1. O Nome
O nome בָּרוּךְ (Barukh), Baruque, significa "abençoado". É o particípio passivo do verbo "abençoar", e é o mesmo termo que aparece em fórmulas como "bendito seja o Senhor". O texto bíblico não explica o nome, mas o sentido é transparente em hebraico.
בָּרוּךְ
Barukh
'Abençoado' ou 'bendito'; particípio de 'abençoar'. O texto não explica o nome
Ele é identificado como "Baruque, filho de Nerias, o escrivão" (Jr 36:32). O nome do pai e a menção da profissão aparecem sempre juntos. Seu irmão Seraías é mencionado em Jeremias 51:59 como oficial da corte de Zedequias, o que indica que a família tinha posição no círculo palaciano.
2. Ficha rápida
✦Ficha rápida
- Outras formas: em grego, Βαρούχ (Barouch), nome que aparece também em livros deuterocanônicos.
- Período: reinado de Jeoaquim e queda de Jerusalém, final do século VII e início do VI a.C.
- Locais: Jerusalém, o Templo, depois o Egito.
- Família: filho de Nerias; irmão de Seraías (Jr 51:59).
- Papel: escrivão e secretário de Jeremias; leitor público do rolo no Templo.
- Onde aparece: Jeremias 32, 36, 43 e 45.
- Em uma frase: o escrivão que escreveu o que Jeremias ditou e a quem Deus prometeu a vida como despojo em meio ao juízo.
3. Quem foi
Baruque aparece pela primeira vez em Jeremias 32, quando o profeta compra um campo em Anatote durante o cerco de Jerusalém e entrega o documento de compra a Baruque, filho de Nerias, diante de testemunhas, para que seja guardado num vaso de barro (Jr 32:12-14). O ato é sinal de que ainda se comprarão casas, campos e vinhas na terra (Jr 32:15).
A cena central é o capítulo 36. No quarto ano de Jeoaquim, o Senhor manda Jeremias escrever todas as palavras que falara desde os dias de Josias, na esperança de que Judá ouvisse e se convertesse. Jeremias chama Baruque:
Jr 36:4"escreveu Baruque no rolo, segundo o que ditou Jeremias"
Jeremias, impedido de entrar no Templo, manda Baruque lê-lo publicamente num dia de jejum. Os oficiais ouvem a leitura, pedem para ouvi-la de novo e aconselham Baruque e Jeremias a esconderem-se (Jr 36:11-19). O rolo chega ao rei Jeoaquim, que, sentado junto a um braseiro, manda ler trechos e corta o rolo com um canivete, lançando-o ao fogo (Jr 36:21-23). O rei ordena a prisão de Baruque e de Jeremias, mas o Senhor os escondeu (Jr 36:26). Deus manda escrever outro rolo, com ainda mais palavras. O texto traz: "o deu a Baruque, filho de Nerias, o escrivão" (Jr 36:32).
O capítulo 45 é uma palavra pessoal de Deus a Baruque, datada do quarto ano de Jeoaquim. Baruque se queixa:
Jr 45:3"Ai de mim agora! Porque me acrescentou o Senhor tristeza ao meu sofrimento"
A resposta de Deus é dura: "Eis que estou demolindo o que edifiquei e arrancando o que plantei, e isto em toda a terra" (Jr 45:4). O texto sugere que Baruque buscava grandezas para si, e a ordem é não as buscar (Jr 45:5). Mas vem a promessa: "a ti, porém, eu te darei a tua vida como despojo, em todo lugar para onde fores" (Jr 45:5).
Depois da queda de Jerusalém, os remanescentes acusam Baruque de incitar Jeremias contra eles e o levam, junto com o profeta, ao Egito (Jr 43:3-7). O texto bíblico não narra o que aconteceu com ele depois.
4. Contexto histórico e cultural
O escrivão era um profissional importante no antigo Oriente Próximo. Sabia ler e escrever, redigia documentos, cartas e contratos, e muitas vezes ocupava posição próxima do poder. O fato de Baruque ter acesso a oficiais da corte (Jr 36:12) e de seu irmão ser oficial de Zedequias (Jr 51:59) sugere uma família de funcionários.
O livro de Jeremias foi preservado por meio de rolos, e o episódio do capítulo 36 é um raro retrato de como um texto profético foi redigido, lido, destruído e reescrito. Muitos estudiosos veem em Baruque uma figura importante na formação do livro, como secretário e possivelmente redator. O texto diz apenas que ele escreveu o que Jeremias ditou, e a extensão do papel dele é discutida.
Os livros que levam o nome Baruque nas tradições católica e ortodoxa (Baruque e a Carta de Jeremias) são deuterocanônicos e não fazem parte do cânon protestante. Este perfil trata só do Baruque do livro de Jeremias.
O texto de Jeremias 36 permite ver como a Palavra era transmitida em duas etapas: Jeremias falava, Baruque escrevia, e o rolo era lido em público. Isso mostra uma cadeia de serviço em que cada elo é necessário. Baruque não era profeta, pelo que o texto diz, e ainda assim a sua leitura teve efeito: os oficiais ficaram atemorizados e disseram que precisavam informar o rei (Jr 36:16). A leitura de um escrivão, portanto, produziu temor e ação.
A cena de Jeoaquim cortando o rolo e lançando-o ao fogo, folha após folha, é uma das mais expressivas do livro (Jr 36:23). O texto observa que nem o rei nem seus servos se assustaram nem rasgaram as vestes (Jr 36:24), em contraste com a reação do rei Josias, que rasgou as vestes ao ouvir o Livro da Lei (2Rs 22:11). O contraste mostra, no mesmo período, duas respostas à Palavra: arrependimento e desprezo.
