1. O Nome
O nome עֹבַדְיָה (Ovadyah), Obadias, é formado com o substantivo "servo" e o nome divino: "servo do Senhor" ou "o que serve ao Senhor". É um nome comum no Antigo Testamento. Há vários Obadias: o mordomo de Acabe que escondeu cem profetas (1Rs 18:3-4), um oficial de Josafá (2Cr 17:7), um levita do tempo de Josias (2Cr 34:12) e outros. O livro de Obadias não diz qual deles é o profeta, nem dá dado biográfico.
עֹבַדְיָה
Ovadyah
'Servo do Senhor'; nome formado com o substantivo 'servo' e o nome divino. O texto não dá dados biográficos do profeta
O livro começa com a fórmula de visão de Obadias e logo apresenta a palavra do Senhor "a respeito de Edom" (Ob 1). Não há genealogia, não há menção de reis, não há data. O único objeto da mensagem é Edom.
2. Ficha rápida
✦Ficha rápida
- Outras formas: em grego, Ἀβδίου (Abdiou) nas versões gregas.
- Período: incerto. As propostas principais ligam o livro à queda de Jerusalém em 586 a.C. ou a um ataque anterior, no século IX a.C.
- Locais: Jerusalém, Sião, Edom (monte Seir, Esaú).
- Família: o livro não registra.
- Papel: profeta cujo único livro, de um capítulo e vinte e um versículos, é o menor do Antigo Testamento.
- Onde aparece: livro de Obadias.
- Em uma frase: o profeta que anunciou que o orgulho de Edom seria derrubado e que o reino seria do Senhor.
3. Quem foi
A mensagem de Obadias é dirigida a Edom, o povo descendente de Esaú, irmão de Jacó (Gn 25:30; 36:1). O texto começa com o anúncio de que o Senhor enviou um mensageiro às nações contra Edom (Ob 1). Em seguida, vem a acusação:
Ob 3"A soberba do teu coração te enganou"
Edom habitava as alturas rochosas do monte Seir e se considerava inalcançável. O Senhor responde: "de lá te derribarei" (Ob 4). Os versículos seguintes descrevem a ruína: ladrões e vindimadores deixariam alguma coisa, mas Edom seria completamente despojado, e os aliados o trairiam (Ob 5-7).
O núcleo do livro é a denúncia do comportamento de Edom no dia da calamidade de Judá (Ob 10-14). A causa do juízo:
Ob 10"Por causa da violência feita a teu irmão Jacó, cobrir-te-á a vergonha"
O texto repete uma série de proibições sobre o que Edom não devia ter feito no dia da calamidade: olhar com satisfação para a desgraça do irmão, alegrar-se com a ruína de Judá, entrar na porta do povo, saquear seus bens e entregar os fugitivos (Ob 12-14, em resumo). O profeta amplia o horizonte para o Dia do Senhor sobre todas as nações, com um princípio de retribuição: "o teu malfeito tornará sobre a tua cabeça" (Ob 15).
O livro termina com esperança para Sião:
Ob 21"Salvadores hão de subir ao monte Sião, para julgarem o monte de Esaú; e o reino será do Senhor."
A casa de Jacó será restaurada e possuirá suas possessões, e o monte de Esaú será consumido como palha por fogo (Ob 17-18, em resumo).
4. Contexto histórico e cultural
Edom e Israel têm uma longa história de parentesco e hostilidade. Esaú e Jacó eram irmãos gêmeos (Gn 25:21-26), e a relação entre seus descendentes oscilou entre a tensão e o conflito. Deuteronômio 23:7 pede que Israel não despreze o edomita, porque é seu irmão. Ao mesmo tempo, Edom recusou passagem a Israel no caminho para Canaã (Nm 20:14-21) e, em diversas ocasiões, esteve em guerra com Judá (2Rs 8:20-22; 14:7).
