O Sermão

Personagem

Joel

Profeta de Judá, filho de Petuel, chamou o povo a rasgar o coração diante de uma praga de gafanhotos e anunciou o derramamento do Espírito sobre toda a carne. Quem foi Joel, e por que Pedro o citou em Pentecostes?

profetagafanhotosDia do SenhorarrependimentoEspírito SantoPentecostes

1. O Nome

O nome יוֹאֵל (Yo'el), Joel, é formado com o nome divino Yah (ou Yahweh) e El (Deus): "o Senhor é Deus" ou "Yahweh é Deus". O nome de Elias tem os mesmos elementos em ordem inversa. É uma confissão numa só palavra.

HebraicoJl 1:1

יוֹאֵל

Yo'el

'O Senhor é Deus' ou 'Yahweh é Deus'; nome formado com o nome divino e El (Deus)

O livro começa assim: "Palavra do Senhor que foi dirigida a Joel, filho de Petuel" (Jl 1:1). Fora isso, o livro não dá dados biográficos, nem data, nem menção de reis, o que faz da data de Joel um dos temas mais discutidos entre os profetas menores.


2. Ficha rápida

✦Ficha rápida

  • Outras formas: em grego, Ἰωήλ (Iōēl), como em Atos 2:16.
  • Período: incerto. Propostas vão do século IX a.C. ao período pós-exílico; o livro não data o ministério.
  • Locais: Judá e Jerusalém, Sião.
  • Família: filho de Petuel (Jl 1:1).
  • Papel: profeta de Judá; convoca o povo ao jejum e ao arrependimento diante de uma praga de gafanhotos e do Dia do Senhor.
  • Onde aparece: livro de Joel; citado em Atos 2:16-21 e Romanos 10:13.
  • Em uma frase: o profeta que viu na praga um sinal do Dia do Senhor e prometeu o derramamento do Espírito sobre toda a carne.

3. Quem foi

O livro de Joel abre com uma calamidade. O profeta convoca velhos e moradores da terra para ouvir:

"Ouvi isto, vós, velhos, e escutai, todos os habitantes da terra."

Jl 1:2

O texto pergunta se coisa semelhante já aconteceu e manda contá-la aos filhos. Em seguida, descreve a praga: "O que deixou o gafanhoto cortador, comeu-o o gafanhoto migrador" (Jl 1:4), e vários tipos de gafanhoto devoram as plantações, as videiras e as figueiras. A colheita se perde, os sacerdotes são chamados ao luto, é proclamado jejum e convocada uma assembleia solene (Jl 1:5-14). O profeta liga a calamidade ao Dia do Senhor, que está próximo (Jl 1:15).

O capítulo 2 amplia o quadro. Um exército imenso, descrito com imagens de gafanhotos e de fogo, avança sobre a terra, e o Dia do Senhor aparece como grande e terrível (Jl 2:11). No meio do juízo, vem o chamado ao arrependimento:

"Convertei-vos a mim de todo o vosso coração"

Jl 2:12

O texto continua com a ordem "Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes" (Jl 2:13). E apresenta o motivo: o Senhor é misericordioso e compassivo, tardio em irar-se (Jl 2:13). Segue a promessa de restauração: "Restituir-vos-ei os anos que foram consumidos pelo gafanhoto migrador" (Jl 2:25).

Então vem a promessa mais conhecida:

"E acontecerá, depois, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne"

Jl 2:28

Filhos e filhas profetizarão, velhos sonharão, jovens terão visões, e o Espírito será derramado também sobre servos e servas (Jl 2:28-29, em resumo). Haverá sinais no céu e na terra. E o texto conclui: "todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (Jl 2:32). O capítulo 3 trata do juízo sobre as nações e da restauração de Judá e Jerusalém.


4. Contexto histórico e cultural

O livro não traz data, e os estudiosos propõem períodos diferentes. Os que defendem uma data antiga, no século IX a.C., apontam que o livro não menciona rei, o que seria coerente com a regência de Joiada durante a menoridade de Joás. Os que defendem data pós-exílica, nos séculos V ou IV a.C., apontam que o livro menciona Jerusalém e os sacerdotes, não fala em reis e cita Edom e os gregos. O texto não decide. Este perfil registra a discussão e não toma partido.

