1. O Nome
O nome דָּנִיֵּאל (Daniyyel) é formado por duas partes hebraicas: din (julgar) e El (Deus). A forma mais comum de entendê-lo é "Deus é meu juiz" ou "Deus julgou". Em um livro cheio de reis que se acham senhores do mundo, o nome já traz uma afirmação: quem julga, em última instância, é Deus.
דָּנִיֵּאל
Daniyyel
'Deus é meu juiz' ou 'Deus julga'; o nome carrega a ideia central do livro, a soberania de Deus sobre os reinos
Os babilônios lhe dão outro nome. O livro registra: "O chefe dos eunucos lhes pôs outros nomes, a saber: a Daniel, o de Beltessazar; a Hananias, o de Sadraque; a Misael, o de Mesaque; e a Azarias, o de Abede-Nego" (Dn 1:7). A troca de nomes faz parte de um programa de assimilação: os jovens deveriam aprender a língua e a cultura da corte babilônica (Dn 1:4).
2. Ficha rápida
✦Ficha rápida
- Outras formas: Beltessazar (nome babilônico, Dn 1:7); em grego, Δανιήλ (Daniēl).
- Período: levado a Babilônia no reinado de Jeoaquim (Dn 1:1) e ativo até o primeiro ano do rei Ciro (Dn 1:21), segundo o livro; séculos VII e VI a.C.
- Locais: Jerusalém, Babilônia, Susã (visão de Dn 8:2).
- Família: de linhagem real ou nobre de Judá, segundo o relato (Dn 1:3, 6); não há registro de esposa ou filhos.
- Papel: sábio e administrador nas cortes de Nabucodonosor, Belsazar, Dario e Ciro; intérprete de sonhos e visões; autor, ou personagem central, do livro que leva seu nome.
- Onde aparece: livro de Daniel; também Ezequiel 14:14, 20 e 28:3, e Mateus 24:15.
- Em uma frase: o exilado que serviu a reis pagãos sem comprometer sua fidelidade ao Deus de Israel.
3. Quem foi
O livro abre com a queda de Jerusalém: Nabucodonosor, rei da Babilônia, cerca a cidade no terceiro ano de Jeoaquim, e "o Senhor lhe entregou nas mãos a Jeoaquim, rei de Judá, e alguns dos utensílios da Casa de Deus" (Dn 1:1-2). O rei manda trazer alguns jovens da linhagem real e da nobreza, "sem nenhum defeito, de boa aparência, instruídos em toda a sabedoria" (Dn 1:3-4), e determina que sejam alimentados com as finas iguarias da mesa real por três anos (Dn 1:5).
O primeiro teste de Daniel é pequeno e decisivo:
Dn 1:8"Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então, pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se."
O texto diz que "Deus concedeu a Daniel misericórdia e compreensão da parte do chefe dos eunucos" (Dn 1:9). Daniel propõe um teste de dez dias com legumes e água, e no fim os quatro estavam com melhor aparência (Dn 1:12-15). O capítulo conclui que Deus deu aos quatro jovens conhecimento e inteligência, e "a Daniel deu inteligência de todas as visões e sonhos" (Dn 1:17). Diante do rei, os achou "dez vezes mais doutos do que todos os magos e encantadores" (Dn 1:20).
No capítulo 2, Nabucodonosor tem um sonho que ninguém consegue contar nem interpretar, e Daniel o revela, atribuindo a Deus a capacidade (Dn 2:27-28). O capítulo 3 narra a imagem de ouro e a fornalha de fogo. Daniel não aparece nessa cena, mas seus três companheiros respondem ao rei:
Dn 3:17-18"Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei. Se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste."
Eles são lançados na fornalha, e o rei vê quatro homens soltos andando no meio do fogo, "sem nenhum dano; e o aspecto do quarto é semelhante a um filho dos deuses" (Dn 3:25). Nabucodonosor bendiz o Deus deles (Dn 3:28). Nos capítulos 4 e 5, Daniel interpreta o sonho da árvore, que anuncia a humilhação do rei, e a escrita na parede no banquete de Belsazar, que anuncia a queda da Babilônia (Dn 4 e 5).
O capítulo 6 narra o episódio mais conhecido. Sob o rei Dario, Daniel se distingue entre os sátrapas, "porque nele havia um espírito excelente" (Dn 6:3). Seus rivais procuram uma acusação e concluem: "Nunca acharemos ocasião alguma para acusar a este Daniel, se não a procurarmos contra ele na lei do seu Deus" (Dn 6:5). Eles convencem o rei a assinar um decreto que proíbe qualquer petição a deus ou homem por trinta dias, exceto ao rei. A reação de Daniel é narrada com economia:
Dn 6:10"Daniel, pois, quando soube que a escritura estava assinada, entrou em sua casa e, em cima, no seu quarto, onde havia janelas abertas do lado de Jerusalém, três vezes por dia, se punha de joelhos, e orava, e dava graças, diante do seu Deus, como costumava fazer."
