Moisés manda Arão correr com o incensário. O texto registra: "Pôs-se em pé entre os mortos e os vivos; e cessou a praga" (Nm 16:48). Em seguida, para encerrar as murmurações sobre quem pode ser sacerdote, o bordão de Arão floresce:
Nm 17:8"No dia seguinte, Moisés entrou na tenda do Testemunho, e eis que o bordão de Arão, pela casa de Levi, brotara, e, tendo inchado os gomos, produzira flores, e dava amêndoas."
O fim da vida de Arão é registrado em Números 20. Por causa da rebeldia em Meribá, o Senhor diz que ele "não entrará na terra que dei aos filhos de Israel" (Nm 20:24). No monte Hor, Moisés despe Arão das vestes e as veste em Eleazar, filho dele, e Arão morre ali. "Choraram por Arão trinta dias, isto é, toda a casa de Israel" (Nm 20:28-29).
4. Contexto histórico e cultural
O sacerdócio no antigo Israel era hereditário e restrito à família de Arão, da tribo de Levi (Êx 28:1). Os demais levitas serviam no tabernáculo em funções auxiliares. O sumo sacerdote usava vestes próprias, entre elas o peitoral e a estola sacerdotal, e entrava no lugar santíssimo uma vez por ano, no Dia da Expiação (Lv 16).
O bezerro de ouro se insere num ambiente em que imagens de animais eram comuns no culto das nações vizinhas. O texto narra que o povo disse: "São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito" (Êx 32:4), o que mostra uma tentativa de representar o Deus do Êxodo por meio de uma imagem. Os intérpretes discutem se o bezerro era visto como outro deus ou como um pedestal ou símbolo do Senhor, e este perfil não decide a questão. O que o texto afirma é que o ato violou o mandamento e que Arão o conduziu.
A importância do sacerdócio aparece também na maneira como Números 16 e 17 tratam a rebelião: a escolha de Arão não era uma questão de simpatia, e sim uma designação de Deus confirmada pelo sinal do bordão.
5. Linha do tempo
Linha do tempo
6. O que a Escritura ensina por meio dele
O sacerdócio é chamado de Deus, não direito pessoal. A carta aos Hebreus resume: "Ninguém, pois, toma esta honra para si mesmo, senão quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão" (Hb 5:4). O bordão que floresceu confirmou publicamente essa escolha (Nm 17:8).
Quem lidera pode ceder à pressão. Arão estava na posição de quem poderia dizer não ao povo e disse sim. O texto não esconde a gravidade: ele fez o bezerro e proclamou uma festa "ao Senhor" diante dele (Êx 32:4-5). A explicação dada a Moisés, de que o povo era propenso ao mal, não elimina a responsabilidade do sacerdote.
O culto exige obediência ao que Deus ordenou. O fogo estranho de Nadabe e Abiú foi apresentado "o que lhes não ordenara" (Lv 10:1). Deus diz que mostrará sua santidade "naqueles que se cheguem a mim" (Lv 10:3).
O sacerdote intercede. Em Números 16, Arão para a praga entre os mortos e os vivos, e em Números 12 ele pede que o pecado não seja posto sobre eles. A função de mediar está presente em seus melhores momentos.
O que cada tradição destaca. A tradição reformada, na linha da carta aos Hebreus, lê o sacerdócio aarônico como sombra do sacerdócio de Cristo; as buscas feitas para este perfil não retornaram, porém, um texto específico de cada tradição sobre a figura de Arão, e por isso não lhes atribuo citações. O que as fontes consultadas permitem afirmar é que Hebreus 5:4 e os capítulos seguintes contrastam o sacerdócio de Arão com o de Cristo, o sumo sacerdote que oferece sacrifício único pelos pecados. Para as tradições luterana, batista e pentecostal, não encontrei fonte verificável sobre Arão como personagem. As quatro tradições, em geral, concordam em ler o episódio do bezerro como advertência contra a idolatria e em ver em Arão o primeiro sumo sacerdote cujo ofício é aperfeiçoado em Cristo.
