1. O Nome
O nome Φιλήμων (Philēmōn), Filemom, é de origem grega e relaciona-se à raiz de phileō, "amar", e significa algo como "afetuoso" ou "amigo". Era um nome conhecido no mundo helenístico, ligado ao mito de Filêmon e Báucis, um casal de velhos hospitaleiros. O Novo Testamento não comenta o significado, mas a carta destaca justamente o amor e a hospitalidade do destinatário.
Φιλήμων
Philēmōn
Relacionado a phileō, 'amar'; algo como 'afetuoso' ou 'amigo'. O Novo Testamento não comenta o significado
Paulo o chama de amado e colaborador (Fm 1). Filemom é o único destinatário individual de uma carta curta de Paulo que não é pastoral, e a ele se juntam Áfia, Arquipo e a igreja que se reúne em sua casa (Fm 2).
2. Ficha rápida
✦Ficha rápida
- Outras formas: em grego, Φιλήμων (Philēmōn).
- Período: século I d.C., na época da prisão de Paulo.
- Locais: Colossos, na região da Frígia.
- Família: talvez casado com Áfia e pai de Arquipo, hipótese de leitura (Fm 2); o texto não afirma o parentesco.
- Papel: cristão de posses, dono de escravos, líder de uma igreja doméstica; destinatário da carta a Filemom.
- Onde aparece: Filemom 1-25; Colossenses 4:9, 17 (indiretamente).
- Em uma frase: o senhor cristão a quem Paulo pediu que recebesse de volta o escravo fugitivo como irmão amado.
3. Quem foi
Filemom é conhecido apenas pela carta que leva seu nome. Paulo, "prisioneiro de Cristo Jesus", com Timóteo, o saúda como amado e colaborador (Fm 1) e saúda também Áfia, Arquipo, companheiro de lutas, e a igreja em sua casa (Fm 2). A carta começa com elogios sinceros:
Fm 5"estando ciente do teu amor e da fé que tens para com o Senhor Jesus"
Paulo diz que ora para que a comunhão da fé de Filemom seja eficaz, e que teve grande alegria e consolo no amor dele, porque o coração dos santos tem sido reanimado por meio dele (Fm 6-7). Esse retrato é o de um cristão que acolhe e conforta.
Então vem o pedido. Onésimo, escravo de Filemom, estava com Paulo, e o apóstolo o envia de volta. O argumento de Paulo é de amor, e não de autoridade. Ele pede que Filemom o receba "não como escravo; antes, muito acima de escravo, como irmão caríssimo" (Fm 16). E conclui:
Fm 17"Se, portanto, me consideras companheiro, recebe-o, como se fosse a mim mesmo"
Paulo promete cobrir qualquer prejuízo: "lança tudo em minha conta" (Fm 18). Lembra a Filemom que ele mesmo lhe deve a vida (Fm 19) e expressa confiança na obediência dele, certo de que fará mais do que pede (Fm 21). Pede ainda que lhe prepare hospedagem, porque espera ser libertado e visitá-lo (Fm 22).
A carta termina com saudações: "Saúdam-te Epafras, prisioneiro comigo, em Cristo Jesus", e outros companheiros (Fm 23-24). O Novo Testamento não diz como Filemom respondeu, e esse silêncio é parte da força da carta: o leitor é deixado diante da decisão.
4. Contexto histórico e cultural
Filemom pertencia a uma classe com posses suficientes para ter escravos e uma casa grande o bastante para abrigar uma igreja. As primeiras comunidades cristãs se reuniam em casas, e o dono da casa tinha um papel de liderança e de patrocínio. Filemom, portanto, tinha responsabilidade pastoral e social.
A lei romana dava ao senhor amplo poder sobre os escravos, inclusive sobre os fugitivos, que podiam ser castigados com severidade. Filemom podia, legalmente, punir Onésimo. O pedido de Paulo desafia essa lógica, ao propor uma relação nova, fundada em fraternidade. Ele escreve em público, a toda a igreja (Fm 2), o que adiciona pressão moral: a decisão de Filemom será vista pela comunidade.
O vocabulário da carta é de dívida e de crédito. Paulo fala de lançar na conta, de pagar, de lembrar que Filemom lhe deve. Ele usa o idioma comercial do tempo para tratar de uma questão de graça. Alguns intérpretes veem nisso um tom bem-humorado, outros um uso sério da linguagem comercial. O texto não esclarece.
A estrutura da carta ajuda a ver o desenho do apelo. Há uma abertura em que Paulo e Timóteo saúdam Filemom, Áfia, Arquipo e a igreja (Fm 1-3). Segue uma ação de graças em que o apóstolo elogia o amor e a fé de Filemom (Fm 4-7). Depois vem o pedido sobre Onésimo, apoiado em argumentos de amor, de paternidade espiritual e de utilidade (Fm 8-16). Em seguida, Paulo reforça o pedido com a oferta de pagar a dívida e a lembrança de que Filemom lhe deve a própria vida (Fm 17-20). Por fim, expressa confiança, anuncia uma visita e envia saudações (Fm 21-25).
