1. O Nome
O nome Ἰούδας (Ioudas), Judas, é a forma grega do hebraico יְהוּדָה (Yehudah), Judá, e significa "louvado" ou "louvor" (Gn 29:35). Era um nome muito comum no século I, e o Novo Testamento tem vários Judas: o Iscariotes, que traiu Jesus; o apóstolo Judas, filho de Tiago (Lc 6:16); Judas Barsabás (At 15:22); e o autor da carta que leva o nome. Este perfil trata do último, que se apresenta como "Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago" (Jd 1).
Ἰούδας
Ioudas
Forma grega de Yehudah (Judá), 'louvado' ou 'louvor' (Gn 29:35); nome muito comum no século I
A carta não diz de qual Tiago ele é irmão, mas a maioria dos intérpretes identifica Tiago, o irmão do Senhor, líder da igreja de Jerusalém (Gl 1:19; At 15:13). Isso faria de Judas um dos irmãos de Jesus citados nos Evangelhos.
2. Ficha rápida
✦Ficha rápida
- Outras formas: Judá (hebraico); em grego, Ἰούδας (Ioudas); em português, às vezes Judas Tadeu na tradição popular, mas o Novo Testamento não usa essa forma para o autor da carta.
- Período: século I d.C.; a data da carta é debatida, geralmente entre os anos 60 e 80.
- Locais: Nazaré, Jerusalém; a destinação da carta não é indicada.
- Família: provavelmente irmão de Tiago e dos demais irmãos de Jesus (Mt 13:55; Mc 6:3).
- Papel: autor da carta de Judas; servo de Jesus Cristo.
- Onde aparece: carta de Judas; provavelmente Mateus 13:55, Marcos 6:3, João 7:5, Atos 1:14 e 1Coríntios 9:5.
- Em uma frase: o irmão de Jesus que, depois de não crer, tornou-se servo dele e escreveu para que a igreja batalhasse pela fé.
3. Quem foi
Os Evangelhos mencionam quatro irmãos de Jesus. Em Nazaré, o povo pergunta, com surpresa: "seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas" (Mt 13:55). Antes da ressurreição, os irmãos de Jesus não criam nele (Jo 7:5, em resumo). Depois, aparecem no grupo dos que oravam em Jerusalém com os apóstolos (At 1:14, em resumo). Paulo menciona que "os irmãos do Senhor" viajavam com suas esposas, como os apóstolos (1Co 9:5, em resumo). A mudança é notável: os que duvidaram passaram a servir.
A carta de Judas é curta, de um só capítulo. Ele se apresenta com humildade, sem usar o título de irmão de Jesus, e escreve:
Jd 1"aos chamados, amados em Deus Pai e guardados em Jesus Cristo"
O propósito da carta é explicado: Judas desejava escrever sobre a salvação comum, mas viu necessidade de exortá-los "a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos" (Jd 3). A razão é que se infiltraram pessoas que "transformam em libertinagem a graça de nosso Deus" e negam o único Soberano e Senhor, Jesus Cristo (Jd 4).
Para mostrar que o juízo é certo, Judas lembra exemplos do passado: o povo que Deus libertou do Egito e depois destruiu os que não creram, os anjos que não guardaram o seu estado original e Sodoma e Gomorra (Jd 5-7, em resumo). Descreve os falsos mestres com uma série de imagens da natureza: nuvens sem água, árvores sem fruto, ondas bravias do mar, estrelas errantes (Jd 12-13, em resumo). Cita uma profecia de Enoque sobre a vinda do Senhor com milhares de seus santos para julgar (Jd 14-15, em resumo).
Mas o foco está na resposta dos fiéis. Judas escreve:
Jd 20-21"edificando-vos na vossa fé santíssima, orando no Espírito Santo"
E acrescenta: "guardai-vos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna" (Jd 21). Pede misericórdia pelos que duvidam e o resgate dos que podem ser salvos (Jd 22-23, em resumo). Termina com uma das doxologias mais belas do Novo Testamento: Aquele que "é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação" (Jd 24), a quem pertence "glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras" (Jd 25).
