1. O Nome
O nome Διοτρέφης (Diotrephēs), Diótrefes, é formado por Dios, "de Zeus", e trephō, "nutrir" ou "criar", e significa "nutrido por Zeus" ou "alimentado por Zeus". É um nome de origem grega, com elemento pagão, comum entre pessoas de classe alta. O Novo Testamento não comenta o significado. A origem do nome não é prova de nada sobre a pessoa, já que muitos cristãos portavam nomes de tradição pagã.
Διοτρέφης
Diotrephēs
De Dios ('de Zeus') e trephō ('nutrir'): 'nutrido por Zeus'; nome grego com elemento pagão. O Novo Testamento não comenta o significado
Ele aparece em um único versículo duplo do Novo Testamento, 3João 9-10, em contraste com Gaio e Demétrio. Nada mais se sabe dele, e este perfil se limita ao que a carta diz.
2. Ficha rápida
✦Ficha rápida
- Outras formas: em grego, Διοτρέφης (Diotrephēs).
- Período: final do século I d.C., segundo a datação tradicional das cartas de João.
- Locais: uma igreja local na Ásia Menor, não identificada.
- Família: o texto não registra.
- Papel: membro influente de uma igreja local; opositor do presbítero e de seus enviados.
- Onde aparece: 3João 9-10.
- Em uma frase: o homem que queria ser o primeiro na igreja, rejeitou a autoridade do presbítero e expulsou os que acolhiam os missionários.
3. Quem foi
O presbítero João, depois de elogiar Gaio, passa a tratar de um problema. Ele diz que escreveu algo à igreja, mas que há um obstáculo:
3Jo 9"mas Diótrefes, que gosta de exercer a primazia entre eles, não nos dá acolhida."
A expressão traduzida por "gosta de exercer a primazia" é um verbo grego que designa quem ama ser o primeiro (philoprōteuōn). O texto o descreve como alguém movido por ambição de posição. O presbítero declara que, se for visitar, chamará a atenção para as obras que Diótrefes pratica (3Jo 10, em resumo).
A acusação tem quatro elementos. Primeiro, Diótrefes "não nos dá acolhida", isto é, recusa a autoridade do presbítero. Segundo, fala mal do presbítero e dos seus com palavras maldosas (3Jo 10). Terceiro, não satisfeito com isso, não recebe os irmãos. Quarto, impede os que querem recebê-los e "os expulsa da igreja" (3Jo 10). O verbo "expulsar" significa lançar para fora.
A exortação seguinte é a Gaio, e é geral: "Amado, não imites o que é mau, senão o que é bom", e acrescenta que "aquele que pratica o mal jamais viu a Deus" (3Jo 11). O pano de fundo é o contraste entre os dois, Diótrefes e Demétrio, este último com bom testemunho (3Jo 12).
O Novo Testamento não diz o que aconteceu com Diótrefes. A carta anuncia uma visita do presbítero, e fica para o leitor a pergunta de como a situação terminou. O fato de a carta ter sido preservada sugere que o problema era importante, mas isso é inferência.
4. Contexto histórico e cultural
O conflito de 3João pode ser lido de duas formas. Pode ser um conflito de autoridade: Diótrefes recusa a supervisão do presbítero, que era uma figura de referência para várias igrejas. Ou pode ser um conflito doutrinário, ligado às questões tratadas em 1 e 2João, como a confissão de Cristo em carne e os falsos mestres. A carta não diz qual, e os estudiosos divergem.
A estrutura das igrejas no fim do século I variava. Em algumas, havia presbíteros em colegiado; em outras, uma figura de liderança local mais forte. O texto sugere que Diótrefes tinha poder para decidir quem entrava e saía da igreja, o que mostra que ele exercia autoridade prática na comunidade. A forma como ele a usou, porém, é condenada.
O uso do verbo "expulsar" é relevante. Em outros textos, o Novo Testamento trata a exclusão como instrumento de disciplina contra o pecado (1Co 5:13, em resumo). Aqui, ela serve a uma finalidade oposta: excluir os que fazem o bem. A inversão mostra a gravidade da conduta.
A pergunta sobre o motivo da oposição de Diótrefes não tem resposta no texto, mas as hipóteses ajudam a ver as possibilidades. Uma delas é que ele defendia a autonomia da igreja local diante da autoridade do presbítero, e via os enviados de João como intromissão. Outra é que ele tinha divergências doutrinárias com a comunidade joanina. Uma terceira é que a motivação era pessoal, simples ambição de poder. A carta fala em primazia, o que favorece a terceira, mas não exclui as outras.
O uso do verbo "falar mal" (3Jo 10) é significativo. O texto diz que Diótrefes fala mal do presbítero com palavras maldosas, o que sugere campanha de difamação. Isso se repete na história da igreja: quando um líder se sente ameaçado, muitas vezes recorre ao descrédito de quem o contraria. A carta de João não responde com contra-calúnia, mas com a promessa de uma visita e de uma exposição direta das obras.