Daniel é lançado na cova dos leões. Pela manhã, o rei corre até lá e o chama com voz triste. A resposta:
Dn 6:22"O meu Deus enviou o seu anjo e fechou a boca aos leões, para que não me fizessem dano, porque foi achada em mim inocência diante dele; também contra ti, ó rei, não cometi delito algum."
O texto conclui que "nenhum dano se achou nele, porque crera no seu Deus" (Dn 6:23).
A segunda metade do livro traz visões. No capítulo 7, Daniel vê quatro animais e depois o Ancião de Dias assentado em seu trono. Vem "com as nuvens do céu um como o Filho do Homem", a quem é dado "domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem" (Dn 7:13-14). Os capítulos 8 a 12 trazem outras visões, sobre carneiros e bodes, as setenta semanas e os últimos tempos. No capítulo 9, depois de entender pelos livros que a desolação de Jerusalém duraria setenta anos, segundo Jeremias, Daniel volta o rosto ao Senhor com jejum, pano de saco e cinza, e confessa o pecado do povo como se fosse também dele (Dn 9:1-5). O livro termina com uma promessa pessoal: "Tu, porém, segue o teu caminho até ao fim; pois descansarás e, ao fim dos dias, te levantarás para receber a tua herança" (Dn 12:13).
4. Contexto histórico e cultural
O livro situa Daniel no exílio babilônico, depois da primeira deportação de Judá, no tempo de Jeoaquim (Dn 1:1-2), e o acompanha por mais de seis décadas, até o primeiro ano de Ciro (Dn 1:21). Nabucodonosor, Belsazar, Dario e Ciro são os soberanos mencionados. A identidade de "Dario, o medo" (Dn 5:31; 6:1) é discutida pelos estudiosos, e este perfil não se apoia em nenhuma identificação.
Os jovens deportados eram treinados para servir à corte. A educação babilônica incluía língua, literatura e ciência da época (Dn 1:4). O dilema de Daniel não era a recusa da cultura, pois ele a aprendeu e a usou. O limite que ele traçou foi onde a fidelidade a Deus estava em jogo: a comida do rei, a imagem, a oração (Dn 1:8; 3:18; 6:10).
O livro é escrito em duas línguas, hebraico e aramaico. A passagem em aramaico vai de Daniel 2:4 a 7:28, e o restante é em hebraico. Essa estrutura é observada por todos os estudiosos, e a explicação é discutida.
5. Linha do tempo
Linha do tempo
6. O que a Escritura ensina por meio dele
A fidelidade se decide nas pequenas escolhas. O livro começa com uma recusa discreta, e não com um milagre: "Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se" (Dn 1:8). A firmeza do capítulo 6 tem raiz no capítulo 1.
Servir ao Estado sem entregar a consciência. Daniel trabalha para reis estrangeiros por décadas, e seus inimigos reconhecem que não acham falha nele "se não a procurarmos contra ele na lei do seu Deus" (Dn 6:5). Ele não confrontou o império por princípio, e também não cedeu quando o decreto o obrigava a escolher.
A oração é o centro, e não um acessório. Em Daniel 6:10, a oração continua "como costumava fazer". Em Daniel 9, a oração é confissão de pecado em favor do povo e apelo à misericórdia: "não lançamos as nossas súplicas perante a tua face fiados em nossas justiças, mas em tuas muitas misericórdias" (Dn 9:18).
Deus governa os reinos. Sonhos, fornalhas e leões servem a uma tese: "O seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído" (Dn 7:14). Os impérios se sucedem e Deus permanece.
בַּר אֱנָשׁ
bar enash
'Filho de homem' (aramaico); expressão usada em Daniel 7:13 para alguém com aparência humana a quem é dado domínio eterno
O que cada tradição destaca. O livro de Daniel é leitura central em várias tradições, mas as fontes verificáveis que consegui consultar para este perfil tratam mais da discussão acadêmica sobre a data do livro do que de uma leitura própria de cada tradição. O que posso afirmar com base nelas é que a posição tradicional, defendida por muitos estudiosos evangélicos de diversas denominações, situa a composição no século VI a.C., e que uma posição crítica a situa por volta de 165 a.C., no período macabeu. Não encontrei fonte batista, luterana, reformada ou pentecostal verificável sobre Daniel como personagem, e por isso este perfil não atribui a cada tradição uma posição específica. As tradições cristãs em geral concordam em ler Daniel como testemunho de fidelidade no exílio e como livro cuja visão do Filho do Homem aponta para Cristo.
