1. O Nome
O nome יְשַׁעְיָהוּ (Yesha'yahu), Isaías, é formado com a raiz de "salvar" e o nome divino: "o Senhor salva" ou "salvação do Senhor". É o mesmo campo de sentido de Josué, Oseias e Jesus. Num livro que fala tanto de salvação, o nome do profeta já anuncia o tema.
יְשַׁעְיָהוּ
Yesha'yahu
'O Senhor salva' ou 'salvação do Senhor'; nome formado com a raiz de 'salvar' e o nome divino
O livro o apresenta como "Isaías, filho de Amoz", que recebeu visões sobre Judá e Jerusalém "nos dias de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias" (Is 1:1). Os filhos dele também têm nomes proféticos: Sear-Jasube, "um remanescente voltará" (Is 7:3), e Maer-Salal-Hás-Baz (Is 8:3). Os nomes de família eram parte da mensagem.
2. Ficha rápida
✦Ficha rápida
- Outras formas: em grego, Ἠσαΐας (Ēsaias), como em Mateus 3:3.
- Período: segunda metade do século VIII a.C. e início do VII, nos reinados de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias (Is 1:1).
- Locais: Jerusalém.
- Família: filho de Amoz; casado com uma profetisa (Is 8:3); pai de Sear-Jasube e de Maer-Salal-Hás-Baz.
- Papel: profeta de Judá, conselheiro de reis, autor, segundo a tradição, do livro que leva seu nome.
- Onde aparece: livro de Isaías; 2Reis 19 e 20; 2Crônicas 26 e 32; no Novo Testamento é um dos profetas mais citados.
- Em uma frase: o profeta que viu o Senhor santo e anunciou o Emanuel, o Servo sofredor e o consolo de Deus.
3. Quem foi
A experiência fundadora de Isaías é o chamado, no ano da morte do rei Uzias. O profeta relata o que viu:
Is 6:1"eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo"
Serafins proclamam: "Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória" (Is 6:3). A reação de Isaías é de ruína: "sou homem de lábios impuros" (Is 6:5). Um serafim toca seus lábios com uma brasa tirada do altar, e o pecado é expiado. Então a voz do Senhor pergunta: "A quem enviarei, e quem há de ir por nós?" (Is 6:8). Isaías responde: "Eis-me aqui, envia-me a mim", e recebe uma missão difícil: falar a um povo que não entenderia, até que a terra ficasse desolada, restando um toco que guarda uma semente santa (Is 6:9-13).
Nos capítulos seguintes, Isaías confronta o rei Acaz, ameaçado pela aliança entre a Síria e Israel. O profeta lhe oferece um sinal, e Acaz recusa. Então o Senhor dá o sinal por conta própria:
Is 7:14"eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel"
Em Isaías 9, o profeta anuncia luz sobre a Galileia: "O povo que andava em trevas viu grande luz" (Is 9:2), e acrescenta: "Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu" (Is 9:6). O capítulo 11 fala do renovo do tronco de Jessé, e o 2 anuncia que as nações transformarão espadas em arados.
O profeta confronta a falsa religião: o capítulo 1 rejeita sacrifícios sem justiça e convida o povo a arrazoar com o Senhor, que promete limpar pecados como a escarlata (Is 1:11-18). Ele também aconselha o rei Ezequias durante o cerco de Senaqueribe, e o relato aparece em Isaías 36 a 39 e em 2Reis 18 a 20, que o perfil de Ezequias já tratou.
A segunda parte do livro começa com um tom de consolo:
Is 40:1"Consolai, consolai o meu povo"
O capítulo anuncia uma voz que clama: "Preparai o caminho do Senhor" (Is 40:3), declara que "a palavra de nosso Deus permanece eternamente" (Is 40:8) e promete que "os que esperam no Senhor renovam as suas forças" (Is 40:31). A seção inclui os poemas do Servo do Senhor, entre os quais o mais famoso é o capítulo 53:
Is 53:5"Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades"
O mesmo capítulo diz que o Servo "era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer" (Is 53:3), que "tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si" (Is 53:4) e que "o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos" (Is 53:6). O livro termina com a promessa de novos céus e nova terra (Is 65 e 66). A Bíblia não narra a morte de Isaías.
4. Contexto histórico e cultural
Isaías atua num período de crise internacional. A Assíria cresce, o reino do norte cai (722 a.C.), e Judá é pressionado a escolher entre confiar no Senhor ou buscar alianças políticas. O encontro com Acaz (Is 7) é um exemplo: o rei prefere pedir ajuda à Assíria, e o profeta lhe pede que confie.
O livro tem uma estrutura em três grandes partes que a crítica costuma indicar: capítulos 1 a 39, ambientados no século VIII; 40 a 55, dirigidos a exilados, com menção a Ciro (Is 44:28; 45:1); e 56 a 66, com perspectiva pós-exílica. A leitura tradicional atribui tudo ao profeta do século VIII; muitos estudiosos propõem mais de um autor. Esse debate está na seção 8.
Isaías é citado no Novo Testamento com mais frequência do que qualquer outro profeta. Mateus liga Isaías 40:3 a João Batista (Mt 3:3), e Lucas mostra Jesus lendo Isaías 61 na sinagoga de Nazaré (Lc 4:17-19). Em Atos 8, o eunuco etíope lê o capítulo 53, e Filipe lhe anuncia Jesus a partir dali (At 8:32-35).
