O Sermão

Personagem

Ezequiel

Sacerdote levado ao exílio, chamado profeta junto ao rio Quebar, Ezequiel viu a glória de Deus, atuou como atalaia, profetizou sobre ossos secos e descreveu um Templo novo. O que o profeta de visões e sinais ensina sobre juízo e renovação?

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1. O Nome

O nome יְחֶזְקֵאל (Yechezqel), Ezequiel, é formado com a raiz de "fortalecer" e o nome El: "Deus fortalece" ou "que Deus fortaleça". O mesmo campo de sentido do nome de Ezequias. O texto bíblico não comenta o nome, mas o tema da força que vem de Deus é central ao livro.

HebraicoEz 1:3

יְחֶזְקֵאל

Yechezqel

'Deus fortalece' ou 'que Deus fortaleça'; nome formado com a raiz de 'fortalecer' e El (Deus)

O livro diz que "veio expressamente a palavra do Senhor a Ezequiel", o sacerdote, filho de Buzi, na terra dos caldeus, junto ao rio Quebar (Ez 1:3). O título "filho do homem", com que Deus se dirige a ele ao longo do livro, ressalta a distância entre o Criador e o profeta humano.


2. Ficha rápida

✦Ficha rápida

  • Outras formas: em grego, Ἰεζεκιήλ (Iezekiēl).
  • Período: profeta no exílio, cerca de 593 a 571 a.C., segundo as datas do próprio livro.
  • Locais: Tel-Abibe, junto ao rio Quebar, na Babilônia.
  • Família: filho de Buzi, da família sacerdotal; sua esposa morreu como sinal profético (Ez 24:15-18).
  • Papel: sacerdote e profeta entre os exilados da primeira deportação (597 a.C.); atalaia de Israel.
  • Onde aparece: livro de Ezequiel; Ezequiel 14:14, 20 e 28:3 (menção de Jó e Daniel); ecos em Apocalipse 21 e 22.
  • Em uma frase: o profeta-sacerdote que viu a glória de Deus no exílio e anunciou a renovação do povo pelo Espírito.

3. Quem foi

Ezequiel foi levado para a Babilônia na deportação de 597 a.C., com o rei Joaquim, segundo a cronologia do livro. No quinto ano do cativeiro, junto ao rio Quebar, recebe a visão que abre o livro:

"se abriram os céus, e eu tive visões de Deus"

Ez 1:1

O capítulo 1 descreve quatro seres viventes, rodas cheias de olhos e um trono sobre o firmamento, e conclui: "Esta era a aparência da glória do Senhor" (Ez 1:28). Ezequiel cai com o rosto em terra. O Senhor o envia à "casa rebelde" e lhe dá um rolo para comer: "come este rolo, vai e fala à casa de Israel" (Ez 3:1). O rolo é doce como mel (Ez 3:3). Deus o constitui atalaia:

"eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel"

Ez 3:17

O profeta deve advertir o ímpio e o justo, e a responsabilidade pelo sangue recai sobre ele se calar (Ez 3:17-21). Ele passa por períodos de silêncio e fala somente quando Deus lhe dá palavras (Ez 3:24-27).

Os primeiros capítulos mostram Ezequiel realizando gestos simbólicos: desenha o cerco de Jerusalém num tijolo, deita-se sobre os lados por muitos dias, corta o cabelo e a barba (Ez 4 e 5). Em visão, é levado a Jerusalém e vê as abominações no Templo, e depois vê a glória do Senhor deixar a cidade (Ez 8 a 11). Quando sua esposa morre, ele é proibido de fazer luto público, como sinal do que aconteceria quando o santuário fosse profanado (Ez 24:15-27).