A data do livro é debatida. Muitos estudiosos o ligam à queda de Jerusalém em 586 a.C., quando Edom teria se aproveitado da destruição, o que se reflete em outros textos: o Salmo 137:7 pede a Deus que se lembre do que os edomitas disseram no dia de Jerusalém, e Ezequiel 35 anuncia juízo sobre o monte Seir. Outros propõem um ataque anterior, como o ocorrido sob Jeorão, no século IX a.C. (2Cr 21:16-17). O texto não data a visão, e este perfil não decide.
Edom foi, mais tarde, deslocada por grupos árabes e ocupada pelos nabateus. Os edomitas aparecem de novo no Novo Testamento na figura de Herodes, o Grande, que era idumeu, forma grega de edomita. A ligação é histórica e não é feita pelo livro.
A relação entre Esaú e Jacó é a chave para ler o livro. O nascimento dos dois gêmeos, com Jacó segurando o calcanhar de Esaú, e a troca do direito de primogenitura por um prato de lentilhas (Gn 25:24-34) estabelecem uma rivalidade que atravessa gerações. Mais tarde, os dois se reconciliam em Gênesis 33, e os descendentes de Esaú se estabelecem no monte Seir (Gn 36). Obadias, ao falar do irmão Jacó, lembra que a ação de Edom não foi a de um estranho, mas a de um parente.
O monte Seir e a região de Edom eram de terreno acidentado, com penhascos e fortalezas naturais. A cidade de Petra, mais tarde associada aos nabateus, fica nessa região. A confiança de Edom nas alturas (Ob 3) tem base geográfica: era difícil atacá-los. O texto responde que a altura não impede o juízo de Deus, que alcança até onde a águia faz o seu ninho (Ob 4).
Os verbos de Obadias 12 a 14 são importantes. O texto não descreve só o que Edom fez, e sim o que não devia ter feito: olhar, alegrar-se, falar com orgulho, entrar nas portas, saquear, impedir os fugitivos, entregar os sobreviventes. Cada verbo é uma forma de participar da desgraça do irmão. A lista mostra que a omissão e a satisfação também são pecados quando se trata de quem sofre.
O livro também ajuda a entender o Salmo 137, escrito por exilados que lembram o dia de Jerusalém e a atitude dos edomitas (Sl 137:7). Obadias dá a resposta de Deus a esse clamor: o dia do Senhor virá, e o que se fez voltará sobre quem o fez. A mensagem do livro é, portanto, também uma resposta à pergunta de quem sofreu e viu o vizinho se alegrar.
5. Linha do tempo
Linha do tempo
6. O que a Escritura ensina por meio dele
O orgulho engana. "A soberba do teu coração te enganou" (Ob 3) mostra uma segurança falsa: Edom confiava na geografia e nas alianças. O livro ensina que a posição elevada não protege do juízo de Deus.
Alegrar-se com o mal alheio é pecado. Edom não é acusado apenas de ter atacado, mas de ter olhado com satisfação para a desgraça do irmão (Ob 12). A Escritura leva a sério a atitude do coração diante da queda do outro.
A violência contra o irmão tem peso dobrado. "Por causa da violência feita a teu irmão Jacó" (Ob 10) lembra o laço de parentesco entre Edom e Judá. A traição de quem devia proteger agrava a culpa.
Deus retribui. "O teu malfeito tornará sobre a tua cabeça" (Ob 15) expressa o princípio de que o mal volta a quem o pratica. O texto o aplica a Edom e às nações no Dia do Senhor.
A última palavra é o reino de Deus. O livro, que começa com juízo, termina com a frase "o reino será do Senhor" (Ob 21). A esperança do povo de Deus não está no poder humano.