A comparação com outros textos do Novo Testamento é instrutiva. Pedro exorta os presbíteros a pastorear o rebanho, "nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho" (1Pe 5:3), um contraste direto com a postura de Diótrefes. Jesus alerta que entre os discípulos não deve haver quem domine como os governantes das nações (Mc 10:42-44, em resumo). A figura de Diótrefes funciona, na história da interpretação, como o exemplo clássico do que o Novo Testamento proíbe na liderança.
Finalmente, o caso de Diótrefes lembra que o pecado na igreja nem sempre vem de fora. O conflito não é entre cristãos e perseguidores, mas entre membros de uma mesma comunidade. A carta de João oferece uma pedagogia: nomear o problema, apoiar quem faz o bem, recomendar quem tem bom testemunho e anunciar uma visita. É um pequeno manual de cuidado pastoral em situação de conflito.
5. Linha do tempo
Linha do tempo
6. O que a Escritura ensina por meio dele
Ambição de posição é perigo espiritual. Gostar de ser o primeiro é identificado como a raiz do problema. A igreja é lugar de serviço, e não de promoção.
Autoridade serve, não domina. O contraste com o ensino de Jesus é direto: entre os discípulos, o maior é o que serve (Mc 10:43-44, em resumo). Diótrefes usou o poder para excluir, e o texto o condena.
Calúnia e controle andam juntos. Falar mal de quem se opõe a nós e fechar as portas aos que o apoiam são práticas de quem protege o próprio poder.
A hospitalidade pode ser um ato de resistência. Quem acolheu os irmãos arriscava expulsão. O texto reconhece o custo.
O mal é identificado pelos frutos. "Aquele que pratica o mal jamais viu a Deus" (3Jo 11) é uma regra de discernimento: as obras mostram o coração.
O que cada tradição destaca. As buscas feitas para esta rodada não retornaram fonte verificável das quatro tradições (reformada, batista, luterana e pentecostal) sobre Diótrefes como personagem, e por isso este perfil não lhes atribui posições. O texto de 3João 9-10 é citado em debates sobre autoridade e governo da igreja em todas as tradições, mas não encontrei fonte para atribuir uma posição específica a uma denominação.
7. Cristo e o personagem
Diótrefes é, em tudo, o contrário de Cristo. O Filho de Deus "não veio para ser servido, mas para servir" (Mc 10:45), e Diótrefes quer ser servido. A carta não faz essa comparação, mas ela está implícita no vocabulário da primazia, que Jesus rejeitou como critério de grandeza (Lc 22:24-27, em resumo). Essa comparação é de leitores.
Em outro registro, o Novo Testamento chama Cristo de "cabeça da igreja" (Ef 5:23; Cl 1:18, em resumo). A conduta de Diótrefes, que se coloca à frente, disputa o lugar que pertence a Cristo. Essa leitura é uma extensão de intérpretes, e este perfil a apresenta como tal.
O contraponto positivo está em Demétrio, que "todos... dão testemunho" (3Jo 12). A carta mostra que, em uma mesma igreja, convivem pessoas que representam Cristo e pessoas que o contradizem.
8. Pontos em debate
ℹOnde os intérpretes divergem
A natureza do conflito. Foi disputa de autoridade ou de doutrina? Alguns veem em Diótrefes um precursor do episcopado monárquico, que não aceitava interferência externa. Outros veem um líder ambicioso que defendia o próprio poder. Este perfil não decide.
Diótrefes era herege? A carta não o acusa de falsa doutrina, mas de ambição e de conduta. Alguns estudiosos propõem que as questões teológicas de 1 e 2João estavam por trás do conflito. O texto não afirma. Este perfil se limita ao que diz.
"Não nos dá acolhida." O verbo pode ter sentido de receber pessoas ou de aceitar autoridade e ensino. Os dois sentidos são possíveis, e a diferença afeta a interpretação do conflito. Este perfil registra a ambiguidade.
O destino de Diótrefes. O Novo Testamento não diz. A carta promete uma visita e uma confrontação. Este perfil não especula.
9. O que aprender hoje
Examine sua motivação. O desejo de ser o primeiro pode se disfarçar de zelo pela igreja. A pergunta honesta é: a quem eu sirvo?
Não use poder para excluir quem faz o bem. Controle que fecha portas aos missionários é abuso de autoridade.
Aceite correção e supervisão. A igreja local não é independente de toda responsabilidade. Diótrefes recusou a autoridade, e o texto o condena.
Defenda os que acolhem. A carta apoia Gaio em seu bem. Quem faz o bem em meio a pressão precisa de apoio.
Julgue pelos frutos. As obras revelam o coração. Líderes, e todos nós, são conhecidos pelo que fazem.
10. Leituras Recomendadas
- Calvino, João. Commentaries on the Catholic Epistles (sobre 3João). Domínio público, disponível em ccel.org.
- Smalley, Stephen S. 1, 2, 3 John. Word Biblical Commentary, vol. 51. Word, 1984.
- Yarbrough, Robert W. 1-3 John. Baker Exegetical Commentary on the New Testament. Baker, 2008.
- Brown, Raymond E. The Epistles of John. Anchor Bible. Doubleday, 1982.
- Stott, John R. W. The Letters of John. Tyndale New Testament Commentaries. IVP, 1988.