Os capítulos 34 a 37 trazem promessas. O capítulo 34 condena os pastores de Israel: "Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos!" (Ez 34:2). Deus anuncia: "Eis que eu mesmo procurarei as minhas ovelhas e as buscarei" (Ez 34:11) e promete: "Suscitarei para elas um só pastor, e ele as apascentará; o meu servo Davi é que as apascentará" (Ez 34:23). O capítulo 36 promete transformação interior:

"Dar-vos-ei coração novo"

Ez 36:26

O texto continua com "tirarei de vós o coração de pedra" e "vos darei coração de carne", e com a promessa: "Porei dentro de vós o meu Espírito" (Ez 36:26-27). O capítulo 37 é a visão do vale de ossos secos. Deus pergunta: "Filho do homem, acaso, poderão reviver estes ossos?" (Ez 37:3). Ezequiel recebe a ordem de profetizar: "Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor" (Ez 37:4), e Deus promete: "Eis que farei entrar o espírito em vós, e vivereis" (Ez 37:5). A explicação é dada: "Porei em vós o meu Espírito, e vivereis" (Ez 37:14). Os ossos representam a casa de Israel, que dizia estar sem esperança.

Os capítulos 40 a 48 descrevem uma visão de um novo Templo e de um rio que sai dele e dá vida (Ez 47). O livro termina com o nome simbólico da cidade, que diz que o Senhor está ali (Ez 48:35).


4. Contexto histórico e cultural

Ezequiel pertence à primeira leva de exilados, que incluía a elite de Jerusalém: o rei Joaquim, os nobres e os artesãos. Eles viviam em comunidades junto aos canais da Babilônia, como Tel-Abibe, junto ao Quebar. O profeta fala a gente que perdera o Templo e a monarquia e que se perguntava se o Senhor ainda estava com eles.

Ele é sacerdote, e o interesse pelo Templo, pela pureza e pela glória de Deus perpassa o livro. A visão da glória que deixa o Templo (Ez 10 e 11) e que retorna ao novo Templo (Ez 43) estrutura a esperança do livro: Deus não estava preso a um prédio, e sua presença acompanhou o exílio.

O estilo do livro é marcado por visões, ações simbólicas e alegorias. O profeta é chamado de "filho do homem" mais de noventa vezes. Os intérpretes veem aí uma ênfase na condição humana do profeta diante de Deus.


5. Linha do tempo

Linha do tempo


6. O que a Escritura ensina por meio dele

A glória de Deus não depende de um lugar. Ezequiel vê o Senhor na Babilônia, longe do Templo (Ez 1). A presença de Deus acompanha o povo no exílio.

Responsabilidade de quem adverte. A imagem do atalaia (Ez 3:17) indica que quem sabe do perigo e se cala responde por isso. O capítulo 33 retoma a imagem e acrescenta o chamado à conversão.

Deus mesmo busca as ovelhas. "Eu mesmo procurarei as minhas ovelhas e as buscarei" (Ez 34:11) contrasta com os pastores que se alimentam a si mesmos. A solução para os maus líderes é a ação direta do Senhor, por meio de um pastor davídico.

Renovação é obra de Deus. "Dar-vos-ei coração novo" e "Porei dentro de vós o meu Espírito" (Ez 36:26-27) apresentam a mudança como dom. Nem o profeta nem o povo geram a vida nos ossos secos: Deus faz o espírito entrar neles (Ez 37:5).

A palavra profética tem poder. Ezequiel profetiza aos ossos e a palavra os reúne. O profeta cumpre o que Deus manda, e o resultado é de Deus.

O que cada tradição destaca. A tradição batista aparece, nas buscas feitas, em esboços de sermões de Charles Spurgeon sobre Ezequiel em My Sermon Notes (1884), como "Better than at your Beginning" (Ez 36:11) e "Mistaken Notions About Repentance" (Ez 36:30-31); são esboços, e não sermões completos. Para a visão dos ossos secos, as buscas retornaram leituras de autores pentecostais e carismáticos que ligam o vale a Pentecostes, pela palavra hebraica rûaḥ (sopro, vento, espírito), mas eram artigos de sites diversos, e não documentos oficiais de uma denominação. Para as tradições reformada e luterana, não encontrei fonte verificável específica sobre Ezequiel.