A menção a toda a igreja na saudação cria um contexto público. Filemom não é só um indivíduo escolhendo o que fazer com seu escravo, mas um líder cuja decisão será vista por uma comunidade inteira. Isso aumenta a pressão moral e faz da carta um documento de ética comunitária. Paulo trata a igreja como testemunha, e não como mera audiência.
A hospitalidade de Filemom é outro tema subjacente. A igreja se reunia na casa dele, e Paulo planeja ficar ali quando for libertado (Fm 22). O pedido de acolher Onésimo aparece, portanto, em um quadro de casa aberta. A fórmula "recebe-o como a mim mesmo" (Fm 17) liga a acolhida do escravo à acolhida do apóstolo, que ele já praticava.
A carta, curta, apresenta ainda uma ironia sutil. O dono da casa onde a igreja se reúne é chamado a reconhecer que, dentro da sua casa, há alguém que é irmão e escravo ao mesmo tempo. A situação não se resolve com teoria, mas com uma escolha concreta. O silêncio do texto sobre a decisão de Filemom obriga cada leitor a perguntar como teria respondido.
5. Linha do tempo
Linha do tempo
6. O que a Escritura ensina por meio dele
O amor cristão é concreto. A fé de Filemom se mostrava em atos de acolhida e em consolo aos santos (Fm 5-7). A carta liga fé e amor.
O evangelho muda a casa. A relação de Filemom com Onésimo é posta sob a luz de Cristo. Dono e escravo são agora irmãos, e isso exige ação.
A liberdade de decidir. Paulo pede, mas não impõe. Ele quer que o bem feito por Filemom seja espontâneo, e não por obrigação (Fm 14). A obediência cristã é livre.
Perdoar é receber. O pedido de Paulo não é só de absolvição, mas de acolhida: "recebe-o". O perdão pleno inclui restabelecer a relação.
A comunidade como testemunha. A carta é lida diante de toda a igreja. As decisões morais de um membro afetam e são vistas por todos.
O que cada tradição destaca. As buscas feitas para esta rodada não retornaram fonte verificável das quatro tradições (reformada, batista, luterana e pentecostal) sobre Filemom como personagem, e por isso este perfil não lhes atribui posições. As leituras convergem em ver a carta como exemplo do evangelho aplicado à relação entre senhor e escravo.
7. Cristo e o personagem
A carta a Filemom é, na leitura cristã, uma pequena parábola do evangelho. Paulo age como mediador entre dois lados, assume a dívida do ofensor e pede que o ofendido o receba como se fosse o próprio mediador. A tradição cristã vê nisso um reflexo da obra de Cristo. Essa leitura é de intérpretes, e este perfil a apresenta como tal.
A posição de Filemom também ilustra algo. Ele é o ofendido que tem o direito de exigir o castigo e é convidado a abrir mão disso por causa de Cristo. A graça que ele recebeu é o fundamento do que se espera dele. O Novo Testamento ensina de maneira geral que os cristãos perdoam como Deus os perdoou em Cristo (Ef 4:32).
A carta termina com uma bênção de graça sobre o espírito dos destinatários (Fm 25). A palavra "graça" abre e fecha a carta (Fm 3, 25), enquadrando o pedido.
8. Pontos em debate
ℹOnde os intérpretes divergem
O que Filemom fez. A carta não registra a resposta. Alguns estudiosos propõem que o fato de a carta ter sido preservada indica que Filemom atendeu o pedido. Outros advertem contra essa inferência. Este perfil registra o silêncio.
A libertação. Paulo pede libertação, ou apenas acolhida? O texto de Filemom 16 e 21 dá margem a leituras diferentes. Este perfil não decide.
A relação com Colossenses 4:17. Paulo manda dizer a Arquipo que atente para o ministério que recebeu no Senhor, para cumpri-lo (Cl 4:17). Alguns propõem que o "ministério" refira-se à libertação de Onésimo, mas o texto não diz. Este perfil registra a hipótese.
Filemom como dono de escravos. O fato de um cristão ser dono de escravos e líder de igreja levanta questões éticas. O Novo Testamento não condena a prática de forma direta, e os intérpretes divergem sobre como avaliar. Este perfil registra o debate.
9. O que aprender hoje
Seja conhecido pelo amor. O que Paulo destaca em Filemom é o amor e a fé. É uma boa descrição para uma vida cristã.
Abra a casa. A igreja em casa, na casa de Filemom, ilustra a hospitalidade como ministério.
Receba o irmão que errou. A carta convida a acolher, e não apenas a perdoar de longe.
Deixe o evangelho redefinir o status. Nenhuma hierarquia social anula o fato de que o outro é irmão em Cristo.
Decida com liberdade e generosidade. O que Paulo deseja é uma resposta espontânea, e não forçada.
10. Leituras Recomendadas
- Calvino, João. Commentaries on the Epistles to Timothy, Titus, and Philemon. Domínio público, disponível em ccel.org.
- Lutero, Martinho. Lectures on Titus, Philemon, and Hebrews. Em Luther's Works, vol. 29. Concordia Publishing House.
- Moo, Douglas J. The Letters to the Colossians and to Philemon. Pillar New Testament Commentary. Eerdmans, 2008.
- O'Brien, Peter T. Colossians, Philemon. Word Biblical Commentary, vol. 44. Word, 1982.
- Barclay, John M. G. Colossians and Philemon. T&T Clark, 1997.