O Sermão

Personagem

João, o apóstolo

Filho de Zebedeu, pescador, um dos Doze e o discípulo a quem Jesus amava, segundo a tradição. O que o Novo Testamento diz de João e do que se atribui a ele: o Evangelho, as cartas e o Apocalipse.

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1. O Nome

O nome João vem do hebraico יוֹחָנָן (Yochanan), forma abreviada de Yehochanan, que combina o nome de Deus, Yah, com o verbo chanan, "ser gracioso". O nome significa algo como "o Senhor é gracioso" ou "o Senhor mostrou graça". Em grego, aparece como Ἰωάννης (Iōannēs).

GregoMc 1:19

Ἰωάννης

Iōannēs

Forma grega de Yochanan, 'o Senhor é gracioso'; nome comum no século I

O nome era muito comum, e o Novo Testamento tem vários Joões: João Batista, João Marcos e o João do Apocalipse, entre outros. Este perfil trata do filho de Zebedeu, irmão de Tiago e um dos Doze (Mc 1:19; 3:17). Jesus deu aos dois irmãos o apelido de Boanerges, que Marcos traduz como "filhos do trovão" (Mc 3:17).


2. Ficha rápida

✦Ficha rápida

  • Outras formas: Yochanan (hebraico); em grego, Ἰωάννης (Iōannēs); "João Evangelista" na tradição da igreja.
  • Período: século I d.C. A tradição antiga o liga a Éfeso, onde teria vivido até idade avançada.
  • Locais: Betsaida e Cafarnaum (Galileia), Jerusalém, Samaria, Éfeso e Patmos, segundo a tradição e o Apocalipse.
  • Família: filho de Zebedeu e irmão de Tiago (Mc 1:19-20); sua mãe é identificada por muitos intérpretes com Salomé (Mc 15:40; Mt 27:56).
  • Papel: pescador, um dos Doze, parte do círculo mais próximo de Jesus (Pedro, Tiago e João); pilar da igreja de Jerusalém (Gl 2:9). A tradição lhe atribui o quarto Evangelho, as três cartas de João e o Apocalipse.
  • Onde aparece: Evangelhos sinóticos, Atos 1 a 8, Gálatas 2:9, e os escritos que a tradição lhe atribui.
  • Em uma frase: o pescador chamado para seguir Jesus, o "discípulo amado" segundo a tradição, e a quem se atribui o Evangelho que apresenta Jesus como o Verbo que se fez carne.

3. Quem foi

João aparece pela primeira vez nos sinóticos como pescador, no barco com seu pai Zebedeu e seu irmão Tiago, quando Jesus os chama e eles o seguem (Mc 1:19-20). Nas listas dos Doze, e em ocasiões decisivas, João está junto com Pedro e Tiago: na casa de Jairo, na transfiguração e no Getsêmani (Mc 5:37; 9:2; 14:33).

Os Evangelhos não escondem os defeitos do grupo. Em Marcos 10, Tiago e João pedem a Jesus um lugar de honra no reino:

"Permite-nos que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda. Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu bebo ou receber o batismo com que eu sou batizado?"

Mc 10:37-38

Eles respondem que podem, e Jesus afirma que beberão o cálice, mas que não lhe compete conceder os lugares (Mc 10:39-40). Os outros dez se indignam. Jesus então ensina: "quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos. Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Mc 10:43-45). Em outra ocasião, os irmãos queriam que descesse fogo do céu sobre uma aldeia samaritana, e Jesus os repreendeu (Lc 9:54-55).

O quarto Evangelho fala de um "discípulo amado" que esteve junto à cruz. Ali, Jesus, vendo sua mãe e junto a ela o discípulo, diz: "Mulher, eis aí teu filho", e ao discípulo: "Eis aí tua mãe" (Jo 19:26-27). A tradição da igreja identifica esse discípulo com João, filho de Zebedeu, embora o Evangelho não o diga pelo nome. No dia da ressurreição, o discípulo amado e Pedro correm ao sepulcro. O texto registra:

"Então, entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, e viu, e creu. Pois ainda não tinham compreendido a Escritura, que era necessário ressuscitar ele dentre os mortos."

