O Sermão

Personagem

Melquisedeque

Rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo que abençoou Abraão com pão e vinho, citado no Salmo 110 e longamente em Hebreus. Quem foi Melquisedeque, e por que o Novo Testamento vê nele uma sombra do sacerdócio de Cristo?

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1. O Nome

O nome מַלְכִּי־צֶדֶק (Malki-Tsedeq), Melquisedeque, é composto por melek, "rei", e tsedeq, "justiça": "meu rei é justiça" ou "rei de justiça". A carta aos Hebreus faz exatamente essa leitura: seu nome significa rei de justiça, e ele é também rei de Salém, isto é, rei de paz (Hb 7:2). Os estudiosos discutem se o nome original significava "meu rei é Zedeque", nome de uma divindade, mas Hebreus segue a leitura "rei de justiça".

HebraicoGn 14:18

מַלְכִּי־צֶדֶק

Malki-Tsedeq

'Rei de justiça' ou 'meu rei é justiça'; de melek ('rei') e tsedeq ('justiça'). Hebreus 7:2 explica o nome nesse sentido

Salém é geralmente identificada com Jerusalém, e o Salmo 76:2 usa "Salém" como nome poético da cidade. A identificação reforça a ligação entre Melquisedeque e a linhagem real de Davi, que reinou em Jerusalém.


2. Ficha rápida

✦Ficha rápida

  • Outras formas: em grego, Μελχισέδεκ (Melchisedek), como em Hebreus 5:6.
  • Período: época de Abraão, tradicionalmente no início do segundo milênio a.C.
  • Locais: Salém (geralmente identificada com Jerusalém); vale de Savé (Gn 14:17).
  • Família: o texto bíblico não registra (Hb 7:3 comenta esse silêncio).
  • Papel: rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo; abençoou Abraão e recebeu dele o dízimo.
  • Onde aparece: Gênesis 14:17-20; Salmo 110:4; Hebreus 5 a 7.
  • Em uma frase: o rei-sacerdote misterioso que abençoou Abraão e que Hebreus apresenta como figura do sacerdócio eterno de Cristo.

3. Quem foi

Melquisedeque aparece em três versículos de Gênesis 14. Depois que Abrão derrota os reis que haviam capturado Ló, o rei de Sodoma vai ao seu encontro. Então:

"era sacerdote do Deus Altíssimo"

Gn 14:18

O texto diz que Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho e era sacerdote do Deus Altíssimo (Gn 14:18). Ele abençoa Abrão com as palavras: "Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo" (Gn 14:19), e acrescenta: "que entregou os teus adversários nas tuas mãos" (Gn 14:20). Abrão lhe dá o dízimo de tudo (Gn 14:20, em resumo). Em seguida, Abrão responde ao rei de Sodoma: "Levanto a mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o que possui os céus e a terra" (Gn 14:22). Abrão identifica o Deus Altíssimo de Melquisedeque com o Senhor.

Depois desse episódio, Melquisedeque some do Gênesis. Reaparece séculos depois, no Salmo 110, atribuído a Davi. Nele, o Senhor diz ao rei: "Assenta-te à minha direita" (Sl 110:1) e jura: "Tu és sacerdote para sempre" (Sl 110:4), segundo a ordem de Melquisedeque. Esse versículo une os ofícios de rei e de sacerdote numa mesma figura, o que a Lei de Moisés separava.

O Novo Testamento desenvolve o tema na carta aos Hebreus. O autor cita o Salmo 110 e afirma que Cristo é "sumo sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque" (Hb 6:20). Em Hebreus 7, apresenta o argumento. Melquisedeque era "rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo", a quem "Abraão separou o dízimo de tudo" (Hb 7:1-2). E descreve-o com uma fórmula famosa:

"sem pai, sem mãe, sem genealogia; que não teve princípio de dias, nem fim de existência"

Hb 7:3

A frase apresenta Melquisedeque como figura de Cristo pelo silêncio do texto de Gênesis, que não menciona genealogia, nascimento ou morte. O autor argumenta que isso o torna semelhante ao Filho de Deus e que o sacerdócio dele é permanente. Mais adiante, vê em Cristo um sacerdote "constituído não conforme a lei de mandamento carnal, mas segundo o poder de vida indissolúvel" (Hb 7:16). A conclusão: "este, no entanto, porque continua para sempre, tem o seu sacerdócio imutável" (Hb 7:24), e "pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles" (Hb 7:25).