5. Linha do tempo
Linha do tempo
6. O que a Escritura ensina por meio dele
O ponto de partida é a santidade de Deus. O livro começa a missão do profeta com a cena do trono. Antes de qualquer mensagem, Isaías aprende quem é Deus e quem é ele: "sou homem de lábios impuros" (Is 6:5).
O perdão precede o envio. A brasa no lábio vem antes da pergunta "A quem enviarei?" (Is 6:6-8). O chamado vem para quem já foi purificado, e a purificação é obra de Deus.
Fé em lugar de alianças. Diante de Acaz, o profeta pede confiança no Senhor, em vez de proteção política (Is 7). O tema se repete ao longo do livro.
Deus consola. A segunda parte abre com a ordem "Consolai, consolai o meu povo" (Is 40:1) e a promessa de que a palavra de Deus permanece (Is 40:8). Em tempos de exílio, a esperança vem da palavra que não passa.
O sofrimento do justo tem sentido. O Servo "foi traspassado pelas nossas transgressões" (Is 53:5). O texto liga o sofrimento de um a favor de muitos.
O que cada tradição destaca. A tradição reformada, em devocionais da Ligonier Ministries sobre Isaías 6 (25 de fevereiro de 2013 e 28 de fevereiro de 2014), usa a cena para tratar da santidade de Deus: Isaías, diante do trono, só consegue pronunciar um lamento sobre si, e Deus responde com expiação, e não dizendo que ele não era tão mau. Ainda sobre Isaías 7:14, uma publicação reformada (Tabletalk) observa que Mateus talvez não leia Isaías como se costuma supor, ao mesmo tempo que afirma o nascimento virginal de Jesus. A tradição luterana tem a obra de Lutero: Lectures on Isaiah ocupa os volumes 16 e 17 de Luther's Works (Concordia). Para as tradições batista e pentecostal, não encontrei fonte verificável específica sobre Isaías, e este perfil não lhes atribui posição.
7. Cristo e o personagem
O Novo Testamento vê em Isaías um profeta que anunciou Cristo. Mateus 1:23 cita Isaías 7:14 sobre o nascimento de Jesus. O evangelista João afirma que Isaías falou assim porque viu a glória de Cristo e falou a respeito dele (Jo 12:41), ligando a visão do trono do capítulo 6 à glória de Cristo. Filipe, em Atos 8:35, começa por Isaías 53 e anuncia a Jesus ao eunuco.
O capítulo 53 é o texto central. O Servo é desprezado, rejeitado, moído pelas iniquidades do povo e carrega a iniquidade de todos. A leitura cristã desse capítulo como descrição da morte de Cristo é antiga e é compartilhada pelas tradições principais. Os intérpretes judeus, em geral, leem o Servo como Israel. Este perfil apresenta a leitura cristã como a do Novo Testamento, e não como consenso de todos os leitores.
O primeiro versículo de João Batista, "Preparai o caminho do Senhor" (Is 40:3), aplicado por Mateus a ele (Mt 3:3), mostra o encadeamento. O profeta que consolou o povo no exílio é citado quando o consolo definitivo chega.
8. Pontos em debate
ℹOnde os intérpretes divergem
A unidade do livro. Muitos estudiosos propõem que os capítulos 40 a 55 (Segundo Isaías) e 56 a 66 (Terceiro Isaías) vieram de profetas posteriores, pelo contexto de exílio e pela menção a Ciro. Outros defendem a autoria única, com base na inspiração profética e na unidade temática. O debate é intenso, e este perfil não o decide.
Isaías 7:14. A palavra hebraica 'almah é traduzida por "virgem" ou "jovem". Os estudiosos discutem se tem sentido técnico de virgem, e se a profecia tinha um cumprimento imediato, no tempo de Acaz, além do cumprimento em Jesus. A Septuaginta traduziu por parthenos, "virgem". Este perfil registra as leituras.
A identidade do Servo. O Servo é Israel, um indivíduo, o profeta ou o Messias? Os poemas do Servo admitem leituras diversas. A tradição cristã o identifica com Cristo. Este perfil registra o debate.
A morte do profeta. Uma tradição extrabíblica diz que Isaías foi serrado ao meio no reinado de Manassés, e alguns veem uma alusão em Hebreus 11:37. O texto bíblico não registra a morte de Isaías, e este perfil trata a informação como tradição.
9. O que aprender hoje
Comece por Deus, não por você. A visão do trono desloca o centro: Deus é santo, o profeta é impuro, e o perdão vem de cima.
Esteja disponível depois de perdoado. "Eis-me aqui" é a resposta de quem foi limpo. O serviço nasce da graça recebida.
Prefira a confiança à manobra. A proposta a Acaz era simples: confiar. Muitas crises pedem menos engenho e mais fé.
Consolar também é tarefa profética. O mesmo livro que anuncia juízo abre uma segunda parte dizendo: "Consolai, consolai o meu povo" (Is 40:1).
Espere no Senhor. "Os que esperam no Senhor renovam as suas forças" (Is 40:31) é promessa para quem está cansado.
10. Leituras Recomendadas
- Calvino, João. Commentary on the Prophet Isaiah. Domínio público, disponível em ccel.org.
- Lutero, Martinho. Lectures on Isaiah. Em Luther's Works, vols. 16 e 17. Concordia Publishing House.
- Ligonier Ministries. "The Holiness of God" (devocional, 25 de fevereiro de 2013). learn.ligonier.org/devotionals/holiness-of-god.
- Motyer, J. Alec. The Prophecy of Isaiah. IVP, 1993.
- Oswalt, John N. The Book of Isaiah. New International Commentary on the Old Testament. Eerdmans, 1986 e 1998.