Jo 20:8-9

Em Atos, João está ao lado de Pedro na cura do coxo à porta do Templo (At 3:1-10), diante do Sinédrio (At 4:13, 19-20) e em Samaria, onde os dois vão orar pelos novos crentes para que recebam o Espírito Santo (At 8:14-17). Paulo, em Gálatas 2:9, o inclui entre os que eram tidos como colunas da igreja de Jerusalém, junto com Tiago e Cefas.

O Apocalipse se apresenta como revelação dada ao "seu servo João" (Ap 1:1) e situa o autor em Patmos:

"Eu, João, irmão vosso e companheiro na tribulação, no reino e na perseverança, em Jesus, achei-me na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus."

Ap 1:9

O livro descreve a visão do Cristo glorificado entre os candeeiros. João cai a seus pés "como morto", e ele lhe diz: "Não temas; eu sou o primeiro e o último e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno" (Ap 1:17-18).

O Evangelho de João tem um propósito declarado: os sinais foram registrados "para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome" (Jo 20:31). As cartas de João tratam do amor e da verdade. Em 1João 4:8, o autor afirma que "Deus é amor", e em 4:19 resume: "Nós amamos porque ele nos amou primeiro".


4. Contexto histórico e cultural

João era pescador da Galileia, de uma família com certa condição, pois o pai tinha empregados no barco (Mc 1:20). Os Evangelhos o mostram como parte do círculo mais íntimo de Jesus, e Atos 4:13 observa que ele e Pedro, diante do Sinédrio, eram vistos como homens sem instrução formal, mas que tinham estado com Jesus.

A igreja nascente em Jerusalém era liderada por Pedro, Tiago e João, e as primeiras viagens missionárias de João foram em Samaria (At 8:14-25). A tradição cristã antiga o localiza em Éfeso, na Ásia Menor, nas últimas décadas do século I. Essa informação vem de escritores cristãos antigos, e não do Novo Testamento. O Apocalipse, dirigido a sete igrejas da Ásia (Ap 1:11), é coerente com um autor ligado a essa região.

O mundo dos escritos de João é o do final do século I, quando a igreja enfrentava a pressão do Império Romano, a ruptura com as sinagogas e questões doutrinárias sobre a pessoa de Cristo. As cartas enfatizam a confissão de que Jesus veio em carne e a necessidade de amar os irmãos.


5. Linha do tempo

Linha do tempo


6. O que a Escritura ensina por meio dele

Cristo é o Verbo que se fez carne. O Evangelho que a tradição liga a João começa com a declaração mais alta sobre Jesus: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (Jo 1:1). E mais adiante: "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai" (Jo 1:14). Deus e homem estão na mesma frase.

GregoJo 1:1

λόγος

logos

'Palavra' ou 'Verbo'; em João 1, designa o Filho que estava com Deus, era Deus e se fez carne

O amor de Deus precede o nosso. A primeira carta de João diz que o amor se manifestou em Deus ter enviado o seu Filho unigênito (1Jo 4:9), e que "nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados" (1Jo 4:10). A consequência é prática: "se Deus de tal maneira nos amou, devemos nós também amar uns aos outros" (1Jo 4:11).

Grandeza é serviço. Os filhos de Zebedeu pediram prestígio e ouviram, de Jesus, que a grandeza no reino se mede pelo serviço (Mc 10:43-45). O João das cartas, que escreve sobre o amor aos irmãos, é o mesmo que um dia pediu o melhor lugar.

A fé é testemunho. O quarto Evangelho tem um alvo declarado: que o leitor creia e tenha vida (Jo 20:31). O Apocalipse, por sua vez, é dirigido a igrejas sob pressão e promete bem-aventurança a "aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas" (Ap 1:3).

O que cada tradição destaca. Não encontrei, para este perfil, fontes verificáveis das quatro tradições (reformada, batista, luterana, pentecostal) sobre João como personagem, e por isso não atribuo a cada uma uma posição própria. O que as buscas feitas confirmam é a posição tradicional, partilhada por católicos, ortodoxos e muitos protestantes, de que o apóstolo João escreveu o quarto Evangelho e o Apocalipse, e a discussão moderna sobre isso, que está descrita na seção seguinte. Em todas as tradições, o Evangelho de João e as cartas são lidos como textos centrais sobre a divindade de Cristo e o amor cristão.


