O Sermão

Antigo Testamento

Cantares

O nome שִׁיר הַשִּׁירִים, o melhor dos cânticos, o amor entre o noivo e a noiva como dádiva de Deus no casamento e a leitura que a igreja sempre viu de Cristo e da sua noiva.

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Cantares

Ficha do Livro

✍Autor provável

Salomão, segundo o título (Ct 1:1) — a expressão hebraica 'de Salomão' pode indicar autoria, dedicatória ou tema; a tradição o atribui a ele

◷Data provável

Tradicionalmente c. 970–930 a.C.; alguns estudiosos propõem datas posteriores

📜Gênero literário

Poesia lírica de amor, em forma de diálogo entre a noiva, o noivo e um coro (as 'filhas de Jerusalém')

◎Destinatários

O povo de Deus, em especial os casados e os que se preparam para o casamento — uma celebração do amor conjugal como dom do Criador

1. O Nome do Livro

O título é a primeira frase do livro, em forma de superlativo.

HebraicoCantares 1:1

שִׁיר הַשִּׁירִים

Shir HaShirim

'Cântico dos Cânticos' — o melhor, o mais excelente de todos os cânticos

O hebraico forma o superlativo repetindo a palavra no singular e no plural (como "Santo dos Santos" ou "Rei dos reis"). O livro é, portanto, o cântico por excelência. A Vulgata o chamou de Canticum Canticorum, e a tradução portuguesa tradicional, "Cantares" (ou "Cântico dos Cânticos"), segue essa linha. Na tradição judaica, é lido na Páscoa.


2. Autoria e Data

O título diz "Cântico dos Cânticos, que é de Salomão" (Ct 1:1). A preposição hebraica pode indicar o autor, o dedicatório ou o tema, mas a tradição, apoiada em 1 Reis 4:32 ("seus cânticos foram mil e cinco"), o atribui a Salomão. O livro tem muitas referências a plantas, animais e lugares que combinam com o cenário de seu reinado.


3. Estrutura Literária

A divisão do livro é debatida, pois é uma sequência de poemas, e não uma narrativa linear. Uma divisão possível:

Uma divisão possível de Cantares


4. O Amor como Dádiva do Criador

O livro ensina, antes de tudo, que o amor entre homem e mulher é bom, uma dádiva de Deus que merece ser celebrada com liberdade e beleza. Em Gênesis, o primeiro casamento é apresentado com a frase "serão os dois uma só carne" (Gn 2:24), e Cantares mostra, em poesia, o que isso significa. A linguagem é intencionalmente cheia de imagens (jardins, frutos, perfumes) e não é escrita com vergonha, mas também não é vulgar: o refrão das "filhas de Jerusalém" adverte repetidamente que não se deve "despertar o amor, até que queira" (Ct 2:7; 3:5; 8:4), um chamado à paciência e ao tempo certo do amor.

"O meu amado é meu, e eu sou dele; ele apascenta o seu rebanho entre os lírios."

Cantares 2:16

5. "Forte como a Morte é o Amor"

O ponto alto do livro está no capítulo 8:

"Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço; porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura é o ciúme... As muitas águas não poderiam apagar este amor, nem os rios afogá-lo."

Cantares 8:6-7
HebraicoCantares 8:6-7

אַהֲבָה

Ahavah

Amor — aqui, o amor leal e exclusivo da aliança conjugal

O amor descrito não é um sentimento passageiro, mas um vínculo de aliança que a morte e as águas não vencem. O "selo" era usado para marcar propriedade e identidade: pede-se um compromisso que seja visível e indelével.


6. Cristo e a Igreja

Desde a antiguidade, judeus e cristãos leram Cantares também como um retrato do amor de Deus por seu povo. Os cristãos viram nele o amor de Cristo e da sua noiva, a igreja, em linha com a imagem do casamento em Efésios 5:31-32 ("grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja") e com os profetas, que descrevem Deus como o noivo de Israel (Os 2:19-20; Is 62:5).

ℹDuas ênfases que não competem

A tradição reformada tem evitado dois extremos: o alegorismo que ignora o sentido literal (tratando o livro só como código espiritual) e o literalismo que ignora o testemunho de Cristo. A leitura equilibrada reconhece que o livro celebra o amor conjugal real, que é, em si mesmo, uma imagem do amor de Cristo pela igreja.


Leituras Recomendadas

  • Tremper Longman III — Song of Songs (New International Commentary on the Old Testament) — estudo técnico, com leitura literal
  • Iain Duguid — The Song of Songs (Tyndale Old Testament Commentaries) — leitura pastoral e cristológica
  • Duane Garrett e Paul House — Song of Songs / Lamentations (Word Biblical Commentary)
  • James Hamilton — Song of Songs: A Biblical-Theological, Allegorical, Christological Interpretation — leitura cristológica evangélica recente
  • Derek Kidner — The Wisdom of Proverbs, Job & Ecclesiastes — contexto dos livros de sabedoria