4. Contexto histórico e cultural
Os "irmãos do Senhor" constituem um grupo que a tradição cristã interpreta de formas diferentes (veja a seção 8). Tiago se tornou líder da igreja de Jerusalém (At 15; Gl 2:9, em resumo) e autor da carta que leva seu nome. Judas, seu irmão, escreveu a carta de Judas. O fato de dois irmãos de Jesus terem deixado cartas no Novo Testamento é significativo.
A carta de Judas usa material de tradição judaica extrabíblica. Em Judas 9, o autor refere uma disputa entre o arcanjo Miguel e o diabo sobre o corpo de Moisés, e em Judas 14-15 cita uma profecia de Enoque. A disputa de Judas 9 vem, segundo muitos estudiosos, de uma obra conhecida como Assunção de Moisés, e a profecia de Enoque corresponde a 1Enoque 1:9. Os estudiosos discutem o que isso implica sobre a autoridade desses textos. Este perfil registra a discussão.
A carta tem muito em comum com 2Pedro 2, e os estudiosos debatem a dependência literária: Judas teria sido usado por 2Pedro, o inverso, ou os dois teriam usado uma fonte comum. A carta foi aceita no cânon depois de alguma discussão nos primeiros séculos.
A estrutura da carta é clara e ajuda a ver como Judas argumenta. Há uma saudação (Jd 1-2), a exposição do motivo da carta (Jd 3-4), três grupos de exemplos do juízo de Deus (Jd 5-7), a descrição dos falsos mestres com várias imagens (Jd 8-16), um chamado aos fiéis a lembrarem a palavra dos apóstolos (Jd 17-19), exortações práticas (Jd 20-23) e a doxologia (Jd 24-25). A carta usa uma série de tríades: três exemplos de juízo, três figuras (Caim, Balaão, Corá, Jd 11), três imagens da natureza, três exortações (edificar, orar, guardar-se).
A menção de Caim, Balaão e Corá (Jd 11) mostra o uso das Escrituras de Israel. Caim representa a violência e a falta de amor ao irmão, Balaão a ganância e o ensino que leva ao pecado, Corá a rebelião contra a autoridade estabelecida por Deus. Os três são exemplos negativos que Judas aplica aos falsos mestres. O uso de figuras do Pentateuco indica que Judas pensava dentro do mundo bíblico judaico, e escreveu para leitores que o conheciam.
A exortação final tem um desenho trinitário: edificar-se na fé, orar no Espírito Santo, guardar-se no amor de Deus e esperar a misericórdia de Jesus Cristo (Jd 20-21). Os três nomes divinos aparecem em sequência. Os intérpretes veem aí uma indicação de que a vida cristã, para Judas, é relação com o Deus trino. A carta, embora curta, tem uma teologia densa.
Por fim, é digno de nota que dois irmãos de Jesus, Tiago e Judas, deixaram cartas no Novo Testamento, e que ambos se apresentam como servos de Jesus Cristo (Tg 1:1; Jd 1), sem invocar o parentesco. A humildade dessa apresentação contrasta com o poder que eles poderiam ter reivindicado. Para quem conheceu Jesus em casa, passar a chamá-lo de Senhor é uma conversão profunda.
5. Linha do tempo
Linha do tempo
6. O que a Escritura ensina por meio dele
A fé foi entregue de uma vez por todas. "A fé que uma vez por todas foi entregue aos santos" (Jd 3) afirma que o evangelho tem um conteúdo dado e não está em constante revisão. A igreja é guardiã, e não autora.
A graça não é licença. "Transformam em libertinagem a graça de nosso Deus" (Jd 4) descreve um erro que persiste: usar a graça como pretexto para o pecado.
Perseverança é atividade. Judas pede que os fiéis se edifiquem, orem, guardem-se no amor de Deus e esperem a misericórdia (Jd 20-21). Ao mesmo tempo, a doxologia diz que é Deus quem guarda de tropeços (Jd 24). As duas coisas andam juntas.