7. Cristo e o personagem

João é, nos Evangelhos, alguém que viu: "vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai" (Jo 1:14). O testemunho ocular é um tema central dos escritos joaninos. O Apocalipse apresenta o Cristo glorificado, que se identifica como "o primeiro e o último e aquele que vive" e que tem as chaves da morte e do inferno (Ap 1:17-18). O autor do Apocalipse, que a tradição identifica com o discípulo que esteve tão perto de Jesus, cai a seus pés "como morto" na visão de Patmos (Ap 1:17).

Na cruz, o texto mostra Jesus cuidando da mãe e a entregando ao discípulo amado (Jo 19:26-27). Aquele que foi chamado "filho do trovão" é o que recebe, na hora da morte do Senhor, a tarefa de acolher e proteger.

João também é testemunha do sepulcro vazio. O texto diz que ele "viu, e creu" (Jo 20:8), e, ao mesmo tempo, admite que eles "ainda não tinham compreendido a Escritura" (Jo 20:9). A fé nasce do que foi visto, e a compreensão completa vem depois.


8. Pontos em debate

ℹOnde os intérpretes divergem

A identidade do "discípulo amado". O quarto Evangelho nunca nomeia esse discípulo. A tradição antiga o identifica com João, filho de Zebedeu, e muitos estudiosos concordam. Outros propõem figuras diferentes. Este perfil usa a identificação tradicional como tradição, sem a afirmar como dado do texto.

A autoria do Evangelho e do Apocalipse. A tradição, desde escritores cristãos do século II, atribui ao apóstolo João o Evangelho, as cartas e o Apocalipse. A discussão moderna observa diferenças de vocabulário, estilo e ênfase entre o Apocalipse e o Evangelho, e já no século III Dionísio de Alexandria notava que o grego do Apocalipse é de qualidade diferente. Parte dos estudiosos entende que se trata do mesmo autor, outros de autores da mesma comunidade ou de autores distintos. Este perfil registra o debate e não o resolve.

A vida posterior de João. Sua estadia em Éfeso e sua longevidade vêm da tradição antiga, e o Novo Testamento não as narra. O relato do Apocalipse situa o autor em Patmos "por causa da palavra de Deus", sem informar a data nem a duração.

A interpretação do Apocalipse. As leituras históricas, preteristas, futuristas e idealistas divergem sobre como entender as visões do livro. A escolha entre elas ultrapassa este perfil, e ele se limita aos textos que dizem respeito diretamente ao autor.


9. O que aprender hoje

Quem já pediu o primeiro lugar pode aprender a servir. João e Tiago pediram honra e foram corrigidos (Mc 10:35-45). O mesmo João escreveu depois sobre o amor ao irmão como prova da fé.

Fique perto de Jesus quando for difícil. O discípulo amado está junto à cruz (Jo 19:26). A presença, mesmo sem palavras, é uma forma de fidelidade.

Escreva o que viu. O quarto Evangelho nasce do desejo de que outros creiam (Jo 20:31). Testemunhar é contar o que se viu e ouviu.

Ame porque foi amado. O amor cristão é resposta: "Nós amamos porque ele nos amou primeiro" (1Jo 4:19). Não é esforço para ganhar o amor de Deus.

Persevere na tribulação. O autor do Apocalipse se apresenta como "companheiro na tribulação, no reino e na perseverança" (Ap 1:9). Esses três estão juntos na vida do discípulo.


10. Leituras Recomendadas

  • Calvino, João. Commentary on the Gospel According to John e Commentary on the First Epistle of John. Domínio público, disponível em ccel.org.
  • Lutero, Martinho. Sermons on the Gospel of St. John. Em Luther's Works, vols. 22 a 24. Concordia Publishing House.
  • Morris, Leon. The Gospel According to John. New International Commentary on the New Testament. Eerdmans, 1995.
  • Bauckham, Richard. Jesus and the Eyewitnesses. Eerdmans, 2006 (sobre o discípulo amado e o testemunho ocular).
  • Beale, G. K. The Book of Revelation. New International Greek Testament Commentary. Eerdmans, 1999.