4. Contexto histórico e cultural

O contexto de Gênesis 14 é o de uma coalizão de reis que atacam Sodoma e levam Ló. Abrão intervém com seus homens e recupera os cativos. O encontro com Melquisedeque ocorre depois da vitória, no vale de Savé, também chamado vale do Rei. A narrativa apresenta o rei-sacerdote como alguém que adora o mesmo Deus que Abrão, ainda que fora da família de Abrão.

A figura de rei-sacerdote era comum no antigo Oriente Próximo, em que os reis exerciam funções religiosas. Em Israel, a Lei separou os ofícios: os reis vinham de Judá e os sacerdotes de Levi. Casos como o de Uzias, que tentou oferecer incenso, foram punidos (2Cr 26:16-21). Por isso a figura de Melquisedeque, que reúne os dois ofícios, chamou a atenção dos intérpretes.

O Salmo 110 é o texto do Antigo Testamento mais citado no Novo, tanto em relação ao "assenta-te à minha direita" quanto ao sacerdócio. Jesus o cita para perguntar como o Cristo pode ser filho de Davi e, ao mesmo tempo, seu Senhor (Mt 22:41-45). Hebreus aplica o versículo 4 ao sacerdócio de Cristo. O uso mostra que a igreja primitiva leu o salmo como messiânico.

A forma como Hebreus usa Melquisedeque é um exemplo de leitura cuidadosa do texto de Gênesis. O autor observa três coisas. Primeiro, que Melquisedeque abençoou Abraão, e que o menor é abençoado pelo maior (Hb 7:7, em resumo). Segundo, que Abraão lhe deu o dízimo, o que implica reconhecimento de superioridade. Terceiro, que Gênesis não registra seu nascimento, sua genealogia nem sua morte, o que torna a figura, no texto, semelhante a alguém que permanece sacerdote para sempre. A argumentação parte do que o texto diz e do que silencia.

O autor extrai daí uma consequência surpreendente: se Levi, em Abraão, pagou dízimo a Melquisedeque, o sacerdócio levítico é de algum modo inferior (Hb 7:9-10, em resumo). Daí conclui que, se a perfeição tivesse vindo pelo sacerdócio levítico, não haveria necessidade de outro sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque (Hb 7:11, em resumo). O Salmo 110:4, escrito séculos depois de Abraão, é a prova de que Deus anunciou outro sacerdócio. A mudança de sacerdócio implica, para Hebreus, mudança de lei (Hb 7:12, em resumo).

Há também um pano de fundo nas tradições judaicas. Textos de Qumran apresentam Melquisedeque como figura celestial de libertação, e a tradição rabínica discutiu a identidade dele, chegando a identificá-lo com Sem, filho de Noé. Os estudiosos discutem se Hebreus dialoga com essas tradições. O texto de Hebreus, no entanto, fundamenta o argumento na Escritura, e não nessas tradições.

Por fim, a menção do nome em duas línguas, "rei de justiça" e "rei de paz" (Hb 7:2), conecta Melquisedeque a temas messiânicos. Em Isaías 9:6, o filho dado é chamado de Príncipe da Paz, e em Jeremias 23:5-6 o Renovo é chamado "O Senhor, Justiça Nossa" (em resumo). A tradição cristã viu nesses vínculos uma confirmação de que o rei-sacerdote de Gênesis 14 apontava para Cristo.


5. Linha do tempo

Linha do tempo


6. O que a Escritura ensina por meio dele

Deus tem servos fora do círculo que conhecemos. Melquisedeque é sacerdote do Deus Altíssimo e não pertence à família de Abrão. O texto reconhece sua legitimidade, e Abrão o honra.

Bênção e dízimo reconhecem a primazia. Hebreus argumenta que quem abençoa é maior do que quem é abençoado (Hb 7:7, em resumo), e que Abrão, ao dar o dízimo, reconheceu essa superioridade.

O sacerdócio pode ser mais do que a Lei previa. O Salmo 110:4 anuncia um sacerdócio de outra ordem. A promessa de que haveria outro sacerdote mostra que o sistema levítico não era definitivo (Hb 7:11, em resumo).

O silêncio do texto é significativo. Hebreus lê o fato de o Gênesis não registrar genealogia, nascimento ou morte como um sinal tipológico. O método é o de ler a Escritura também pelo que ela não diz.

A salvação depende de um intercessor vivo. "Pode salvar totalmente... vivendo sempre para interceder por eles" (Hb 7:25) resume a esperança que o argumento sustenta.