Misericórdia com quem duvida. A carta pede que se tenha compaixão dos que vacilam (Jd 22). A firmeza doutrinária convive com o cuidado pessoal.
Deus é poderoso para guardar. A doxologia final (Jd 24-25) é uma das mais bonitas do Novo Testamento, e põe a esperança na capacidade de Deus.
O que cada tradição destaca. As buscas feitas para esta rodada não retornaram fonte verificável das quatro tradições (reformada, batista, luterana e pentecostal) sobre Judas como personagem, e por isso este perfil não lhes atribui posições. A discussão sobre o parentesco com Jesus (veja a seção 8) divide tradições: católicos e ortodoxos tendem a ler os "irmãos" de outro modo, e protestantes costumam lê-los como irmãos ou meios-irmãos; não encontrei fonte para atribuir uma posição específica a cada denominação evangélica.
7. Cristo e o personagem
A carta de Judas é centrada em Cristo. Os destinatários são "guardados em Jesus Cristo" (Jd 1), esperam "a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna" (Jd 21), e Judas termina com glória ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor (Jd 25). O texto chama Jesus de Senhor e de Soberano (Jd 4).
A história do próprio Judas é cristológica. Ele conviveu com Jesus desde a infância, não creu durante o ministério e, depois da ressurreição, tornou-se servo. A modéstia com que se apresenta, sem invocar parentesco com Jesus, mostra o efeito da conversão. Essa observação é de leitores.
A afirmação de que o Senhor salvou o povo tirando-o do Egito e depois destruiu os incrédulos (Jd 5) aparece em alguns manuscritos com o nome de Jesus no lugar de "o Senhor". Os estudiosos de crítica textual discutem a leitura original. Este perfil registra que há variantes, sem decidir.
8. Pontos em debate
ℹOnde os intérpretes divergem
Os "irmãos" de Jesus. Três leituras principais: eram filhos de Maria e José (leitura mais comum entre protestantes); meios-irmãos, filhos de José de um casamento anterior (tradição ortodoxa); ou primos (tradição católica). O Novo Testamento usa a palavra "irmãos". Este perfil registra as posições e usa a identificação com Tiago, o irmão do Senhor, como a mais difundida.
O uso de Enoque e da Assunção de Moisés. Judas cita tradições extrabíblicas (Jd 9, 14-15). Alguns entendem que ele confirma o conteúdo citado como verdadeiro, outros que o usa como ilustração. Este perfil registra a discussão.
A data e o destino da carta. A carta pode ser dos anos 60 ou de décadas depois, e não indica destinatários. Este perfil não decide.
Judas e 2Pedro. A relação literária entre as duas cartas é discutida. Este perfil registra o debate.
Judas e Judas Tadeu. A tradição popular identifica o autor com o apóstolo Judas Tadeu, mas o texto o distingue dos apóstolos (Jd 17). Este perfil não segue a identificação.
9. O que aprender hoje
Defenda a fé com firmeza e humildade. Judas pede batalha, mas se apresenta como servo.
Cuidado com a graça mal usada. A graça não é pretexto para o pecado. A vida cristã exige santidade.
Cuide-se e cuide de quem vacila. A carta junta autoproteção e misericórdia.
Ore no Espírito. A edificação da fé vem junto com a oração.
Descanse em quem guarda. A doxologia lembra que o poder de preservar vem de Deus.
10. Leituras Recomendadas
- Calvino, João. Commentaries on the Catholic Epistles (sobre Judas). Domínio público, disponível em ccel.org.
- Lutero, Martinho. Sermons on 2 Peter and Jude. Em Luther's Works, vol. 30. Concordia Publishing House.
- Bauckham, Richard. Jude, 2 Peter. Word Biblical Commentary, vol. 50. Word, 1983.
- Schreiner, Thomas R. 1, 2 Peter, Jude. New American Commentary. B&H, 2003.
- Davids, Peter H. The Letters of 2 Peter and Jude. Pillar New Testament Commentary. Eerdmans, 2006.