O que cada tradição destaca. A tradição luterana tem a obra de Lutero nos profetas menores, com Obadias incluído no volume 18 de Luther's Works (Lectures on the Minor Prophets I, Concordia). Para as tradições reformada, batista e pentecostal, as buscas feitas para este perfil não retornaram fonte verificável específica sobre Obadias, e este perfil não lhes atribui posição própria. O texto, em si, é o ponto de convergência: todas as tradições o leem como juízo sobre o orgulho e a violência e como promessa de que o reino é do Senhor.
7. Cristo e o personagem
O Novo Testamento não cita Obadias diretamente. Os temas, porém, ressoam. A frase "o reino será do Senhor" (Ob 21) antecipa o tema central da pregação de Jesus sobre a proximidade do reino de Deus (Mc 1:15). O Dia do Senhor, que traz juízo e libertação, é um tema que o Novo Testamento aplica à volta de Cristo (1Ts 5:2). Essas ligações são leituras de leitores, e este perfil as apresenta como tal.
A figura dos "salvadores" que sobem ao monte Sião (Ob 21) é interpretada por muitos cristãos como referência aos libertadores de Israel, e alguns veem nela uma antecipação do Salvador definitivo. O texto hebraico usa uma forma plural, e os intérpretes discutem a identidade dos "salvadores". Este perfil registra a leitura cristã como uma entre outras.
O ensino de Jesus sobre o amor aos inimigos (Mt 5:44) e sobre a atitude diante do mal alheio contrasta com a postura de Edom em Obadias 12. O contraste é de leitor, e não de texto.
8. Pontos em debate
ℹOnde os intérpretes divergem
A data e a ocasião. O livro trata do "dia" em que Edom se alegrou com a calamidade de Judá. A maioria liga o evento à queda de Jerusalém em 586 a.C. (linha do Salmo 137:7). Uma minoria propõe a invasão filisteia e árabe do tempo de Jeorão (2Cr 21:16-17). O livro não data a visão. Este perfil registra as posições.
A relação entre Obadias 1-9 e Jeremias 49:7-22. Há paralelos entre os dois textos, e os estudiosos discutem a dependência: um dos profetas teria citado o outro, ou ambos usaram uma fonte comum. Este perfil registra o fato.
A identidade do profeta. O nome é comum, e o livro não dá dados. A tradição judaica e algumas tradições cristãs identificam o profeta com o mordomo de Acabe, mas o texto bíblico não o afirma. Este perfil trata a informação como tradição.
O sentido de "salvadores" (Ob 21). Pode referir-se a libertadores humanos, a juízes ou a uma figura messiânica. O texto não esclarece.
9. O que aprender hoje
Não se alegre com a queda de ninguém. A acusação contra Edom não é de uma ação, mas de uma atitude. Cristãos também podem sentir satisfação diante do fracasso de quem os feriu.
Desconfie da segurança que vem de si mesmo. Edom se achava inalcançável nas rochas (Ob 3-4). Posição, riqueza e alianças não substituem a confiança em Deus.
Honre os laços de família e de fé. O pecado de Edom foi agravado pelo parentesco. Quem está próximo tem responsabilidade especial.
Lembre que o mal volta. O princípio de Obadias 15 serve de aviso: o que se faz aos outros retorna.
Espere o reino. O livro termina com a certeza de que o reino é do Senhor (Ob 21). Em meio a injustiças, a esperança cristã está nesse reino.
10. Leituras Recomendadas
- Calvino, João. Commentaries on the Twelve Minor Prophets (sobre Obadias). Domínio público, disponível em ccel.org.
- Lutero, Martinho. Lectures on the Minor Prophets I. Em Luther's Works, vol. 18. Concordia Publishing House.
- Allen, Leslie C. The Books of Joel, Obadiah, Jonah and Micah. New International Commentary on the Old Testament. Eerdmans, 1976.
- Alexander, T. Desmond, Alexander, David W. e Baker, David W. Obadiah, Jonah, Micah. Tyndale Old Testament Commentaries. IVP, 1988.
- Henry, Matthew. Comentário Bíblico, sobre Obadias. Domínio público.