A praga de gafanhotos era um desastre agrícola real no antigo Oriente Próximo. As quatro palavras para gafanhoto em Joel 1:4 parecem descrever estágios ou espécies. Os intérpretes discutem se o exército do capítulo 2 é um enxame de gafanhotos descrito poeticamente, um exército humano ou ambos. O livro usa a praga como sinal do Dia do Senhor.

O "Dia do Senhor" é um tema central nos profetas: um dia de juízo de Deus e, ao mesmo tempo, de libertação. Em Joel, o Dia do Senhor é tanto ameaça quanto oportunidade de volta, e o profeta convida a povo a se voltar enquanto há tempo (Jl 2:12-14).

Dois aspectos ajudam a ler o livro. O primeiro é a relação entre a praga e a liturgia. O profeta convoca sacerdotes, anciãos e povo para uma assembleia solene no Templo (Jl 1:13-14; 2:15-17). A resposta à crise, portanto, não é só individual, mas comunitária e litúrgica. A oração dos sacerdotes, entre o pórtico e o altar, pede que o Senhor poupe o povo e que as nações não zombem perguntando onde está o seu Deus (Jl 2:17). Há aí um modelo de oração pública diante de uma catástrofe.

O segundo aspecto é a promessa do capítulo 2, que responde ao arrependimento. O texto diz que o Senhor se mostrou zeloso pela sua terra e teve compaixão do seu povo (Jl 2:18). A resposta de Deus é material, com grãos, vinho e azeite, e depois espiritual, com o derramamento do Espírito. A ordem é significativa: Deus cuida do que o povo precisa no corpo e no coração.

A frase sobre rasgar o coração é um dos textos mais usados em celebrações de arrependimento. O profeta não despreza o jejum e o luto, mas pede que eles expressem uma mudança real. O versículo 13 apresenta a base dessa esperança: o caráter de Deus, misericordioso, compassivo, tardio em irar-se e grande em benignidade. O profeta repete a fórmula do Êxodo (Êx 34:6) e a aplica à situação do povo. A teologia de Joel está ancorada na revelação de Deus a Moisés.

Por fim, o capítulo 3 retoma o tema do juízo sobre as nações no vale de Josafá (Jl 3:2, 12), com imagens de colheita e de lagar. O Senhor habita em Sião, e Jerusalém será santa. O livro termina, assim, com a certeza de que a presença de Deus no meio do seu povo é a garantia final, ecoando a promessa dos outros profetas.


5. Linha do tempo

Linha do tempo


6. O que a Escritura ensina por meio dele

Calamidades são chamados à volta. Joel lê a praga como convite ao arrependimento, e não apenas como acidente. O livro liga o que acontece na terra à relação do povo com Deus.

Arrependimento é do coração. "Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes" (Jl 2:13) separa o gesto exterior do voltar a Deus. Rasgar as vestes era sinal tradicional de luto; o profeta pede mais.

Deus restitui. "Restituir-vos-ei os anos que foram consumidos pelo gafanhoto migrador" (Jl 2:25) é uma promessa de recuperação do que se perdeu. O texto não minimiza a perda e declara que Deus a repara.

O Espírito é prometido a todos. "Derramarei o meu Espírito sobre toda a carne" (Jl 2:28) é uma ampliação: filhos e filhas, velhos, jovens, servos e servas. O dom do Espírito não fica restrito a profetas e reis.

Salvação é invocar o nome do Senhor. "Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (Jl 2:32) conclui o oráculo e é retomada no Novo Testamento.

O que cada tradição destaca. A tradição pentecostal tem em Joel 2:28 um texto central, e as buscas feitas para este perfil mostraram o debate sobre o cumprimento: uma leitura vê Pentecostes como "chuva temporã", uma primeira parte, e espera uma "chuva serôdia" futura (associada ao movimento da Chuva Serôdia); outras leituras veem Atos 2 como cumprimento, com ou sem cumprimentos posteriores, e Daniel Treier, na revista da Sociedade Teológica Evangélica (1997), defende um modelo de cumprimento único. Não encontrei declaração oficial das Assembleias de Deus sobre Joel 2:28, e por isso não atribuo uma posição a essa denominação. A tradição batista aparece em um esboço de Charles Spurgeon sobre Joel 2:13, "Inward more than Outward" (My Sermon Notes, 1884). A tradição luterana tem Luther's Works, vol. 18, com as preleções de Lutero sobre os profetas menores, incluindo Joel. Para a tradição reformada, não encontrei fonte verificável específica sobre Joel.


