1. O Nome
O nome נַחוּם (Nachum), Naum, vem da raiz hebraica que significa "consolar" e é geralmente entendido como "consolo" ou "consolador". O texto bíblico não explica o nome, e a ironia é evidente: o livro de Naum é uma sentença de juízo contra Nínive, e o consolo que ele traz é dirigido a Judá, que sofreu sob o domínio assírio.
נַחוּם
Nachum
Da raiz 'consolar'; geralmente 'consolo'. O texto não explica o nome
O livro o chama de "o elcosita" (Na 1:1), mas não há certeza sobre a localização de Elcos. Há propostas em Judá e na Galileia, e a tradição posterior situou o lugar em várias regiões. O livro não dá outros dados biográficos.
2. Ficha rápida
✦Ficha rápida
- Outras formas: em grego, Ναούμ (Naoum), forma que aparece também em Lucas 3:25 para outro personagem.
- Período: entre 663 a.C., data da queda de Tebas (No-Amom, Na 3:8), e 612 a.C., data da queda de Nínive, segundo a cronologia comum.
- Locais: Elcos (localização incerta), Nínive (alvo da mensagem).
- Família: o livro não registra.
- Papel: profeta que anuncia o juízo de Deus sobre Nínive, a capital da Assíria.
- Onde aparece: livro de Naum.
- Em uma frase: o profeta que anunciou que Deus, tardio em irar-se, não deixaria impune a cidade que oprimiu os povos.
3. Quem foi
O livro de Naum começa com a identificação: "Sentença contra Nínive" (Na 1:1). A palavra hebraica traduzida como "sentença" também significa "peso" ou "oráculo", e o livro se apresenta como uma palavra de juízo. O capítulo 1 não começa, porém, com a cidade, e sim com o caráter de Deus: um Deus zeloso e vingador, que se vinga de seus adversários. A mesma passagem traz o equilíbrio:
Na 1:3"O Senhor é tardio em irar-se"
O versículo acrescenta que ele é grande em poder e que não inocenta o culpado. Em seguida, uma das frases mais conhecidas do livro:
Na 1:7"O Senhor é bom, é fortaleza no dia da angústia"
O versículo continua dizendo que ele conhece os que nele confiam. O mesmo capítulo anuncia o fim da opressão sobre Judá e a retirada do jugo (Na 1:12-13). O capítulo 2 descreve o ataque contra Nínive com imagens vivas de escudos vermelhos, carros e saque. O capítulo 3 retoma a acusação:
Na 3:1"Ai da cidade sanguinária, toda cheia de mentiras e de roubo"
O capítulo descreve a cidade como prostituta de feitiços, que vendia nações com suas prostituições e feitiços (Na 3:4, em resumo). O Senhor se declara contra ela e a expõe à vergonha. Como comparação, o profeta lembra a queda de No-Amom, a Tebas egípcia, que também parecia segura (Na 3:8-10). O texto descreve a fragilidade das defesas assírias, os líderes dispersos, o povo espalhado e a ferida sem cura:
Na 3:19"Não há remédio para a tua ferida; a tua chaga é incurável"
O livro termina com a pergunta que dá a razão do juízo: sobre quem não passou continuamente a tua maldade? (Na 3:19, em resumo). Os que ouvem a notícia da queda batem palmas, porque a crueldade da cidade havia sido constante. O versículo 7 do mesmo capítulo resume a situação: "Nínive está destruída; quem terá compaixão dela?" (Na 3:7).
4. Contexto histórico e cultural
A Assíria dominou o Oriente Próximo por séculos e foi conhecida por sua crueldade com os povos conquistados. Judá viveu sob tributo assírio, especialmente depois da campanha de Senaqueribe (2Rs 18 e 19). Nínive era uma das capitais do império. O livro de Naum fala a Judá, como consolo, e à própria Nínive, como sentença.
A data do livro é fixada por duas referências. A queda de No-Amom (Tebas), no Egito, mencionada em Naum 3:8, ocorreu em 663 a.C., e a queda de Nínive, que o livro anuncia, aconteceu em 612 a.C. O profeta atua, portanto, entre esses dois eventos. Os estudiosos discutem se o livro foi composto antes ou depois do evento, mas o texto o apresenta como profecia.
A relação com Jonas é inevitável. Jonas foi enviado a Nínive no século VIII a.C., a cidade se arrependeu, e Deus poupou (Jn 3). Cerca de um século depois, Naum anuncia a destruição. Os intérpretes costumam ver aí a ideia de que o arrependimento da geração de Jonas não se manteve, e de que a violência voltou. O livro de Naum não faz essa ligação de modo explícito.
Para entender o peso do livro, convém lembrar o que a Assíria fez a Israel e a Judá. O reino do norte foi destruído em 722 a.C., e sua população foi deportada (2Rs 17:5-6). Judá viu cidades fortificadas tomadas por Senaqueribe e escapou de Jerusalém por livramento divino (2Rs 18:13; 19:35-36). Para quem viveu essa história, a notícia de que Nínive cairia era de alívio, e não de vingança gratuita. O livro de Naum fala a um povo que sofreu e perguntava se Deus via.
O hino do capítulo 1 funciona como introdução teológica. Antes de falar de Nínive, o profeta fala de quem Deus é: zeloso, vingador, tardio em irar-se, grande em poder, refúgio. A ordem dos termos importa. A justiça de Deus não é arbitrariedade, mas resposta de um Deus que é bom e que conhece os que nele confiam (Na 1:7). Por isso o juízo sobre Nínive não contradiz a bondade de Deus; é uma expressão dela.