O que cada tradição destaca. As buscas feitas para esta rodada não retornaram fonte verificável das quatro tradições (reformada, batista, luterana e pentecostal) sobre Melquisedeque como personagem, e por isso este perfil não lhes atribui posições. As leituras cristãs convergem em ver Hebreus 7 como a chave interpretativa. A divergência principal, sobre a identidade de Melquisedeque, está na seção 8.


7. Cristo e o personagem

Para Hebreus, Melquisedeque é feito semelhante ao Filho de Deus (Hb 7:3), e a semelhança está no sacerdócio permanente. Cristo é sumo sacerdote "segundo a ordem de Melquisedeque" (Hb 5:6, 10; 6:20), isto é, não da linhagem levítica, mas de um sacerdócio fundado no "poder de vida indissolúvel" (Hb 7:16). O texto diz que esse sacerdócio é imutável, porque Cristo continua para sempre (Hb 7:24).

A carta descreve Cristo como "santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e feito mais alto do que os céus" (Hb 7:26). O contraste com os sumos sacerdotes levíticos é que eles precisavam oferecer sacrifícios por seus próprios pecados. Cristo se ofereceu uma vez (Hb 7:27, em resumo).

O pão e o vinho de Gênesis 14:18 foram lidos pela tradição cristã como prefigurando a Ceia do Senhor. Essa leitura é antiga, mas é uma extensão feita por intérpretes: Hebreus não menciona o pão e o vinho ao tratar de Melquisedeque. Este perfil apresenta a leitura como tal.


8. Pontos em debate

ℹOnde os intérpretes divergem

Quem era Melquisedeque. As principais leituras são: um rei histórico cananeu que adorava o Deus Altíssimo e que serve de tipo de Cristo; uma manifestação do Filho de Deus antes da encarnação (uma "cristofania"); um ser angélico ou sobrenatural; ou uma figura literária. A leitura mais comum entre os intérpretes cristãos o vê como rei e sacerdote histórico que prefigura Cristo. Este perfil registra as posições, sem decidir.

O sentido de "sem pai, sem mãe, sem genealogia". Hebreus 7:3 pode ser lido como descrição literal (Melquisedeque não teve pais nem fim) ou como argumento tipológico a partir do silêncio do texto de Gênesis. A leitura tipológica é a mais comum. Este perfil registra a discussão.

A identidade de Salém. A tradição liga Salém a Jerusalém, mas há quem a localize em outro lugar (por exemplo, perto de Siquém). Este perfil adota a identificação mais comum.

O uso em Qumran. Um texto encontrado em Qumran apresenta Melquisedeque como figura celestial de libertação. Os estudiosos discutem a relação com Hebreus. Este perfil menciona o fato sem desenvolver.

O pão e o vinho. Se são figura da Ceia ou apenas hospitalidade. O texto de Gênesis não explica. Este perfil registra a leitura da tradição.


9. O que aprender hoje

Reconheça a obra de Deus fora do seu círculo. Abrão honrou Melquisedeque. A humildade para reconhecer quem Deus usa é uma virtude.

Dê graças a Deus pelas vitórias. Melquisedeque atribuiu a vitória de Abrão ao Deus Altíssimo, e Abrão confirmou.

Descanse no sacerdócio de Cristo. A carta aos Hebreus apresenta um intercessor que vive para sempre. Essa é a base da segurança de quem se achega a Deus (Hb 7:25).

Leia a Escritura inteira. O Gênesis, o Salmo 110 e Hebreus se iluminam mutuamente. Textos curtos podem ter ressonâncias longas.

Cuide para não ir além do que está escrito. O mistério de Melquisedeque convida à humildade interpretativa, sem inventar o que o texto não diz.


10. Leituras Recomendadas

  • Calvino, João. Commentary on the Epistle to the Hebrews. Domínio público, disponível em ccel.org.
  • Lutero, Martinho. Lectures on Titus, Philemon, and Hebrews. Em Luther's Works, vol. 29. Concordia Publishing House.
  • Lane, William L. Hebrews 1-8. Word Biblical Commentary, vol. 47A. Word, 1991.
  • Ellingworth, Paul. The Epistle to the Hebrews. New International Greek Testament Commentary. Eerdmans, 1993.
  • Wenham, Gordon J. Genesis 1-15. Word Biblical Commentary, vol. 1. Word, 1987.