Também chama a atenção a menção de que o Senhor escondeu Baruque e Jeremias (Jr 36:26). O serviço ao lado de um profeta perseguido expunha o escrivão a risco real. Mais tarde, ele é acusado de incitar Jeremias contra o povo (Jr 43:3), o que mostra que o seu papel era percebido como político. Baruque carregou, portanto, o custo social de sua proximidade com a mensagem.
O capítulo 45 é breve, mas pessoal. A data indicada, o quarto ano de Jeoaquim, coincide com a escrita do primeiro rolo (Jr 36:1), de modo que a queixa de Baruque pode ter nascido do cansaço dessa época. Os intérpretes veem aí um dos poucos textos do Antigo Testamento em que Deus responde diretamente a um colaborador do profeta, e não ao profeta. O ponto é que a atenção de Deus alcança também quem trabalha em segundo plano.
5. Linha do tempo
Linha do tempo
6. O que a Escritura ensina por meio dele
O serviço nos bastidores tem peso. Sem Baruque, o livro de Jeremias provavelmente não teria a forma que tem. O texto o registra com nome, filiação e profissão, o que mostra que Deus vê o trabalho de quem escreve, copia e preserva.
A Palavra de Deus sobrevive à destruição. O rei queimou o rolo, e Deus mandou reescrevê-lo com mais palavras (Jr 36:23, 28, 32). A tentativa de silenciar a Palavra não a anula.
Quem serve também sofre. Baruque disse: "Ai de mim agora! Porque me acrescentou o Senhor tristeza ao meu sofrimento" (Jr 45:3). O texto não censura o desabafo e responde com franqueza.
Cuidado com as grandes aspirações em tempos de juízo. Deus diz que está demolindo o que edificou e arrancando o que plantou (Jr 45:4), e o contexto sugere que não era hora de buscar grandezas (Jr 45:5).
A promessa é de vida, e não de conforto. "Te darei a tua vida como despojo" (Jr 45:5) é uma promessa limitada: Baruque sobreviverá, sem garantia de tudo mais. O texto não esconde o limite.
O que cada tradição destaca. As buscas feitas para este perfil não retornaram fonte verificável das quatro tradições (reformada, batista, luterana e pentecostal) sobre Baruque como personagem, e por isso este perfil não lhes atribui posições. O que o próprio texto afirma sobre Baruque está em Jeremias 32, 36, 43 e 45.
7. Cristo e o personagem
Baruque não é citado no Novo Testamento e não é tipo de Cristo. A ligação passa por temas. O escrivão que registra a palavra do profeta e a lê ao povo corresponde, de longe, ao papel dos que, mais tarde, escrevem e leem os Evangelhos e as cartas. O rolo que não pôde ser destruído dialoga com a afirmação de Jesus de que suas palavras não passarão (Mt 24:35). Essa ligação é uma leitura de leitores, e este perfil a apresenta como tal.
O texto também mostra um tema que o Novo Testamento aprofunda: servir a Deus em tempos de crise não garante prosperidade. Jesus diz aos discípulos que neste mundo terão aflições (Jo 16:33), mas que ele venceu o mundo. A promessa feita a Baruque, a vida como despojo, é uma versão pequena e histórica da promessa de preservação do povo de Deus.
O que o texto afirma de modo direto é que Deus conhecia Baruque por nome, ouviu o desabafo e respondeu com uma palavra específica a ele (Jr 45).
8. Pontos em debate
ℹOnde os intérpretes divergem
O papel de Baruque na redação de Jeremias. Alguns estudiosos o veem como secretário que apenas escreveu; outros, como redator ou editor que organizou o material. O texto diz que ele escreveu "segundo o que ditou Jeremias" (Jr 36:4). Este perfil não decide a extensão do papel.
A natureza das "grandezas" de Jeremias 45:5. Deus pergunta a Baruque se ele procura grandezas para si e manda que não as procure (Jr 45:5). Os intérpretes discutem o que Baruque desejava: prestígio, segurança ou posição. O texto não detalha. Este perfil registra a pergunta.
O destino de Baruque. O texto o deixa no Egito, e tradições posteriores falam de sua morte ali ou de seu retorno à Babilônia. O relato bíblico não narra. Este perfil trata essas informações como tradição.
A cronologia dos capítulos 36 e 45. Jeremias 45 está datado do quarto ano de Jeoaquim, mas aparece no fim do livro. Os estudiosos discutem a razão da posição. Este perfil registra o fato.
9. O que aprender hoje
Valorize quem escreve, copia e organiza. Sem o trabalho discreto de Baruque, o livro de Jeremias teria sido outro. A obra de Deus depende também de quem faz o trabalho de bastidores.
Leia a Palavra em público. Baruque leu o rolo no Templo, apesar do risco (Jr 36:10). A leitura pública da Escritura é um ato de coragem e de serviço.
Leve o desânimo a Deus. O desabafo de Baruque foi respondido (Jr 45). Deus fala com quem se queixa com sinceridade.
Mude o foco das grandes aspirações. Em tempos de crise, o convite é a fidelidade, e não a busca de grandezas.
Receba a promessa limitada com gratidão. "Tua vida como despojo" não é tudo que Baruque queria, e é o que Deus prometeu e cumpriu. Há bênçãos pequenas que preservam.
10. Leituras Recomendadas
- Calvino, João. Commentaries on the Book of the Prophet Jeremiah and the Lamentations. Domínio público, disponível em ccel.org.
- Thompson, J. A. The Book of Jeremiah. New International Commentary on the Old Testament. Eerdmans, 1980.
- Kidner, Derek. The Message of Jeremiah. IVP, 1987.
- Wright, Christopher J. H. The Message of Jeremiah. IVP, 2014.
- Henry, Matthew. Comentário Bíblico, sobre Jeremias 36 e 45. Domínio público.