O capítulo 2 usa linguagem de batalha. O texto descreve carros, escudos e o saque da cidade. A tradição histórica registra que Nínive foi tomada por uma coalizão de babilônios e medos em 612 a.C., e que o rio contribuiu para a derrubada das defesas. O texto de Naum fala de comportas dos rios abertas (Na 2:6), o que alguns estudiosos relacionam a esse fato. Este perfil registra a ligação como hipótese de leitores.
O capítulo 3 compara Nínive com Tebas, que foi tomada pelos próprios assírios em 663 a.C. A mensagem é clara: quem destruiu outros não está a salvo. A pergunta que fecha o livro (Na 3:19) deixa sem resposta a razão de a cidade sobreviver: ninguém a defende, e todos se alegram com a queda. O leitor é convidado a ver a justiça de Deus no fim de um império violento.
5. Linha do tempo
Linha do tempo
6. O que a Escritura ensina por meio dele
Deus não é indiferente à violência. Naum afirma que o Senhor não deixa o culpado sem castigo (Na 1:3). A justiça de Deus responde ao sangue derramado e às mentiras.
A paciência de Deus tem limites. "Tardio em irar-se" (Na 1:3) é uma frase de paciência, e o mesmo versículo continua com a justiça. Naum e Jonas mostram dois lados do caráter de Deus: a misericórdia diante do arrependimento e o juízo diante da violência persistente.
Deus é refúgio. "O Senhor é bom, é fortaleza no dia da angústia" (Na 1:7) é uma afirmação de consolo. Para quem sofreu sob a Assíria, o fim do opressor é boa notícia.
Impérios caem. A queda de No-Amom serve de aviso a Nínive (Na 3:8-10). Nenhuma cidade, por forte que pareça, é imune ao juízo.
O consolo do oprimido é a justiça de Deus. O livro não diz que a violência vai mudar por si mesma. Diz que Deus age.
O que cada tradição destaca. A tradição luterana tem a obra de Lutero em Luther's Works, vol. 18, que inclui preleções sobre os profetas menores, entre eles Naum. Para as tradições reformada, batista e pentecostal, as buscas feitas para este perfil não retornaram fonte verificável específica sobre Naum, e este perfil não lhes atribui posição própria. O consenso da leitura cristã está em ver o livro como complemento de Jonas: a misericórdia de Deus e sua justiça.
7. Cristo e o personagem
O Novo Testamento não cita Naum de forma direta, mas Romanos 10:15 usa a imagem do mensageiro sobre os montes que traz boas-novas, em eco de Isaías 52:7 e, segundo muitos intérpretes, também de Naum 1:15. O versículo de Naum fala dos pés do mensageiro que anuncia boas-novas e paz sobre os montes (Na 1:15). A ligação é de leitores, e este perfil a apresenta como tal.
A natureza de Deus descrita no capítulo 1, zeloso, paciente, justo e bom, aparece em Cristo. A cruz, na leitura cristã, é o lugar em que a justiça e a misericórdia de Deus se encontram. Essa leitura é de intérpretes, e o livro de Naum não a faz.
O livro também aponta para o fim do império mau e a chegada de um reino de paz. O Apocalipse retoma a imagem da cidade que cai, a Babilônia, símbolo da violência e da idolatria (Ap 18). O paralelo é de tema.
8. Pontos em debate
ℹOnde os intérpretes divergem
Elcos. O livro chama Naum de "elcosita", mas a localização de Elcos é desconhecida. Propostas incluem uma cidade em Judá, um lugar na Galileia (a tradição de Cafarnaum, "aldeia de Naum") e um local perto de Nínive. O texto não decide.
A data. O livro cita a queda de Tebas (663 a.C.) como evento passado e anuncia a queda de Nínive (612 a.C.). Alguns estudiosos situam o livro pouco antes de 612 a.C.; outros defendem composição posterior, ou veem o livro como profecia anterior ao evento. Este perfil registra as posições.
O hino do capítulo 1. O poema sobre o caráter de Deus no começo do livro tem forma acróstica parcial, e alguns estudiosos o veem como hino independente incorporado. Outros defendem a unidade. Este perfil lê o livro como unidade.
A leitura moral. O livro é duro com Nínive, e alguns leitores se incomodam com o tom de vingança. Os intérpretes divergem sobre como entender esse tom: como parte da justiça divina, como expressão da dor de um povo oprimido ou ambas. Este perfil registra o desconforto.
9. O que aprender hoje
Confie na justiça de Deus. Quando a violência prospera por muito tempo, Naum lembra que Deus não ignora. A espera não é esquecimento.
Não confunda paciência com permissão. "Tardio em irar-se" não equivale a "indiferente". Deus dá tempo, e há limite.
Procure refúgio em Deus. "Fortaleza no dia da angústia" (Na 1:7) é um convite para os que sofrem.
Tenha cuidado com a segurança do poder. Nínive se achava forte, assim como Tebas. Nenhum poder humano é eterno.
Leia Naum junto com Jonas. Os dois livros juntos mostram que a misericórdia de Deus não é fraqueza e que sua justiça não é crueldade.
10. Leituras Recomendadas
- Calvino, João. Commentaries on the Twelve Minor Prophets (sobre Naum). Domínio público, disponível em ccel.org.
- Lutero, Martinho. Lectures on the Minor Prophets I. Em Luther's Works, vol. 18. Concordia Publishing House.
- Longman III, Tremper. "Nahum", em The Minor Prophets, ed. Thomas McComiskey. Baker, 1993.
- Baker, David W. Nahum, Habakkuk, Zephaniah. Tyndale Old Testament Commentaries. IVP, 1988.
- Henry, Matthew. Comentário Bíblico, sobre Naum. Domínio público.