7. Cristo e o personagem
O Novo Testamento usa Arão como ponto de comparação com Cristo. Hebreus 5:1-4 descreve o que todo sumo sacerdote é: alguém "tomado dentre os homens", constituído em favor deles, "capaz de condoer-se dos ignorantes e dos que erram, pois também ele mesmo está rodeado de fraquezas". E acrescenta que, por essa razão, "deve oferecer sacrifícios pelos pecados, tanto do povo como de si mesmo" (Hb 5:3). Arão se encaixa nesse retrato com todas as letras, inclusive na parte que menciona a própria fraqueza.
O versículo seguinte aplica a Cristo a mesma lógica da vocação: "Assim, também Cristo a si mesmo não se glorificou para se tornar sumo sacerdote, mas o glorificou aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei" (Hb 5:5). O que Arão tinha em comum com Cristo é o chamado de Deus, e o que o distingue é que Arão precisava oferecer por si mesmo.
A cena de Números 16:48, com o sacerdote em pé entre os mortos e os vivos, é lida por muitos intérpretes como retrato antecipado da intercessão de Cristo. Essa é uma leitura tipológica, e este perfil a apresenta como tal. O que o texto afirma é que a praga cessou depois da expiação feita por Arão.
8. Pontos em debate
ℹOnde os intérpretes divergem
A natureza do bezerro. Os intérpretes divergem sobre se o bezerro representava outro deus ou o próprio Senhor em forma proibida. O texto de Êxodo 32 mistura as duas coisas: o povo diz que o bezerro é o deus que os tirou do Egito (Êx 32:4), e Arão anuncia uma festa "ao Senhor" (Êx 32:5). Este perfil não decide.
A responsabilidade de Arão. Arão atribui o ato ao povo e diz que o bezerro "saiu" do fogo (Êx 32:22-24). Alguns comentaristas veem aí covardia, outros veem uma tentativa de minimizar. O texto relata a explicação e não a aprova.
Por que Arão continuou sumo sacerdote. O texto não explica por que ele não foi castigado como outros. Os intérpretes oferecem hipóteses, como a intercessão de Moisés ou a graça de Deus, e o texto não decide.
Arão como tipo de Cristo. Hebreus 5 a 9 compara os dois sacerdócios. Quanto a transformar cada detalhe da vida de Arão em tipo de Cristo, os intérpretes divergem, e este perfil limita-se ao que Hebreus afirma.
9. O que aprender hoje
Servir a Deus não depende de ser eloquente. Arão foi a boca de Moisés, e Moisés foi o Deus de Arão diante do povo (Êx 4:16). O Senhor une dons diferentes para a mesma obra.
Quem está à frente não pode deixar o povo decidir o que é culto. A pressão da maioria não justifica uma imagem. Cabe a quem lidera dizer não.
Reconheça o pecado sem justificativas. Arão disse que o povo era propenso ao mal, e tinha razão sobre o povo, mas a pergunta de Moisés era sobre ele. Em Números 12:11, quando erra de novo, ele aprende a dizer: "pecamos".
Respeite a forma que Deus pediu. O fogo estranho mostra que a sinceridade não substitui a obediência. Aproximar-se de Deus tem seriedade.
Fique de pé onde há perigo. Em Números 16, Arão corre para o meio da praga. Intercessão custa algo, e muitas vezes é dita em silêncio, como em Levítico 10:3.
10. Leituras Recomendadas
- Calvino, João. Commentaries on the Four Last Books of Moses Arranged in the Form of a Harmony. Domínio público, disponível em ccel.org.
- Lutero, Martinho. Lectures on Hebrews (1517-1518). Em Luther's Works, vol. 29. Concordia Publishing House.
- Alexander, T. Desmond e Baker, David W. (eds.). Dictionary of the Old Testament: Pentateuch, verbete "Aaron". IVP, 2003.
- Wenham, Gordon J. Leviticus. New International Commentary on the Old Testament. Eerdmans, 1979.
- Hebreus 4:14 a 7:28, para o contraste com o sacerdócio de Cristo.