7. Cristo e o personagem

O Novo Testamento cita Joel de forma decisiva. No dia de Pentecostes, diante da acusação de embriaguez, Pedro responde que aquilo era "o que foi dito por intermédio do profeta Joel" (At 2:16), e cita a promessa do derramamento do Espírito e a invocação do nome do Senhor (At 2:17-21). Pedro não diz que Joel apenas se parece com Pentecostes; ele o apresenta como a explicação do que acontecia. Sobre o sentido exato de "cumprimento", os intérpretes divergem (veja a seção 8).

Paulo cita Joel 2:32 em Romanos 10:13: "todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo", aplicando o texto ao Senhor Jesus. A passagem é lida pela tradição cristã como mostrando que o "Senhor" de Joel é o mesmo "Senhor" que Paulo confessa em Cristo.

O Cristo que dá o Espírito a seus seguidores (Jo 7:37-39; At 2:33) é a figura que o Novo Testamento liga à promessa de Joel. O texto de Joel não a identifica. A ligação é a leitura apostólica do cumprimento.


8. Pontos em debate

ℹOnde os intérpretes divergem

A data do livro. Propostas vão do século IX ao IV a.C. O livro não traz datação. Este perfil não decide.

O exército do capítulo 2. Gafanhotos, exército humano, ambos ou imagem do juízo final? Os intérpretes divergem. O texto usa o vocabulário de exército e de gafanhotos.

O cumprimento de Joel 2:28-32. Pedro diz que Pentecostes é o que Joel disse (At 2:16), mas os sinais cósmicos de Joel 2:30-31 (sol em trevas, lua em sangue) não aparecem no relato de Atos. As leituras incluem cumprimento único em Pentecostes, cumprimento inicial com desdobramento futuro, e leitura de "semelhança" (Pedro teria dito "foi dito", e não "cumpriu-se"). Este perfil registra as posições.

O "Dia do Senhor". Aqui é tanto presente (praga) quanto futuro (juízo final). A relação entre os dois é discutida. Este perfil lê o livro como unidade.

A interpretação da "chuva temporã e serôdia". O movimento da Chuva Serôdia aplicou Joel 2:23 ao século XX; críticos dizem que o texto fala de chuva física. Este perfil registra a leitura e a crítica.


9. O que aprender hoje

Leia as crises como chamado. Nem toda calamidade é castigo específico, mas toda crise é ocasião de voltar a Deus de todo o coração (Jl 2:12).

Prefira o coração rasgado. Gestos exteriores de arrependimento sem mudança interna não bastam.

Espere restituição. O Deus que repara os anos perdidos (Jl 2:25) convida a esperança de quem sofreu perdas.

Valorize o dom do Espírito para todos. A promessa inclui jovens e velhos, homens e mulheres, livres e servos (Jl 2:28-29). A igreja é lugar onde todos podem receber e servir.

Invoque o nome do Senhor. A salvação é oferecida a todo aquele que o invocar (Jl 2:32). A promessa é simples e vale para quem se aproxima.


10. Leituras Recomendadas

  • Lutero, Martinho. Lectures on the Minor Prophets I. Em Luther's Works, vol. 18. Concordia Publishing House.
  • Calvino, João. Commentaries on the Twelve Minor Prophets (sobre Joel). Domínio público, disponível em ccel.org.
  • Spurgeon, Charles H. My Sermon Notes: Ecclesiastes to Malachi (1884), esboço sobre Joel 2:13. preceptaustin.org.
  • Treier, Daniel J. "The Fulfillment of Joel 2:28–32: A Multiple-Lens Approach". Journal of the Evangelical Theological Society, vol. 40 (1997).
  • Garrett, Duane A. Hosea, Joel. New American Commentary. B&H, 1997.