7. Cristo e o personagem
A conexão de Daniel com Cristo é mais forte pela visão do que pela biografia. Em Daniel 7:13-14, alguém "como o Filho do Homem" vem com as nuvens do céu, é conduzido ao Ancião de Dias e recebe domínio, glória e reino eternos. Nos Evangelhos, "Filho do Homem" é o título mais usado por Jesus para falar de si mesmo, e muitos intérpretes veem em Daniel 7 a origem dessa linguagem. Esta ligação é uma leitura de intérpretes, e este perfil a apresenta como tal. O que o texto de Daniel afirma é a figura humana que recebe um reino que não passa.
Daniel 12:2 contém uma das afirmações mais claras do Antigo Testamento sobre a ressurreição: "Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno." No versículo 3, "os que a muitos conduzirem à justiça, como as estrelas, sempre e eternamente". A promessa pessoal a Daniel, de se levantar para receber a herança (Dn 12:13), antecipa o que o Novo Testamento anuncia em Cristo.
Na fornalha, o rei vê um quarto homem com "aspecto semelhante a um filho dos deuses" (Dn 3:25), e depois diz que Deus "enviou o seu anjo" (Dn 3:28). O texto fala em anjo, e a identificação do quarto com Cristo é uma leitura de alguns intérpretes, que este perfil registra sem afirmar.
8. Pontos em debate
ℹOnde os intérpretes divergem
A data do livro. Existem duas posições principais. A tradicional, defendida por muitos evangélicos, entende que o livro foi composto durante ou pouco depois da vida de Daniel, por volta de 530 a.C. A posição crítica, hoje majoritária na pesquisa acadêmica em geral, entende que a forma atual do livro foi composta por volta de 165 a.C., durante a perseguição de Antíoco IV Epifânio e a revolta dos macabeus. Os defensores da data antiga apontam, entre outros pontos, a antiguidade dos manuscritos de Daniel encontrados em Qumran. Este perfil adota, em sua exposição, a apresentação do livro sobre si mesmo, sem encerrar o debate.
A identidade do "Filho do Homem". Intérpretes judeus e cristãos divergem sobre se a figura de Daniel 7:13 é um indivíduo, o povo dos santos (Dn 7:27) ou ambos. A tradição cristã a aplica a Cristo. Este perfil registra o debate.
As setenta semanas (Dn 9:24-27). A profecia é um dos textos mais discutidos de toda a Bíblia, e as principais correntes divergem quanto ao cumprimento e à cronologia. Este perfil não toma partido.
Miguel (Dn 12:1). O "grande príncipe, o defensor dos filhos do teu povo" é geralmente identificado como o arcanjo Miguel. O assunto tem perfil próprio, em outro lugar.
9. O que aprender hoje
Decida antes de ser pressionado. Daniel "resolveu firmemente" no capítulo 1, antes de qualquer ameaça (Dn 1:8). Convicções formadas em tempo de calma sustentam em tempo de crise.
Dê o crédito a Deus. Diante de Nabucodonosor, Daniel não se apresenta como o autor da interpretação, e sim como alguém a quem Deus revelou o mistério (Dn 2:27-28).
Mantenha seus hábitos de oração. A oração de Daniel continuou "como costumava fazer" (Dn 6:10). A prática diária o preparou para a crise.
Faça a confissão que é do povo. Daniel não era culpado do exílio, mas ora dizendo "temos pecado" (Dn 9:5). Quem intercede se solidariza com os que erraram.
Viva com esperança do fim. A promessa final é pessoal e concreta: "segue o teu caminho até ao fim" (Dn 12:13). A esperança de ressurreição dá sentido à fidelidade que não é recompensada de imediato.
10. Leituras Recomendadas
- Calvino, João. Commentaries on the Book of the Prophet Daniel. Domínio público, disponível em ccel.org.
- Lutero, Martinho. Preface to the Prophet Daniel (1530). Em Luther's Works, vol. 35. Concordia Publishing House / Fortress Press.
- Baldwin, Joyce G. Daniel. Tyndale Old Testament Commentaries. IVP, 1978.
- Goldingay, John. Daniel. Word Biblical Commentary, vol. 30. Zondervan, 1989.
- Young, Edward J. The Prophecy of Daniel. Eerdmans, 1949 (defesa da data antiga).