1. O Nome
O nome יוֹנָה (Yonah), Jonas, significa "pomba". O texto do livro não explica o nome, e não cria um jogo de palavras com ele. A pomba aparece em outros pontos da Bíblia como símbolo de paz e de mensageira, mas o livro de Jonas não faz essa ligação. O profeta é identificado como "Jonas, filho de Amitai" (Jn 1:1).
יוֹנָה
Yonah
'Pomba'; o livro não explica o nome nem faz jogo de palavras com ele
Um profeta com o mesmo nome e o mesmo pai aparece em 2Reis 14:25, onde se diz que Jeroboão II restaurou os limites de Israel segundo a palavra do Senhor, que falara por intermédio de seu servo Jonas, filho de Amitai, o profeta de Gate-Hefer. A maioria dos intérpretes identifica os dois, o que situa Jonas no século VIII a.C.
2. Ficha rápida
✦Ficha rápida
- Outras formas: em grego, Ἰωνᾶς (Iōnas), como em Mateus 12:39-41.
- Período: século VIII a.C., no tempo de Jeroboão II (2Rs 14:23-25), se for o mesmo profeta de 2Reis.
- Locais: Gate-Hefer, Jope, o mar, Társis (destino da fuga), Nínive.
- Família: filho de Amitai.
- Papel: profeta do reino do norte enviado a Nínive, capital da Assíria.
- Onde aparece: livro de Jonas; 2Reis 14:25; Mateus 12:38-41 e 16:4; Lucas 11:29-32.
- Em uma frase: o profeta que fugiu da missão, foi alcançado por Deus no mar e ficou irado com a misericórdia que o Senhor mostrou a Nínive.
3. Quem foi
O livro de Jonas é uma narrativa, e não uma coleção de oráculos. Começa com uma ordem do Senhor: "vai à grande cidade de Nínive e clama contra ela" (Jn 1:2). Jonas se levanta, mas na direção contrária, "para fugir da presença do Senhor, para Társis" (Jn 1:3). Embarca em Jope. Uma tempestade ameaça o navio, os marinheiros clamam a seus deuses, e Jonas dorme no porão. Quando a sorte recai sobre ele, confessa:
Jn 1:9"Sou hebreu e temo ao Senhor, o Deus do céu, que fez o mar e a terra."
Ele pede que o lancem ao mar: "Tomai-me e lançai-me ao mar, e o mar se aquietará" (Jn 1:12). Os marinheiros hesitam, oram ao Senhor e fazem o que ele pede. O mar se aquieta, e os homens temem ao Senhor. Um grande peixe engole Jonas: "esteve Jonas três dias e três noites no ventre do peixe" (Jn 1:17).
Do ventre do peixe, Jonas ora. "Na minha angústia, clamei ao Senhor, e tu me ouviste a voz" (Jn 2:2). Descreve a descida às águas profundas e termina com uma confissão: "Ao Senhor pertence a salvação!" (Jn 2:9). Em seguida, o Senhor ordena ao peixe, e este vomita Jonas na terra seca (Jn 2:10).
O Senhor repete a ordem, e agora Jonas obedece. Anuncia em Nínive: "Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida" (Jn 3:4). A resposta é surpreendente:
Jn 3:5"Os ninivitas creram em Deus, e proclamaram um jejum"
Do maior ao menor, vestem-se de pano de saco. O rei também se humilha e decreta jejum e conversão, incluindo os animais (Jn 3:6-9). O texto conclui: "Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez" (Jn 3:10).
O capítulo 4 mostra a reação de Jonas, que se irrita e ora ao Senhor. Ele explica por que fugira: "sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se" (Jn 4:2). Pede a morte. O Senhor lhe pergunta: "É razoável essa tua ira?" (Jn 4:4). Jonas se senta fora da cidade, e Deus faz crescer uma planta que lhe dá sombra, e depois a faz secar. Jonas se irrita pela planta. O livro termina com a pergunta de Deus:
Jn 4:10"Tens compaixão da planta que te não custou trabalho"
E conclui: "não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive" (Jn 4:11), onde há mais de cento e vinte mil pessoas, além de muitos animais. O livro não registra a resposta de Jonas.
4. Contexto histórico e cultural
Nínive era a capital da Assíria, o império que dominava a região e que, no século VIII a.C., ameaçava Israel. O profeta foi enviado ao inimigo, e a notícia de que Deus poderia ter compaixão dele era difícil de aceitar. A irritação de Jonas é, em parte, nacional.
A geografia do livro é simbólica. Társis ficava no extremo oeste do mundo conhecido, e Nínive, a leste. Jonas foge na direção oposta à da ordem. O livro mostra o profeta descendo: a Jope, ao navio, ao porão, ao mar e às profundezas, antes de ser devolvido à terra seca.
A estrutura do livro tem uma simetria notável. O capítulo 1 e o 3 têm uma ordem de Deus, uma resposta e um arrependimento de gentios (marinheiros e ninivitas). O capítulo 2 e o 4 têm uma oração de Jonas e uma resposta de Deus. O livro foi lido na liturgia do Dia da Expiação na tradição judaica. Os estudiosos discutem o gênero do livro (história, parábola, sátira) e a data de composição, e este perfil registra a discussão na seção 8.
5. Linha do tempo
Linha do tempo
6. O que a Escritura ensina por meio dele
Não se foge de Deus. O livro mostra que "a presença do Senhor" alcança o mar, o porão e o ventre do peixe. A fuga de Jonas termina onde Deus quis.