7. Cristo e o personagem

O Novo Testamento não cita Ezequiel com tanta frequência como Isaías, mas seus temas reaparecem. A promessa do pastor davídico (Ez 34:23) encontra eco em João 10, onde Jesus diz ser o bom pastor. O coração novo e o Espírito (Ez 36:26-27) se relacionam com a conversa de Jesus com Nicodemos sobre nascer da água e do Espírito (Jo 3:5), segundo muitos intérpretes. Essas ligações são leituras de intérpretes, e este perfil as apresenta como tal.

O rio que flui do Templo e traz vida (Ez 47) reaparece no Apocalipse, onde o rio da água da vida corre do trono de Deus e do Cordeiro (Ap 22:1). O cenário da nova cidade e a presença de Deus no meio do povo (Ez 48:35; Ap 21:3) estão em continuidade.

Outro aspecto é o título "filho do homem". Jesus usa a expressão sobre si mesmo nos Evangelhos, mas a fonte principal do título é Daniel 7. A relação entre os usos de Ezequiel e de Jesus é discutida. Este perfil registra a coincidência da expressão sem afirmar que o uso em Ezequiel é a origem.


8. Pontos em debate

ℹOnde os intérpretes divergem

O Templo de Ezequiel 40 a 48. Os intérpretes divergem sobre se descreve um Templo literal futuro, um ideal que se cumpre simbolicamente em Cristo e na Igreja, ou uma visão da restauração pós-exílica. Há leituras dispensacionalistas, reformadas e outras. Este perfil não decide.

O vale de ossos. A visão fala da restauração de Israel (Ez 37:11), e muitos leem também uma esperança de ressurreição. A relação com a ressurreição individual é discutida. Leituras pentecostais ligam a passagem a Pentecostes. Este perfil registra as leituras.

As ações simbólicas. Alguns intérpretes veem Ezequiel realizando literalmente atos como deitar-se por dias, outros os tratam como visões ou descrições simbólicas. O texto não esclarece em todos os casos. Este perfil registra a questão.

A saúde do profeta. Alguns estudiosos modernos propõem condições psicológicas para explicar o comportamento de Ezequiel. A maioria dos intérpretes conservadores rejeita a ideia e lê o livro como relato de ação divina. Este perfil não entra no debate clínico.

A unidade do livro. O livro é geralmente aceito como obra do profeta do exílio, com debates sobre redação posterior de partes. Este perfil lê o livro como unidade.


9. O que aprender hoje

Deus não está preso a um lugar. O exilado Ezequiel viu a glória de Deus em terra estrangeira. Há tempos em que o culto que conhecemos não está ao alcance, e Deus continua presente.

Seja atalaia. Quem conhece o perigo precisa avisar. O ofício é pesado e não depende de a mensagem ser bem recebida.

Espere a renovação como dom. A mudança de coração é promessa de Deus, e não conquista (Ez 36:26-27). Reconhecer a própria secura é o primeiro passo.

Profetize aos ossos. Ezequiel falou a um vale de mortos porque Deus mandou. Quem serve em situações que parecem sem esperança pode falar a palavra de Deus sem ver o resultado de imediato.

Mantenha a esperança de que Deus está ali. O fim do livro é uma cidade em que "o Senhor está ali". A esperança do cristão é a presença de Deus no meio do seu povo.


10. Leituras Recomendadas

  • Calvino, João. Commentaries on the First Twenty Chapters of the Book of the Prophet Ezekiel. Domínio público, disponível em ccel.org.
  • Spurgeon, Charles H. My Sermon Notes: Ecclesiastes to Malachi (1884), esboços sobre Ezequiel. preceptaustin.org.
  • Block, Daniel I. The Book of Ezekiel. New International Commentary on the Old Testament. Eerdmans, 1997 e 1998.
  • Wright, Christopher J. H. The Message of Ezekiel. IVP, 2001.
  • Taylor, John B. Ezekiel. Tyndale Old Testament Commentaries. IVP, 1969.