Os de fora também respondem a Deus. Os marinheiros temem o Senhor e lhe oferecem sacrifícios (Jn 1:16), e os ninivitas creem e se arrependem (Jn 3:5). Os gentios do livro mostram mais prontidão do que o profeta.
Deus é clemente e misericordioso. A frase de Jonas 4:2, "Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se", é uma fórmula conhecida do Antigo Testamento. O livro mostra que o profeta a conhecia e que não queria vê-la aplicada a Nínive.
A compaixão de Deus é maior que a do profeta. O contraste entre a planta e a cidade (Jn 4:10-11) mostra que Deus se importa com as pessoas, com os que não sabem discernir entre a mão direita e a esquerda e com os animais.
O livro termina em aberto. A pergunta de Deus fica sem resposta registrada. O leitor é chamado a responder.
O que cada tradição destaca. A tradição batista aparece, nas buscas feitas, em um esboço de Charles Spurgeon, "The Ninevites' Repentance" (Jn 3:4), listado em My Sermon Notes (1884); é um esboço, e não um sermão completo. A tradição reformada aparece em materiais da Ligonier Ministries: a busca retornou uma aula de Derek Thomas, "God's Persistence with Jonah", e uma série em áudio sobre Jonas, e não encontrei um devocional específico. A tradição luterana tem as preleções de Lutero sobre Jonas e Habacuque, no volume 19 de Luther's Works (Concordia, 1974); a busca informa que esses dois profetas tiveram atenção especial de Lutero, que escreveu também versões em alemão para publicação. Para a tradição pentecostal, não encontrei fonte verificável específica sobre Jonas.
7. Cristo e o personagem
O próprio Jesus liga Jonas a si mesmo. Aos que pedem um sinal, ele responde que não será dado outro "senão o do profeta Jonas", e explica: "assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe", assim estará o Filho do Homem três dias e três noites no coração da terra (Mt 12:39-40). Acrescenta que os ninivitas condenarão aquela geração, "porque se arrependeram com a pregação de Jonas", e que ali estava quem é maior do que Jonas (Mt 12:41).
O paralelo é de três dias, de morte aparente e de saída. A cidade pagã que se arrependeu ao ouvir um profeta relutante contrasta com o povo que rejeita Aquele que é maior. Em Lucas 11:29-32, Jesus faz comparação semelhante.
Há outro paralelo, de personagem. Jonas se deixa lançar ao mar para que outros se salvem do perigo (Jn 1:12), e a tradição cristã vê nesse gesto uma sombra do sacrifício de Cristo. Essa leitura é de intérpretes, e este perfil a apresenta como tal. O contraste também existe: Jonas é um profeta que não quer a misericórdia para os de fora, e Jesus é aquele que a oferece a todos.
8. Pontos em debate
ℹOnde os intérpretes divergem
O gênero do livro. Jonas é história, parábola, sátira ou narrativa didática? Quem defende a historicidade aponta que Jesus fala dos ninivitas e de Jonas como realidades (Mt 12:41). Quem lê como parábola aponta a estrutura literária e as hipérboles (cidade de três dias de caminhada, rei e animais em pano de saco). Este perfil registra as posições.
O grande peixe. O texto fala de "um grande peixe" que o Senhor designou (Jn 1:17), sem especificar a espécie. Os debates sobre a possibilidade de sobreviver dentro dele não são do texto. Este perfil lê a narrativa como relato de ação de Deus.
O arrependimento de Deus. Jonas 3:10 diz que Deus "se arrependeu". Os teólogos discutem o vocabulário (mudança de ação em resposta à mudança do povo, sem mudança de caráter). Este perfil registra a discussão.
A natureza do arrependimento de Nínive. O texto diz que "creram em Deus" (Jn 3:5), mas não se sabe se foi conversão duradoura. Nahum, mais tarde, anuncia juízo sobre a mesma cidade. Este perfil registra a diferença.
A data. A maioria liga o profeta a 2Reis 14:25, no século VIII. Muitos estudiosos propõem que o livro foi composto depois do exílio. Este perfil não decide.
9. O que aprender hoje
Examine o que você não quer que Deus faça. Jonas recusou a missão porque conhecia o caráter de Deus e não queria que se aplicasse aos inimigos. Todos temos "Nínives" a quem preferiríamos que Deus não perdoasse.
Obedeça na segunda chance. Deus repetiu a ordem a Jonas (Jn 3:1-2). A graça dá novas oportunidades.
Alegre-se com o perdão dos outros. A irritação de Jonas é um aviso: é possível defender a justiça de Deus e se enfurecer com a misericórdia.
Veja pessoas, e não só problemas. Nínive tinha mais de cento e vinte mil pessoas (Jn 4:11). Deus se importa com cada uma.
Responda à pergunta. O livro termina com uma pergunta ao leitor. A resposta é o que o livro quer produzir.
10. Leituras Recomendadas
- Lutero, Martinho. Lectures on the Minor Prophets II: Jonah, Habakkuk. Em Luther's Works, vol. 19. Concordia Publishing House, 1974.
- Calvino, João. Commentaries on the Twelve Minor Prophets (sobre Jonas). Domínio público, disponível em ccel.org.
- Spurgeon, Charles H. My Sermon Notes: Ecclesiastes to Malachi (1884), esboço sobre Jonas 3:4. preceptaustin.org.
- Ligonier Ministries. "God's Persistence with Jonah" (Derek Thomas). learn.ligonier.org.
- Sasson, Jack M. Jonah. Anchor Bible. Doubleday, 1990.
- Alexander, T. Desmond. Obadiah, Jonah, Micah. Tyndale Old Testament Commentaries. IVP, 1988.